Julián Fuks

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Opinião

Sobre o caos familiar e as miudezas em que a vida se esvai

Era impecável o quarto, com suas paredes imaculadas, seu equilíbrio delicado de cores, seus graciosos objetos ocupando sempre o devido lugar. Só os livros infantis não encontravam bem onde repousar, e por isso decidimos comprar estantes leves, singelas e brancas que os acomodassem. Imbuído ao máximo da paternidade, resolvi eu mesmo cravar na parede os poucos parafusos necessários, e tanto orgulho senti daquele másculo cuidado, e dos calos que ele deixou em minhas mãos, que até escrevi uma crônica contemplando o ato heroico, uma elegia à casa, ao quarto infantil, às estantes, aos calos. Mal sabia eu que aquele era o início da debacle.

As manchas começaram a aparecer depois de algumas semanas, primeiro tênues, um sutil escurecimento do papel de parede antes uniforme, logo rudes e insolentes. Intimidados, não reagimos de imediato, e então a madeira fraca das estantes começou a apodrecer, e certa manhã os livros despertaram úmidos, retorcidos, lamentáveis. Minha masculinidade acertara em cheio, com a mira própria dos brutos, dois canos de chuva que passavam bem ali atrás, taciturnos e impiedosos. Mal sabia eu, como dizia há pouco, que aquele era ainda o início da debacle.

Consertamos os canos, mas não conseguimos o papel que apagasse para sempre a módica vergonha, o másculo estrago. As estantes eram agora imprestáveis, e os livros se acumularam então no pé das camas, junto aos brinquedos que já não cabiam no bonito baú roxo que num dia otimista compráramos. Ainda não sabíamos da infinidade de bugigangas que têm composto a infância, coisas estúpidas que no entanto emanam afeto e por isso se firmam no interior da casa. E quando pelo chão não restava lugar, livros e brinquedos passaram a se empilhar sobre a cômoda, que também não suportou o abuso de suas funções e acabou por se esfacelar, gavetas desmontando-se de vez, roupas explodindo no caos de objetos agora indecifráveis. Nunca mais um quarto impecável, nunca mais paredes imaculadas, nunca mais um equilíbrio delicado.

O último requinte da derrocada se deu quando as luzes se queimaram, e ao trocar as lâmpadas, de novo orgulhoso de exercer com as mãos minha função de pai, os soquetes do lustre estiloso se desfizeram em pó em minhas palmas. Ali, naquele espaço consumido pela escuridão, escondendo nas sombras o rubor do meu rosto, ali aceitei que era preciso dizer basta, ali confessei o meu másculo fracasso. Larguei as ferramentas e passei a agir com gestos e palavras, e assim encomendamos um armário novo, vasto o bastante para abrigar o espólio de duas infâncias, e uma estante firme assentada no chão, e contratamos um eletricista, e um instalador de papéis de parede, e também um pintor, para ver se assim apagamos os rastros do paulatino desastre.

Agora escrevo entrincheirado em meu escritório, enquanto homens bem mais hábeis montam um armário, consertam lustres e pintam as paredes de minha casa, para que eu sinta enfim redimida minha incapacidade manual. Ouço suas vozes graves, seu ruído incessante, o ríspido deslocamento de cada objeto no espaço, e penso que, afinal, pode não ser tão grande a diferença em relação a esta voz baixa e encabulada que ordena palavras sobre a página. Escrever, nestes últimos anos, talvez tenha se tornado a estranha função de devolver alguma ordem ao caos, para assim tratar de conter sua expansão irrefreável.

"O caos é uma ordem por decifrar", lembro então da máxima de Saramago, e percebo algo mais que devo submeter à decifração. Esta história talvez não seja sobre escrita, talvez seja algo como uma parábola sobre a paternidade, sobre a vida parental. É essa a batalha interminável para que tudo encontre o seu lugar, e se veja imaculado, em equilíbrio delicado, mas tudo sempre explode, tudo na vida familiar é indomável. A imperfeição, a expressão eloquente de nossa múltipla inabilidade, passa a ser a condição inelutável do ofício de pai, como do ofício de mãe, é claro. E nisso, estranhamente, é possível também alcançar um prazer improvável, uma satisfação paradoxal: a suspeita de que a vida é feita dessas alegres miudezas em que parece que ela se esvai.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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