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Mesmo sem o devido velório, é preciso ritualizar despedida de nossos mortos

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Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

12/05/2020 04h00

Já são mais de 11 mil pessoas mortas por coronavírus no Brasil. E nos casos de suspeita ou confirmação de morte por Covid-19, a recomendação do Ministério da Saúde é não velar o corpo. Se mesmo assim a família decidir pela cerimônia, deve manter a urna fechada, em local aberto ou ventilado, respeitando a distância mínima de pelo menos dois metros, "bem como outras medidas de isolamento social e de etiqueta respiratória", e um enterro com número máximo de 10 pessoas. Na cidade de São Paulo, o velório de quem morreu por sintomas respiratórios pode durar 10 minutos e por outras causas, no máximo uma hora.

Mas que falta imensa faz um velório longo, com muitas pessoas queridas, antes da cerimônia de cremação ou enterro de quem amamos. Não pensava que aquele choro partilhado, seguido de abraço, piada deslocada, riso, histórias conhecidas e desconhecidas, seguidos de mais choro fosse tão importante. Até que na última sexta-feira (8) voltei para casa depois de me despedir do corpo de uma grande amiga mais desnorteada e com uma sensação de vazio maior do que já senti em qualquer outro enterro.

Porque as muitas horas de partilha do luto em velórios e funerais são tristes, mas importantíssimas. Conformam um ritual de despedida comunitário, de catarse coletiva, de demonstração pública de amor. Ler assinaturas e mensagens bonitas nas coroas de flores, durante o velório de duas horas de Lia, que não morreu de Covid-19, acalentou, mas também trouxe o vazio imenso daquelas ausências. Máscaras de pano e distância física entre as cerca de 15 pessoas presentes quase não permitiam compreender o pouco que era dito. E na despedida final, faltaram braços para confortar seu filho, sua filha, seu marido.

Ainda assim, agradeço imensamente ter podido ver sua família, compartilhado as cores do por do sol no momento do fechamento do caixão, conversado durante o trajeto para o crematório em São José dos Campos com outra amiga — respeitando o distanciamento recomendado. A maioria das pessoas que a amava não teve nem essa possibilidade de despedida. Eu não posso imaginar o tamanho da dor.

Além do vazio e da dor pela morte de Lia, estive acompanhada nos últimos dias pela angústia de prever os estragos culturais e psicológicos em quem não pode preparar os corpos ou velar os mortos como sua cultura determina. A cabeça de iniciados no cambomblé precisa de ritos específicos depois da morte. Em diversas comunidades quilombolas, é essencial que as pessoas sejam enterradas naquele chão. Dentre os yanomami, se os mortos não passarem por determinados rituais, seu espírito vai e volta, sem descanso. Se eu passei um ano depois da morte do meu pai telefonando para o número dele, se a escritora norte-americana Joan Didion passou um ano esperando o marido que ela viu morrer voltar para casa, conforme narra em "O Ano do Pensamento Mágico", como será para quem perder a possibilidade de se despedir de modo adequado? Para amenizar o estrago, é preciso ter outros modos de ritualizar.

Para quem segue alguma religião, há liturgias e rituais previamente definidos que podem amparar este momento. Há também profissionais de psicologia, terapia ocupacional e outras modalidades de cuidado que podem apoiar e orientar. Mas também é possível seguir as próprias intuições e vontades.

A filósofa Sobonfu Somé em "O espírito da intimidade: ensinamentos ancestrais africanos" trata da importância dos rituais para curar feridas e se conectar à vida em suas diversas manifestações. Assim como nos funerais é possível chorar junto e vivenciar as diferentes emoções, também é possível chorar e desmoronar com o amparo da comunidade apesar do isolamento social. Na cultura dagara, de Burkina Faso, descrita por Sobonfu Somé, rituais são cerimônias em que se pode estabelecer conexão consigo mesmo, com a comunidade, com as forças naturais à nossa volta. Para realizá-los, não é preciso um manual. Não são necessárias regras específicas.

É preciso saber o objetivo, conectar-se com o espírito que está presente em todos os seres, na água, na terra, nos animais, nas plantas. "Tudo que a pessoa precisa fazer, daí em diante, é mergulhar em seu coração e ouvir seu ritmo (...) Reúne seus amigos, seus parentes, amigos de seus amigos, e assim por diante. Todos esses espíritos virão até você. E não é necessário ter um Ph.D ou sofrer dores e contorções para atraí-los. Só o que você realmente precisa é da sinceridade de seu coração e manter os ouvidos abertos", escreveu Somé.

Li em diversas postagens recentes sobre velórios virtuais, orações por comunicadores instantâneos, meditações agendadas em um mesmo horário. Tudo vale, desde que exista espaço para sentir, para chorar, para dividir, para ritualizar. Tomo novamente emprestadas as palavras de Somé: "O que estou dizendo é que você deve acreditar em si mesmo, acreditar em sua habilidade de ouvir. Diga apenas: 'sei que essas coisas existem em algum lugar dentro de mim'."

Esta conexão com o invisível é essencial para honrarmos os mortos. E também para mudarmos paradigmas em respeito aos vivos. Sejam eles humanos, animais, plantas ou rios. Quem sabe assim compreendamos que somos parte da Terra. Quem sabe assim não seja mais necessário o isolamento para nos protegermos dos resultados dos desequilíbrios gerados por nós mesmos.

Ao procurar o arquivo digital de o "Espírito da Intimidade" para citá-lo neste texto, encontrei uma troca de mensagens com Lia em que compartilhávamos o desejo de comunidade. Em junho de 2017, ela escreveu o conselho que precisamos em 2020:

"Pensar em criar uma comunidade, em viver em comunidade, para mim impacta, já de saída, diretamente em pensar como queremos nos relacionar com o tempo. Tempo de vida. Esse negócio de gastar esse monte de horas longe dos nossos afetos, trabalhando para outros, que talvez não estejam na nossa rota prioritária de vida, bem, me parece um ponto bem importante para pensarmos em como essa comunidade pode existir e se sustentar. Cada vez buscar mais integração e menos separações. Nas relações, na produção, na criação, na espiritualidade e até com o cosmos." Que tenhamos olhos para ver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.