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Falência do sentido: explicações da pandemia convidam a repensar o futuro

Os mais precavidos têm até feito buscas online sobre invasões de gafanhoto e outros sinais terríveis - CRA/BBC
Os mais precavidos têm até feito buscas online sobre invasões de gafanhoto e outros sinais terríveis Imagem: CRA/BBC
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

08/05/2020 04h00

Pode ser feito de reclusão e silêncio o mundo em que vivemos, mas é também feito de vozes exaltadas, de discursos infinitos, de uma profusão impressionante de palavras. Desde o momento tão próximo e já tão longínquo em que um vírus atravessou o nosso presente, tem sido imenso o esforço em definir o fenômeno e firmar sobre ele algum sentido. Esse empenho pode ser comovente, até alentador, mas não chega a esconder algo muito conhecido: que a vastidão de explicações às vezes manifesta só a falência do sentido, que o que mais insistimos em nomear é o que mais escapa ao pensamento.

Uma das explicações muito difundidas, a persistir pelos séculos para desalento de tantos pensadores contemporâneos, talvez seja ainda a religiosa. Alguma entidade superior teria decidido nos infligir uma desgraça massiva, desta vez na forma de um vírus, como punição por incertos desmandos cometidos nesta terra. Os mais precavidos têm até feito buscas online sobre invasões de gafanhoto e outros sinais terríveis, julgando que o roteiro bíblico seria seguido à risca. Mas tal noção não se limita aos fanáticos: a frequência com que a pandemia é referida pela mídia como um apocalipse mostra quanto a religião está arraigada mesmo em análises que se querem objetivas.

Numa variante mais simpática dessa versão, não é Deus o sujeito impiedoso a nos infligir o castigo. A Terra, agora investida de vida e merecendo a maiúscula, estaria implorando à humanidade que parasse ao menos por um tempo, que refletisse sobre suas práticas nocivas, que desistisse de sua destruição sistêmica. Para ilustrar essa ideia, propagaram-se imagens impactantes: o vasto céu chinês despido de sua poluição costumeira, ou insólitos e inverídicos golfinhos e flamingos nadando pelos canais de Veneza. É curiosa a escolha de Veneza na composição desse duvidoso argumento, pois ressalta paradoxalmente a capacidade humana de produzir beleza.

Em outra concepção, muito diferente, o vírus agiria em favor de um ímpeto totalitarista, servindo de pretexto para aprofundar os mecanismos de controle dos governos. Toda a população estaria submetida a um estado permanente de emergência, abdicando assim de sua liberdade, cedendo ao medo. Para surpresa de muitos, foi o filósofo Giorgio Agamben quem explicitou essa hipótese, preocupado com a persistência das medidas de exceção depois da pandemia, com o fechamento de escolas e universidades, com o fim dos encontros políticos e culturais, com as máquinas que poderiam "substituir todo contato - todo contágio - entre os seres humanos."

Contra Agamben, ou contra o pessimismo, ganharam voz outros importantes filósofos, interpretando no vírus uma finalidade contrária, um caráter quase subversivo. Slavoj Zizek atentou para o pânico no mercado financeiro, para a indústria em paralisia, e não pôde deixar de enxergar seu impulso anticapitalista, destacando o potencial que teria de nos fazer conceber uma sociedade alternativa. Jean-Luc Nancy o acompanhou no pensamento e criou a alcunha do "comunovírus", destinado a mostrar a eficácia do coletivo, nos unindo em comunidade apesar de todo o isolamento.

A lista poderia se estender por mais alguns parágrafos, injustos e distorcivos, mas talvez haja algo mais importante a dizer. Se os argumentos nos parecem insensatos e descabidos, prontos demais para encerrar uma verdade, é porque não acreditamos plenamente que uma doença possa ter um sentido, possa transportar algo mais que dor e tristeza. Já há tempos, em nossa sensibilidade, a vida em si se fez um conjunto de experiências carente de um sentido rígido. Revogada toda noção de predestinação, exige em vez disso que sua razão se construa dia a dia, incansavelmente. Talvez por isso a paralisia do presente nos incomode tanto, porque não nos permite continuar a construir nossos tão necessários sentidos cotidianos.

Nancy pode não nos convencer em sua análise específica da pandemia, mas soube dizer há algumas décadas algo de fundamental sobre o nosso tempo. Falou de uma crise do sentido, ou, pior, do abandono do sentido do mundo, da desistência de pensar que o mundo poderia trazer em si um sentido. Tais palavras podem soar desoladas, carregadas de peso, mas só na primeira vez que as ouvimos. Basta seguir um pouco além para compreender seu potencial libertário e explosivo: "o fim do mundo do sentido abre a práxis do sentido do mundo", diz Nancy. É a ausência de um sentido prévio o que nos permite contemplar uma infinidade de sentidos novos, e buscar então construí-los com toda a força que nos resta.

O mundo pós-pandemia não tem suas feições definidas, nem revolucionárias, nem apocalípticas - e como poderia ter, se a pandemia não parece sequer próxima de seu fim?

Cabe então fazer da ausência de um sentido prévio a construção de um sentido futuro, somando à interpretação também o desejo. Um desejo que não se reverta em pensamento mágico ou religioso, que não se creia cumprido de partida. Um desejo que não seja uma espera, e sim o motor de uma ação no presente. Um desejo que se faça coletivo, capaz de engajar os outros num futuro maior que o mero produto da nossa inércia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.