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Julián Fuks


A cultura brasileira está sob ataque, e não é por um vírus

A secretária especial de Cultura, Regina Duarte - Isac Nóbrega/PR
A secretária especial de Cultura, Regina Duarte Imagem: Isac Nóbrega/PR
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

16/05/2020 04h00

Por toda parte ecoa um sentimento de fim. Entra em nossas casas pelas notícias, reverbera na brancura das paredes, escapa pelas janelas e vai vagar pelas ruas vazias, cruzando lamentos íntimos, desenganos, desalentos. A contagem diária das perdas nos mantém num luto difuso e extenso, sem saber ao certo quem morre, o que morre, o que termina.

Esta poderia ser a elegia de algumas pessoas boas que se foram nos últimos dias. Com palavras de admiração e tristeza, eu evocaria a grandeza de Rubem Fonseca, a ousadia imperecível de Sérgio Sant'anna, passaria pela maestria de Luiz Alfredo García-Roza, pela solidão tão poética de Aldir Blanc, cairia na desilusão sentida de Flávio Migliaccio. Em tom mais pessoal, talvez comovido, narraria também uma figura menos conhecida, a jovem Lia Rangel Côrtes, que passou longos anos encorajando mulheres a buscar palavras que inventassem suas vidas, e soube encontrar as suas para contar, com precisão e beleza, sua precoce partida.

Mas a imensidade deste tempo, infelizmente, insiste em eclipsar delicadezas. A obscuridade deste tempo parece nos convocar a algo mais urgente, a fazer a elegia mais vasta de tudo aquilo que temos perdido diariamente. Ou melhor, não do que de fato perdemos, não do que perece, mas de uma coisa que alguns têm querido ver perdida, desbaratada, esvaída: mais que os artistas, a própria arte, a própria cultura brasileira.

Que a cultura brasileira está sob ataque já era visível há alguns anos, na sanha de barrar obras e interditar exposições, na pressão para sufocar todo apoio financeiro, nos reiterados ataques a artistas e instituições. A guerra cultural praticada pelas hordas bolsonaristas tem o evidente propósito de aniquilar tudo o que não conheçam, tudo o que lhes seja incompreensível, valendo-se para isso das armas da difamação municiadas pelo ressentimento.

Nestes últimos meses, porém, esse fervor destrutivo se fez explícito e exacerbado como jamais imaginaríamos. E justamente pela atuação obscena de dois secretários da cultura, nos momentos mais tétricos que este governo já tão sombrio pôde nos oferecer. Tantas vezes vimos essas cenas, tanto comentamos sobre elas, e no entanto elas não parecem esgotar sua potência reveladora - como um pesadelo que ainda tivesse algo a nos dizer. Roberto Alvim fantasiado de Goebbels e expondo de maneira cabal as relações entre o fascismo de hoje e o fascismo canônico. Regina Duarte entoando a música-símbolo da ditadura enquanto um jornalista repete, aos seus ouvidos surdos, a lista de crimes cometidos pelos militares no poder.

Tortura, censura e morte: essa é a tríade de males perpetrados pelas ditaduras militares, com insistência, no Brasil e em tantos outros lugares. O agravante brasileiro é que aqui os responsáveis não foram capazes de assumir os seus erros, aqui os crimes permaneceram impunes, e por isso vemos a mesma tríade a se repetir infinitamente, afetando sobretudo as periferias e a juventude negra. E então aparece a secretária da Cultura e estabelece esse vínculo tão estreito entre a ditadura e o pensamento vigente.

E então vemos somar-se uma nova nuance nesse sórdido processo: o que agora se censura, o que se tortura, o que se quer matar é a própria cultura brasileira.

O ataque se dá em múltiplas frentes, inclusive econômicas, e se aproveita da gravidade do momento para desferir mais alguns golpes. Enquanto outros países têm feito no presente uma afirmação contundente sobre a importância da arte - a Alemanha acaba de declarar a cultura um bem de primeira necessidade e de lhe destinar um fundo especial - aqui vemos se agravar o desmanche que se insinuava, com o corte de verbas do Sistema S e a até a recusa de empréstimos a livrarias que sofrem os efeitos da quarentena. Livrarias, cinemas, teatros, museus, tudo começa a fenecer sem qualquer auxílio, para gozo dos que preferem sua inexistência.

Seria de se lamentar que, para narrar esse assassinato, não possamos mais contar com Rubem Fonseca, Sérgio Sant'anna, García-Roza - nossos escritores mais exímios em captar as nuances subterrâneas aos crimes, suas lógicas tortuosas, e a sumidade inescapável da morte. Mas o caso é que essa não é uma morte inescapável, muito pelo contrário: é o crime que algoz nenhum será capaz de perpetrar, é a tentativa de assassinato de algo imortal.

Não é o fim da cultura o que invade a nossa casa, a cada anoitecer, o que nos devasta por um instante e então sai para ocupar as ruas desoladas. A cultura é o que permanece em nós, o que nos impele a lutar, e o que repercute pelas paredes quando por fim colocamos Aldir Blanc para tocar: "Óia que foi só pegar no cavaquinho, pra nego bater. Mas se eu contar o que é que pode um cavaquinho, os home não vai crer. Quando ele fere, fere firme e dói que nem punhal. Quando ele invoca, até parece um pega na geral."

Julián Fuks