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T60 é SUV bem equipado para enfrentar rivais, mas que não empolga nem a JAC

João Anacleto

Colaboração para o UOL

11/12/2019 04h00

A JAC está com um pé em cada canoa. Ao mesmo tempo em que comemora ser a maior vendedora de carros elétricos do Brasil, com 29 unidades comercializadas no ano, lança um novo SUV a combustão entremeado entre o compacto T50 e o T80 de 7 lugares.

Durante a apresentação, a dicotomia ficou mais clara. O presidente Sérgio Habib usou boa parte dos 90 minutos de apresentação e entrevistas para reiterar a eficiência energética dos modelos elétricos frente aos térmicos. Como se o lançamento fosse da versão iIEV60, outro SUV que pode ser abastecido na tomada de casa, por R$ 205 mil e que, segundo Habib "é uma delícia de dirigir".

Voltando ao foco do T60, Habib afirmou, sem muito entusiasmo, que "serve de contraproposta, tanto para os SUVs compactos topo de linha, quando para os SUVs considerados médios. Só que muito mais equipado".

O T60 chega com preços entre R$ 99.990, na opção básica, e R$ 104.990 com a inclusão de teto solar elétrico e bancos revestidos com couro. Por fora se destacam o porte de médio com entre-eixos de compacto, o que diminuiu e impressão de tamanho que ele poderia ter.

Evolução em estilo

Divulgação
Imagem: Divulgação

É nítido que os balanços dianteiros e traseiros foram bem alongados para encaixá-lo nessa categoria e chegar aos 4,41 m de comprimento, mesmo tendo um entre-eixos de apenas 2,62 m. Como comparação, o Mitsubishi ASX HPE (R$ 117.990), considerado concorrente pela JAC, tem 4,36 m de comprimento sobre um entre-eixos de 2,67 m.

Segundo a JAC, o porta-malas tem 650 litros de capacidade, mas a medição deve seguir um padrão chinês, até o teto, e não até o tampão traseiro como é costume por aqui.

O estilo tem a marca do estúdio italiano que desenha os JAC. Na frente ele ganhou faróis mais afilados e compridos, invadindo uma porção maior dos para-lamas que o irmão T50. A grade recebeu pitadas cromadas nos gomos, algo visto também em outro concorrente, o VW T-Cross.

A evolução fica mais clara quando se olha a traseira. A tampa recebeu um vinco na chapa que simula um aerofólio e finas lanternas nas extremidades, entre elas há uma peça reflexiva unindo as duas lentes.

Sob o capô trabalha um novo motor. A marca estreia o 1.5 turbo de 168 cv e 21,4 mkgf de torque, dispostos a 2.000 rpm, unido a um câmbio CVT com 6 marchas simuladas. Com esse conjunto, ele acelera de 0 a 100 km/h em 9,6s, segundo a marca.

Outro ponto divulgado como trunfo é a extensa lista de equipamentos de série e uma nova disposição interna, com tela digital para o painel, outra de 10,25 polegadas para a central multimídia e uma base tátil para os comandos do ar-condicionado. Não há botões para os comandos, no melhor estilo Range Rover Evoque (guardadas às devidas proporções).

O T60 traz também de série itens como faróis de LED com conversão estática (que ilumina lateralmente em manobras de estacionamento) e regulagem elétrica, câmera 360 graus em 3D, freio de estacionamento elétrico, banco do motorista com ajuste elétrico, ar condicionado digital e até sensor de pressão dos pneus, que calçam belas rodas de aro 17".

Entre os itens de segurança há Isofix, controles de tração e estabilidade. Ele só peca por ter dois airbags, em tempos onde até carros compactos bem mais baratos trazem de 4 a 6 bolsas infláveis e por, ainda, não ter os testes de impacto divulgados

Ruído interno

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Imagem: Divulgação

No teste realizado no trânsito pesado de São Paulo e por pouco mais de 40 km de estrada com pista livre, fica fácil perceber que a receita (apesar dos adesivos turbo espalhados por para-malas de tampa traseira) é voltada para o conforto. Apesar da falta de regulagem de distância do volante, a acomodação é boa, os bancos têm largura generosa e a direção elétrica exagera na leveza.

Seu painel com personalização em três níveis imprime uma modernidade ainda não vista em SUVs com esse preço. A central multimídia é de fácil manuseio, mas a sensibilidade da tela poderia ser mais fácil. E os comandos do ar-condicionado perdem a leitura se você aciona os faróis de dia, quando está em uma rodovia, por exemplo, dificultando o acesso a temperatura e ventilação.

Ao pisar fundo, não há trancos nem o ganho de velocidade que os números dos testes de fábrica sugerem. E é nesse momento que há um contrataste entre a sensação de qualidade percebida e a vivida. A transmissão continuamente variável eleva o giro a ponto de mostrar que o 1.5 turbo é mais ruidoso do que deveria.

O isolamento acústico peca e a falta de aletas para as trocas de marchas atrás do volante não permite que se acalme esse turbilhão sonoro. Só há trocas pela alavanca, outro ponto alto do estilo.

Apesar de a visibilidade traseira não ser das melhores, em virtude do vidro achatado para valorizar o design, não é nada que o torne impraticável. Os grandes retrovisores laterais compensam em partes essa falha. Sua suspensão é outra que agrada quem está procurando algo mais familiar.

Sim, ele aderna um tanto a mais que concorrentes compactos, mas a sensação não é muito diferente do que você teria a bordo de um Jeep Compass em curvas de baixa velocidade. Ele também encara com normalidade as anomalias do asfalto brasileiro. Para isso está bem adaptado.

Já o espaço traseiro é melhor do que o seu entre-eixos sugere, dois adultos de estatura média viajam com conforto por ali, um terceiro vai incomodá-los.
Seus freios também melhoraram a percepção de qualidade ao volante.

Veio equipado com discos nas quatro rodas e um sistema de assistente de frenagem de emergência que aumenta força em casos de acionamento abrupto, e outra que desativa o acelerador em casos em frenagem mais forte é percebida. A explicação para a aplicação de tal tecnologia se dá pelo fato de, a exemplo dos seus irmão, os pedais de freio e acelerador continuam muito próximos uns dos outros.

Consumo e mercado

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Imagem: Divulgação

Em resumo, o T60 traz um pouco mais do que os chineses sempre ofereceram de extras frente à concorrência. O motor turbo é uma evolução bem vinda, mas peca por não ser flex, e por fazer uma média de 8,2 km/l durante o rápido teste. Alto demais pela configuração e peso de apenas 1.335 kg.

Pela primeira vez pode-se dizer que ele oferece muito mais que os concorrentes e que, dinamicamente, convivendo com quem já provou os sabores da concorrência, lhes deve bem pouco. O grande problema é confiar em uma marca que, apesar dos seis anos de garantia, tem apenas 33 pontos de venda e pouca capilaridade.

E mais do que isso: que está bem preocupada em como os seus veículos elétricos estão sendo percebidos. Ao fim do teste, na despedida, a primeira frase de Habib para mim foi: "e aí, gostou do elétrico?". Diante da negativa, pois o teste do dia era com uma das 18 unidades do T60, enxerguei a decepção no seu olhar.

Pelo que sei, a JAC só manteve em pé a chegada do T60 a combustão porque sairia mais caro desistir dele do que trazê-lo, mesmo a contragosto. O presidente da JAC acredita ser inevitável que os elétricos povoem as ruas dos grandes centros na próxima década. E quer estar na vanguarda disso. Tirar o pé da canoa a combustão lhe parece o único jeito de não cair.

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