PUBLICIDADE
Topo

Julie Dorrico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

A retomada da memória Kariri pelo projeto Museu-Vivo

Projeto do Museu-Vivo das Marrecas - Larissa Galvão, Elis Rigoni, Rodrigo Alencar e Rayra F.
Projeto do Museu-Vivo das Marrecas Imagem: Larissa Galvão, Elis Rigoni, Rodrigo Alencar e Rayra F.
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

24/03/2021 04h00

O Museu-Vivo das Marrecas é uma iniciativa que busca revitalizar a memória de um povo da nação Kariri, da comunidade do Marreco (fala-se Mareco também), que está localizada em Quitaíus, Lavras da Mangabeira, no estado do Ceará.

A idealizadora, Bárbara Matias, doutoranda em Artes da Cena (UFMG), que trabalha com escrita, audiovisual, foto-performance, compartilhou as intenções do projeto, atualmente em campanha com financiamento coletivo no site do Kickante, como "Construção do Museu-Vivo das Marrecas Kariri". O Museu-Vivo, desenhado pela comunidade, busca ser um espaço de "exposição de artesanatos, práticas de rezo, raizeiros, parteiras e acolhimento das artes", bem como minimizar a ausência de políticas públicas no que diz respeito às atividades culturais e educativas.

Bárbara reitera a importância do Museu como um lugar para reagrupar simbolicamente as famílias Kariri que foram separadas no fim da década de 1990, pela construção do açude do Rosário que alagou a região, impactando diretamente e dispersando as famílias que viviam em sítios em torno do rio. Como seis famílias decidiram ficar e reconstruir seus sítios, de frente para o açude, o espaço escolhido para o museu, de certa forma, simboliza a resistência em deixar o seu território, reforçando a intrínseca relação da comunidade com a terra das marrecas.

Histórias de origem: as marrecas e o Batí

A comunidade do Marreco (ou Maréco), se chama assim porque em sua comovisão, no passado eram todos marrecas. Dessa forma, diz Bárbara: "O Museu das Marrecas é um selo de retomada de um povo que foi dado como extinto, por isso, é um sonho contra-colonial, não esquecemos por nenhum instante que andamos em bandos porque somos antes de qualquer coisa, Marrecas".

Entrevistei outros jovens Kariri para saber dos impactos da retomada da identidade indígena frente à brasileira. Sinalizar a pluralidade de identidades existentes no território nacional significa debatermos cada vez mais sobre a inclusão da diversidade étnico-racial na educação.

Rebeca Menezes, que difunde a literatura indígena Paraíba no Instagram; e, Mikael Correia (povo Kariú-Kariri), do Crato, da Serra do Juá, um dos participantes do Retomada Kariri Ceará, contaram um pouco sobre a memória do povo e a importância de ações para o reconhecimento da identidade indígena. Povos da nação Kariri guardam na memória o ritual Batí, que era praticado também pelos povos da nação Tarairiú.

O Batí é muito presente no sertão do nordeste. É o período das celebrações juninas que marcam a mudança de estação, o final do inverno, simbolizando assim o surgimento de um novo ciclo (ano novo). Caracteriza-se pelo plantio do milho, batata, amendoim, mandioca, culminando na colheita em junho, momento que os povos da nação Kariri se reúnem em círculo e dançam o Toré ao redor da fogueira, celebrando a presença das plêiades, ou Sete-estrelas, morada de Badzé, Warakidzã e Poditã.

Mikael nos descreve poeticamente a relação do território Cariri com os deuses e o ritual:

"O território chamado Cariri, sul do Siará, é o território sagrado de Badzé - o Deus do fumo e criador do mundo. Badzé é o grande pai, Poditã, filho de Badzé, é a divindade da caça, da guerra, e Warakidzã é a divindade do sonho, da noite. Eles habitam as Sete-estrelas, conhecidas como constelação de Órion. Badzé é que envia Poditã para a Terra no início de todo Batí. Foi ele que ensinou nosso povo a reconhecer os frutos, a caçar animais, a fazer farinha de mandioca, a preparar utensílios de uso cotidiano, a dançar, a cantar e a fazer os rituais de pajelanças. Warakidzã é quem conduz a noite, os sonhos, os presságios".

O ritual do Batí foi apropriado culturalmente pelo catolicismo, apagando a autoria dos povos indígenas e negligenciando suas práticas e sentidos. Hartmut Lutz (1990), autor alemão, ao estudar a apropriação cultural dos povos indígenas pelo Estado-nação norte-americano ilustra as violências que a atitude colonial comete ao negar origem e autoria, ao se manter "ahistórica na medida que exclui de seus discursos o contexto histórico, especialmente, a história das relações entre os indígenas com os não indígenas".

Rodney William enfatiza, sobre essa questão, que "deslegitimar as lutas ou descontextualizar os fatos, negando a propriedade e alterando os sentidos, torna o ato da apropriação um dispositivo-chave na implementação de políticas de morte", e arremata, "O extermínio de um povo pressupõe a morte de sua cultura".

O evento Véspera de São João suplanta o povo Kariri e outros povos indígenas da equação cultural e espiritual. Silencia que a dança em círculo em volta da fogueira é o ritual do Toré, renomeando a seu modo como quadrilha; define o milho, amendoim, batata e mandioca, como alimento típico, quando para os povos originários são sagrados, referindo-se ao Batí. A celebração do período do plantio, a dança ritualística em círculo, pertencem originalmente aos povos indígenas, sendo, portanto, como diz o historiador Casé Tupinambá, um patrimônio imaterial indígena. Reafirmar essa memória é, nesse sentido, um ato político para reaver a história e a identidade Kariri.

O Museu-Vivo das Marrecas, assim, é um projeto que sonha com a autonomia simbólica e física, e encontra-se também no Instagram. Como espaço de educação, procura retomar e assegurar a existência do povo, ao mesmo tempo que diminuir os índices de analfabetismo ao implementar livros de autoria indígena, e, ainda, imprimir nas presentes e futuras gerações, o orgulho da caboclagem Kariri, em suma, o orgulho do pertencimento.

Como ajudar?

Para apoiar o projeto Museu-Vivo das Marrecas: Construção do Museu-Vivo das Marrecas Kariri | Kickante

Julie Dorrico - Larissa Galvão, Elis Rigoni, Rodrigo Alencar e Rayra F. - Larissa Galvão, Elis Rigoni, Rodrigo Alencar e Rayra F.
Projeto do Museu-Vivo das Marrecas
Imagem: Larissa Galvão, Elis Rigoni, Rodrigo Alencar e Rayra F.