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Eduardo Carvalho

A raiva que não abandona

Vista geral da favela da Rocinha no Rio de Janeiro - Yasuyoshi Chiba/AFP
Vista geral da favela da Rocinha no Rio de Janeiro Imagem: Yasuyoshi Chiba/AFP
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

04/11/2020 04h00

Não é um texto-julgamento.

É uma forma de exercício de não romantização.

Também não significa que não queira te chamar para conhecer esse universo particular e coletivo chamado Rocinha apenas mostrando a vista do alto da laje, essa mesma que dá para ver, dos dois lados, cartões postais alucinantes de toda a orla, além da Lagoa e o Cristo Redentor. Se fechar os olhinhos um pouco mais, dá para perceber até Niterói, que fica do outro lado da bacia.

Pra mim vai mais além. Daqui vejo o Rio, o Brasil e o mundo.

Mas tem dia que não dá. Desanima, tenho raiva.

Que nem semana passada, quando sai do mercado cheio de bolsas e quem me ofereceu ajuda foram duas crianças, que poderiam ser os meus sobrinhos. Vendo eles, lembro até mesmo de mim pequeno.

Elas não deveriam estar ali, trabalhando, naquele estado. Descalços, sem camisa, queimados com o sol que bate na moleira, com olhos de cansaço, caçando moedas para terem o que comer e também levar para casa. Isso me dá raiva.

Me dá raiva também quando falta água porque a bomba da distribuidora tem problemas. Chegamos a ficar cinco, dez, até quinze dias sem.

E na mesma laje que percebo a beleza da cidade, percebo que os bairros que partilham a Zona Sul, tidos como "nobres", não sofrem com esse dilema.

O que é ser nobre?

Eu não sei muito, mas talvez uma espécie de realeza é contar a água no balde ou na garrafa, enquanto não resolvem a cisterna.

Mas pra enfrentar isso, os moradores vão se solidarizando e dando um pouco de cada reserva sua, fazendo a multiplicação da água tal qual Jesus fez do vinho. E rindo juntos, a um bom samba comendo no talo.

Só que: era para nós fazermos isso? Daí lembro que o Estado não vê o nosso estado. Cegueira seletiva.

É na falta dos serviços, como na distribuição de cartas pelos Correios, que a raiva, essa mesma que descrevo desde o início do texto, continua. Porém vem o morador e cria um sistema de cooperativa que vai lá, cata todas elas nas agências e entregam devidamente em cada casa.

E pra quem não pode pagar, eles deixam em caixotes espalhados pelos becos e vielas. Sinto a raiva passar por ver a criatividade frente a omissão.

E logo sinto de novo quando me deparo com jovens de 13, 14 ou 15 portando uma AK-47 ou metralhadora.

A raiva não me abandona. Saber que se for andar em Pinheiros, em São Paulo, muitos jovens dessa mesma faixa estão nas mãos com suas raquetes no tênis, seus iPhones recém-lançados, voltando de seus cursos de línguas, esperando suas viagens de verão e ainda reclamam.

Crédito para vitimismo deveriam ter aqueles jovens (sobretudo os de periferia) que trabalham mais de 12h para ganhar menos do que um salário mínimo - sendo arrimos de família - e ainda equilibram os pratos com estudos e cursos, e não deixam de fazer seus corres.

A partir de hoje, te convido nessa coluna a dividir comigo um turbilhão de sentimentos, mesclando o olhar atento para as coisas mais comezinhas espalhadas por aí com a indignação que move rumo a mudanças estruturais.

E pode vir conhecer o alto da laje, é R$ 3,50 a viagem da moto. Você vem?