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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Apostar na juventude periférica é acreditar num país possível

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Imagem: Reprodução
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

07/07/2021 06h00

No último sábado (3), me uni a um seleto grupo de pessoas para compor uma banca que avaliaria propostas no fim de um período de formação. Mas não era qualquer um.

Era o Ciclo 2021, promovido pela Agência de Redes Para Juventude, incubadora com metodologia que potencializa jovens com idade entre 15 e 29 anos, moradores de favelas e periferias do Rio de Janeiro, a transformarem ideias em projetos de intervenção em seus territórios.

Para a composição desse ano, 27 jovens de diversos bairros das zonas norte, oeste e do centro tinham como resultado final de uma caminhada desenvolver ações artísticas e culturais que impactassem seus ambientes.

Confesso ter ficado emocionado duplamente. Primeiro, pois ainda sou jovem (pode não parecer, rs). E segundo, por ver que eram jovens periféricos projetando ações que mudariam os locais onde eles mesmo vivem apesar de uma pandemia que já ceifou mais de 525 mil vidas.

Numa equação "nós por nós", arregaçam suas próprias mangas a fim de possibilitar, do seu modo, a garantia de direitos para si e o entorno, em plano de curto e médio prazo. Intelectuais orgânicos de carências, respondem com soluções e potência às lacunas impostas pela conjuntura. Mas não pode bastar.

Da esquerda pra direita, passando pelo centro, é inexistente um projeto destinado às juventudes brasileiras atuais, marcadas, sobretudo, pela interrupção de sonhos durante a pandemia. Se a eleição fosse hoje, poucos saberiam responder o quê os jovens pedem e precisam, a partir da falta de interlocução real (não apenas aqueles que já são filiados aos partidos) com os atores que hoje, em grande maioria, movimentam o debate político nas redes.

Recentemente, um levantamento publicado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra uma piora nos índices de expectativas da juventude brasileira sobre o presente e o futuro. O panorama "Jovens: Projeções Populacionais, Percepções e Políticas Públicas" está dentro do Atlas da Juventude, produzido pelo Centro de Políticas Públicas da FGV Social, alerta para uma mudança significativa sobre os anseios relacionados a sentimentos e oportunidades da juventude brasileira.

Ao contrário do que muitos pensam e fazem, romantizar os que acabam por investir em seus corres deve ir além. É salutar que os agentes públicos políticos corram o quanto antes neste circuito e tracem um plano de apoio a este grupo.

Afinal de contas, os jovens de hoje são os mais experientes do amanhã - que não está tão distante. O quê responderão no futuro sobre o que puderam fazer na reconstrução do país? A quem poderão creditar algo a menos que a si próprio (se possível)?

Na apresentação do grupo que estive no sábado, vi um manancial de alternativas que caminham para um projeto possível de cidade, estado e país. Teve gente depositando esperança na realização do esporte, o basquete, como ator de transformação no Jacarezinho, vitimado há dois meses pela maior chacina já realizada na capital fluminense; na Providência, favela do Centro, a proposta de uma antologia que resgata a vida e importância de pessoas LGBTQIA+; lá em Acari, um material audiovisual que tratará das mulheres presentes no funk; um apoio a quem quer instruir na utilização das redes sociais como plataforma de denúncia e comunicação para a zona norte, e até mesmo uma orquestra no Borel, comunidade que fica na Tijuca.

Mas teve também a ideia de formar para o mercado de tranças (sim, de cabelo!) a partir de conversas sobre racismo e violência doméstica, a realização de festival artístico potencializando fazedores culturais e uma união que pretende conectar ONGs, projetos e ações sociais atuantes em Bangu, Inhoaíba e Santa Cruz.

Infelizmente, só dois deles serão financiados por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura - Lei do ISS. No entanto, urge que os outros saiam do papel de algum jeito. Se você anda desacreditado se conseguirmos vencer o que está posto, recomendo procurar a agência e, posteriormente, estes jovens. E sobretudo, apoiá-los para que suas iniciativas vigorem. Há saídas e eles são provas disso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL