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Como o Ford EcoSport passou de protagonista a coadjuvante entre os SUVs

Rafaela Borges

Rafaela Borges é jornalista automotiva desde 2003, com passagens por Carsale e Estadão. Escreve sobre o mercado de veículos, supercarros, viagens sobre rodas e tecnologia.

Colunista do UOL

08/04/2020 04h00

Como um líder absoluto se tornou uma carta fora do baralho na briga pela liderança? Essa é a história do Ford EcoSport, que inaugurou a fórmula do segmento de SUVs compacto da maneira que conhecemos hoje.

Desde 2015, quando o Renegade e o HR-V deram início ao processo de chegada de novos SUVs inspirados na receita do EcoSport, o modelo da Ford foi perdendo espaço para boa parte dos lançamentos. O Honda e o Jeep já o ultrapassaram de cara.

Depois, foi a vez de Nissan Kicks e Hyundai Creta. No ano passado, o Volkswagen T-Cross chegou e também quase imediatamente deixou o EcoSport para trás. Com isso, o Ford saiu da lista dos cinco mais vendidos do segmento. Fechou 2019 na sexta posição.

Não que tivesse chances de avançar. Quando estava no "top 5", enquanto os quatro rivais brigaram unidade a unidade por cada posição, o EcoSport seguia lá atrás. E, em alguns momentos dessa jornada, chegou a ser ameaçado pelo Chevrolet Tracker.

E por falar no Chevrolet, parece inevitável que, quando o período de quarentena e distanciamento social passar, a nova geração do carro também deixe o EcoSport para trás, algo que já fez no mês passado. Se essa tendência se confirmar, o Ford deve encerrar o ano, no máximo, como o sétimo SUV compacto mais vendido do País.

Mas como um antigo campeão pode ter perdido suas armas tão rapidamente, ocupando uma posição cada vez mais de coadjuvante no segmento? Será que a Ford deixou o produto de lado? E o que podemos esperar do EcoSport no futuro?

Os erros do EcoSport

A Ford não ficou parada diante da chegada - e renovação - da concorrência. Pelo contrário: fez mudanças importantes. Reestilizou o carro, deixou-o mais moderno e instalou itens essenciais em qualquer veículo do Brasil atualmente, principalmente entre os SUVs compactos, como a central multimídia.

E investiu forte naquilo que é hoje o maior apelo do EcoSport: a boa relação preço-equipamentos. Com o Ford, você leva mais conteúdo por menos que em parte da concorrência.

Houve também mudanças mecânicas, parte impulsionadas por um câmbio que não deu certo, o Powershift (leia mais abaixo). Mas o problema foi a limitação do carro. Há coisas em que a marca não conseguiria mexer nessa geração. E esses itens são primordiais no segmento.

Quando se olha para os líderes dos SUVs compactos, com exceção do Renegade, todos investem em espaço interno e porta-malas. HR-V, Kicks e Creta têm mais de 400 litros de capacidade de bagagem. O T-Cross tem menos, mas adotou uma solução no banco traseiro para chegar a esse "número mágico".

O do EcoSport é inferior, com 356 litros. E ele também fica quase 10 centímetros atrás de Kicks, HR-V, Creta e T-Cross na distância entre os eixos, parâmetro que, nesse tipo de carro, ajuda a determinar o espaço interno.

Nessas questões estruturais, a Ford não conseguiu mexer. E este é o principal erro do EcoSport. Mas não o único.

Há o problema do estepe pendurado na traseira, que os clientes não gostam. A Ford removeu essa solução no início de 2019, mas apenas em uma versão. Além disso, mesmo nela, a abertura do porta-malas continua sendo horizontal, algo atípico.

Além disso, mesmo com a renovação, o EcoSport apenas tentou se aproximar da concorrência. Faltou aquele "quê a mais". Algo especial que um carro que precisa recuperar o espaço perdido deve ter - como faz agora o Tracker.

Má fama com o Powershift

O câmbio Powershift, que era usado no EcoSport e no Fiesta, foi retirado do SUV (o hatch saiu de linha). O carro usa agora o bom automático de seis marchas do sedã Fusion.

Essa transmissão, a Powershift, tem um problema crônico que a Ford não conseguiu resolver. Foi descontinuada em todo o mundo.

A substituição pode até ter tirado o preconceito de quem vai comprar um EcoSport novo, mas os anos de má fama deixam sequelas, e alguma resistência em parte dos clientes. Até porque, no caso dos SUVs, as versões automáticas são sempre as mais vendidas.

Além disso, o câmbio Powershift levou à alta desvalorização dos exemplares equipados com essa transmissão no mercado de usados. A grande perda de valor assusta o cliente, que leva esse parâmetro em alta consideração na hora de comprar um carro novo.

E não são todos os que associam a desvalorização alta ao câmbio Powershift, já deixado para trás.

O que o EcoSport precisa fazer para voltar ao jogo

Os problemas gerados pelo câmbio Powershift são secundários na posição de coadjuvante do EcoSport, e tendem a ser esquecidos ao longo do tempo. A Ford não deixará seu ex-campeão de lado. Até porque, junto com Ranger e Ka, o SUV é uma de suas principais apostas para o mercado brasileiro - a linha da marca está cada vez mais enxuta.

Mas, para o EcoSport voltar ao jogo, o primeiro problema a resolver é o principal: a limitação do porta-malas e do espaço interno. Isso pode parecer um desafio para um carro que tem tradicionalmente base do hatch compacto Fiesta.

Mas modelos como T-Cross e Tracker deixam claro que, na indústria atual, isso deixou de ser problema. Plataformas modulares, como as usadas pelo Volkswagen e o Chevrolet (respectivamente com arquiteturas de Polo e Onix), tornam simples a missão de construir carros de dimensões (inclusive internas) completamente diferentes sobre a mesma base.

E rumores apontam que esse é o caminho escolhido pela Ford: o investimento na amplitude. Está prevista para estrear no fim de 2021 a nova geração do EcoSport. Mulas do modelo, inclusive, já têm sido flagradas rodando pelo Brasil.

O novo EcoSport vai ser feito em Camaçari (BA). Do Ka, usará apenas os mesmos pontos de apoio na linha de montagem e quase nenhuma peça em comum. A expectativa é que venha bem mais espaçoso e com maior porta-malas.

Mas é preciso ir além. Afinal, quem chega depois tem de fazer melhor. O EcoSport, apesar de pioneiro, saiu do jogo e, para voltar, terá de trazer um diferencial que realmente faça a diferença na vida do consumidor, e a concorrência não tenha - como o carregador de celular por indução e a assistência automática ao estacionamento do Tracker. A conferir.

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