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Julián Fuks


Julián Fuks

Elogio da casa: do cansaço à reinvenção do espaço privado

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

04/07/2020 04h00

Tenho feito eco ao que tantos dizem, tenho repetido em noites indolentes que estou cansado de casa, que não aguento mais ficar encerrado entre paredes rígidas. Acredito quando o digo, sei que esse estribilho tão difundido pretende evocar um emaranhado de distâncias, saudades, carências, quer alardear toda a impaciência com a vida interrompida. O caso, porém, é que a frase é imprecisa. Se a escuto com cuidado, não demoro a perceber que é uma mentira, não demoro a negar que esteja cansado da minha casa. Não quero lhe fazer uma injustiça: a casa tem sido manso abrigo, e é só gratidão o que lhe devo.

"Não é necessário sair de casa", escreveu Franz Kafka há muitas décadas, num tempo em que o mundo ainda não avançava com seus ruídos técnicos sobre os espaços íntimos. "Permaneça em sua mesa e ouça", ele continuou. "Não apenas ouça, mas espere. Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio. Então o mundo se apresentará desmascarado." Silêncio e solidão têm sido escassos num apartamento simples com duas filhas pequenas, mas ainda assim não fujo à tentativa. Sentado à mesa, tenho aguardado a visita do mundo, de um mundo que surja sem máscaras. Mas enquanto espero, admito, não deixo de apreciar a própria casa, renovo a cada dia o gosto pela mesa que suporta os meus cotovelos, pelo chão em que descanso os pés, pelo teto que não desaba na minha cabeça.

Ouço de muitos que têm revolvido gavetas, rearranjado cadernos, revisto álbuns de família, frequentado as cartas dos avós, dos pais, dos velhos amigos. Sei que assim se aproximam de toda essa gente longínqua, gente vista pela última vez num portão esquecido, num bar qualquer, numa esquina indistinta. Mas suspeito que também o façam para se aproximar da própria casa, para emprestar à casa a intimidade de tanta gente querida. Emprestar talvez não seja a palavra precisa, peço perdão, restituir é a palavra que procuro. Todo esse passado pertence agora à casa, vive em silêncio em seus recantos escondidos.

A casa não é a disposição de seus cômodos ocos, não é o vão entre os móveis baratos, não é feita de seus vazios, de seu impalpável nada. Nunca invejei tão pouco os desapegados com suas casas impecáveis, casas perfeitas em que cada objeto tem sua função presente e exata. A casa é justamente tudo o que sobra, museu de inutilidades, soma de todas as coisas ínfimas que os dias trazem, e que, prometemos a nós mesmos, em alguma tarde vaga haveremos de limpar. Quando essa tarde enfim chegar, viveremos a falsa e passageira paz que emana da ordem, mas fatalmente teremos menos passado, teremos menos casa.

Minha casa são meus retratos, minha casa é meu martelo. Minha casa é meu cansaço, minha miopia. Minha casa é a memória da casa. Minha casa são esses versos de Ana Martins Marques que roubei fora de sequência para inserir nesta crônica desarrumada, versos que encontrei num livro cruzado na estante, oferenda da desordem. Minha casa é a furadeira que tomei emprestada para prender na parede do quarto das minhas filhas uma estante só para elas, já lotada de livros largos. Agora olho a parede desse quarto, as estantes só ligeiramente desalinhadas, e sinto um orgulho insensato por tê-las cravado com minhas próprias mãos, e porque agora tenho nas mãos calos que pertencem à casa.

Há, no entanto, outra mentira oculta em tudo isso que conto. Demoro para descobri-la camuflada entre tantas palavras, preciso das palavras dos outros para vê-la revelada. É impressionante quantos poetas falam da casa para falar da mulher, para falar da amada. Ao que parece, não se trata de uma metáfora, ou é a metáfora em seu estado mais profundo e radical, numa fusão de seres que se completam e se amparam: a casa é a mulher, a mulher é a casa. Hesito um pouco diante dessa imagem, não quero imputar à mulher a domesticidade que tanto lhe foi imposta.

Mas "A mulher e a casa" é o poema de João Cabral com que me deparo, e o poeta em si tem importância suplementar. O apartamento em que moro pertenceu ao filho de João Cabral, e, mesmo que ele nunca o tenha frequentado, nunca tenha pisado seus tacos, não me canso de imaginá-lo vagando cego pela nossa sala. Desde que vivo aqui, me sinto mais em casa em seus poemas, como se ele em pessoa me abrisse a porta da página. É João Cabral quem fala, enfim, da mulher que seduz como casa, que "não é nunca só para ser contemplada", "somente por dentro é possível contemplá-la".

A verdade que descubro, então, é que não estou cansado da minha casa como não estou cansado da minha mulher, mesmo que nela viva há vinte anos. Casa e mulher exercem sobre João Cabral, ou sobre mim, efeito igual, incansável, mesmo no infinito das horas: a vontade de corrê-la por dentro, de visitá-la. Não é necessário sair dessa casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Julián Fuks