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Julián Fuks


Um país em estado de melancolia

Alexandre Rezende/Divulgação
Imagem: Alexandre Rezende/Divulgação
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

Colunista do UOL

27/06/2020 09h53

É imenso o que temos perdido nos últimos tempos: dezenas de milhares de vidas, incontáveis empregos, projetos pessoais e coletivos, liberdade, tranquilidade, qualquer horizonte restante de expectativa. Diante de tão dramática perda, o mais razoável seria estarmos agora em luto, recolhidos num processo de assimilação e elaboração das muitas dores que nos acometem. Mas é isso, de fato, o que temos vivido coletivamente? Com tanto ruído, tanto tumulto, tanto celeuma, será possível afirmar que o país está em luto? Ou estaremos entregues a um estado tão doloroso quanto o luto, mas bem menos eficaz, bem mais patológico, a melancolia?

Foi num ensaio de 1914 que Freud definiu essas duas condições tão semelhantes e tão distintas: "Luto e melancolia". Em linhas gerais e talvez distorcidas, enquanto no luto haveria uma consciência precisa do que já não está, do que definhou, na melancolia o sujeito se vê tomado por um estado equivalente de abatimento sem saber ao certo o que lhe falta, de que já não dispõe. "O objeto talvez não tenha realmente morrido, mas tenha se perdido enquanto objeto de amor", é o que Freud pondera. Ou o sujeito pode não ser capaz de precisar o que exatamente jaz naquilo que ele julga perdido, naquilo cuja ausência lhe provoca um sofrimento intenso, legítimo.

Não sou psicanalista, não sei que remota intuição me leva a ler esse ensaio neste momento. Sei, porém, que o percorro com avidez identificando em cada passagem um retrato convincente de certo Brasil, deste país desnorteado e triste que nos tornamos em anos recentes. Um país não é um indivíduo, uma sociedade não tem psique, talvez alertasse algum especialista, mas ainda assim não consigo deixar de ver uma descrição do Brasil no sujeito melancólico, esse ser que sofre de profundo negativismo, falta de ânimo e de autoestima, acometido a cada dia por fantasias autodestrutivas - e nem sempre apenas por fantasias.

Em quantas vozes - sobretudo naquelas que afirmam amar mais a pátria - não temos ouvido o mesmo discurso de que foi roubado ao país algo de fundamental, de que é preciso resgatá-lo de seus inimigos, resgatar o que se extraviou no passado ou a cada dia ainda se extravia? Quanto essa imprecisa abstração que constitui o país se fez alvo de frases rasteiras e repetidas, sempre a mesma acusação de imoralidade, de um caráter desprovido de valor e inteiramente corruptível? É o típico discurso do melancólico sobre si mesmo, descubro ao ler o ensaio. A diminuição extraordinária na autoestima, ausente no luto, é o traço mais marcante da melancolia, "a ponto de encontrar expressão em autorrecriminação e autoenvilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição" - isso é Freud quem diz.

Já se quis atribuir uma série de quadros clínicos a Jair Bolsonaro, maníaco para alguns, perverso para outros, ou incapaz de superar a própria analidade. Em cada uma dessas leituras vejo pertinência e justiça, mas me pergunto se Bolsonaro não poderia ser pensado ele próprio como sintoma, como manifestação lamentável da melancolia do país. A escolha de Bolsonaro como presidente responderia a um só tempo, e dramaticamente, à expectativa de punição e aos muitos anseios autodestrutivos. Com Colette Soler, a quem chego por Maria Rita Kehl, aprendo que "o sintoma não é só um modo de dizer, mas, dentro do próprio sofrimento, um modo de gozar". E quanto prazer destrutivo não se verifica no bolsonarismo mais radical? Que riso nervoso não é possível ouvir enquanto ele pratica cada uma de suas violências?

A melancolia vem sempre acompanhada de uma sensação de vazio e aniquilamento, e provoca um extraordinário empobrecimento da subjetividade - isso quem descreve é Pierre Fédida, continuo em minhas leituras especulativas. O objeto em si pode não ter sido perdido, mas acontece durante o processo melancólico uma perda radical de sentido, e assim a incapacidade de enxergar qualquer outra saída que não a morte - a morte do sujeito em si, a morte de um ideal de país, a morte de dezenas de milhares de seus cidadãos.

Interrompo essa leitura antes que o quadro se faça soturno demais, antes que eu mesmo deixe de ver qualquer saída. Volto a Freud e respiro melhor ao ler que, como o luto, a melancolia tende a "desaparecer após certo tempo, sem deixar quaisquer vestígios". Um país não morre, apenas precisa de tempo para se reencontrar consigo mesmo. Mas não deixo de pensar que não pode haver passividade nessa espera, que o tempo nos exige ações de diversos tipos, para que o quadro não acabe por se repetir. Para sair desse estado doloroso, para fazer da melancolia finalmente um luto, talvez convenha ao país realizar, em sua imensurável escala, em sua inexistente psique, qualquer coisa que equivalha num indivíduo a um processo psicanalítico.

Julián Fuks