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Como o Renegade virou o jogo e foi de 'renegado' a SUV campeão do Brasil

Rafaela Borges

Rafaela Borges é jornalista automotiva desde 2003, com passagens por Carsale e Estadão. Escreve sobre o mercado de veículos, supercarros, viagens sobre rodas e tecnologia.

Colaboração para o UOL

06/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Lançado em 2015, SUV começou bem, mas perdeu participação nos anos seguintes
  • Virada aconteceu após 2016, quando marca mudou comunicação do produto
  • Empresa enalteceu virtudes da marca Jeep e disfarçou pontos negativos do SUV

Lançado no Brasil em 2015, o Jeep Renegade chegou a disputar, naquele ano, o primeiro lugar do segmento de SUVs compactos com o Honda HR-V. Depois, teve início uma queda constante de participação do modelo na categoria.

De 2016 em diante, o Renegade deixou de ser páreo para o HR-V (veja os números no fim do texto). O Jeep passou a batalhar para manter sua segunda posição contra novas estrelas da categoria: Nissan Kicks e Hyundai Creta.

Então, 2018 chegou, e no último trimestre daquele ano o Renegade recebeu mudanças. Alterações que foram mais mercadológicas, e menos estéticas e mecânicas. De cara, as vendas para o público PCD aumentaram 40% - segundo dados divulgados à época pela Jeep.

O modelo também passou a ocupar a liderança da categoria. É claro que, como 2018 já chegava ao fim, não deu para o Renegade entrar ainda naquele ano na briga pelo primeiro lugar dos SUVs compactos, que acabou ficando com o Creta.

Mas aquela decolagem de fim de ano foi o prelúdio para o que ocorreria com o Renegade em 2019. Entre os SUVs compactos, o modelo foi o líder disparado, e sem enfrentar grandes problemas no caminho.

O que conseguiu inverter a queda de participação para levar o SUV à liderança? Afinal, ao final de 2018 ele havia sido apenas o quarto mais emplacado da categoria. Antes das respostas, é necessário analisar o que havia de errado com o Renegade.

As falhas do Renegade

Primeiro carro da nova fase nacional da Jeep, o Renegade estreou no Brasil com pompa e circunstância. Chegava, em 2015, quase simultaneamente ao HR-V. Só o modelo feito em Goiana (PE) trazia suspensão independente nas quatro rodas, tração 4x4 e versão a diesel.

Coisas de carros de segmento superiores, e sem cobrar exageradamente por isso. Porém, passada a empolgação inicial, os problemas do Renegade começaram a surgir. Os principais? Espaço interno e porta-malas de hatch compacto. Os 280 litros do bagageiro estavam longe de atender o principal cliente de SUVs: pessoas que precisam de - ou desejam - espaço.

O modelo também levava desvantagem ante o HR-V, e os concorrentes que vieram posteriormente, no espaço interno. O antigo líder EcoSport conseguiu fazer uma bela carreira com problemas bem semelhantes.

Porém, à época não havia concorrência. De 2016 em diante, o segmento foi ficando cada vez mais volumoso. E a fórmula dos SUVs compactos que mais deram certo era parecida: espaço iterno e porta-malas amplo.

Para prejudicar um pouquinho mais o Renegade, veio em 2016 o médio Compass, com o qual o modelo passou a dividir concessionárias. Mesmo sendo mais caro, o então novato acabou levando alguns clientes do "irmão" por ser mais generoso em amplitude interior.

Além disso, a versão de motor mais vendida do Renegade, flexível, logo ganhou uma fama ruim.

A crítica especializada - e, em pouco tempo, os clientes - considera o propulsor 1.8 aspirado (132 cv) fraco para o pesado Renegade (que tem cerca de 200 kg a mais que a maioria dos rivais). Esse motor também ficou com fama de "gastão".

O que mudou

Com o Compass nas concessionárias e a concorrência avançando, a Jeep resolveu mudar o foco mercadológico do Renegade. Ou, em outras palavras, dar a ele a única ênfase possível diante de suas limitações.

O Renegade passou a ser cada vez mais "vendido" pela marca como um veículo para amantes da Jeep e da bagagem off-road que a montadora carrega. Ou seja: um modelo confortável, robusto, bom para encarar a buraqueira do dia a dia e também trechos de off-road.

Em 2019, por exemplo, foi realizada em diversas cidades do Brasil, ao longo do ano, uma ação chamada de "Jeep Experience Territory".

A Jeep criou obstáculos off-road em locais selecionados dentro de grandes cidades. Nessa ação, tinha um dos objetivos foi mostrar que o Renegade é capaz de enfrentar as mesmas condições adversas (simuladas) do Wrangler, o sonho dos apaixonados por trilhas.

Mas é claro que não foi só isso. No reposicionamento de 2018, foi dada mais ênfase a pacotes das versões com motor 1.8 flexível. Esta não tem tração 4x4, nem é capaz de encarar os desafios da opção a diesel. Mas, afinal, o Renegade com o valente 2.0 turbo é muito mais um instrumento de marketing do que uma aposta de vendas.

As versões que vendem? As 1.8, com 90,3% do mix em 2019, segundo a Jeep. Elas passaram a vir mais bem equipadas e investiram bastante em um item que é muito valorizado pelo consumidor na hora da compra: uma ótima central multimídia.

Agora, a maioria das versões vem com a tela da central multimídia de 9 polegadas e sistema compatível com Android Auto e Apple Car Play.

O número de versões do Renegade a diesel diminuiu. Há apenas o Longitude, já bastante completa, e a Trailhawk, com mais apelo off-road. Por fim, o porta-malas teve sua capacidade levemente ampliada (para 320 litros, com a adoção de estepes temporários, que deram mais altura ao compartimento).

Mudou muito? Viajei recentemente com o Renegade e consegui acomodar, no porta-malas, apenas uma mala média (23 litros) e uma pequena (10 litros). É pouco. Mas a ampliação tem apelo comercial: a capacidade numérica passa a ser semelhante à de muitos concorrentes, como EcoSport, Tracker, C4 Cactus e até a original do T-Cross (cujo compartimento pode ser ampliado por meio de um mecanismo no banco traseiro).

Méritos do Renegade ganham força

As mudanças simples na linha 2018 e o investimento pesado no reposicionamento de imagem do produto levaram o Renegade a encerrar 2019 com 68.726 emplacamentos, ante os 57.460 do segundo colocado, Creta, e 56.062 do terceiro, Kicks.

O investimento da Jeep foi bem-sucedido ao conseguir realçar o que seu modelo de entrada tem de melhor, e camuflar um pouco suas falhas, que continuam existindo.

Enquanto isso, o antigo líder HR-V despencou no ranking de vendas. Foi apenas o quarto mais vendido. O modelo continua espaçoso, com baixo índice de desvalorização e conquistando os fãs da Honda. Porém, perde espaço a não ter uma versão específica para PCD (que todos os rivais oferecem. Agora, até o T-Cross).

Isso reduz seu apelo em vendas diretas, que são muito importantes no segmento de SUVs compactos. As do HR-V são quase nulas mas, quando se considera apenas os emplacamentos no varejo (nas concessionárias, sem condições especiais), o Honda é o líder.
Já no caso do Renegade, 72% das vendas foram diretas em 2019.

Dá para manter o embalo da liderança?

As vendas diretas do Renegade sempre foram altas. Com exceção de 2016, seu primeiro ano completo de emplacamentos, ficaram sempre acima dos 50%.

Entre 2017 e 2019, cresceram. Mas a participação das vendas diretas nos emplacamentos de automóveis também aumentou, principalmente por causa da maior divulgação (e mais investimento das marcas) sobre condições especiais para o público PCD.

No ano passado, no mercado, as vendas diretas atingiram 40% de participação, 3 pontos a mais que em 2018. No caso do Renegade, o avanço foi o mesmo do mercado, e bastante baseado no maior apelo que o carro ganhou junto ao público PCD, segundo informações de fontes.

O modelo, assim como a marca, sempre foi bom de vendas em altos volumes para locadoras de carros. Também tem condições especiais, com descontos, para alguns públicos específicos, como produtores rurais.

Mas o avanço, conforme a Jeep e análise de números divulgados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), foi graças à conquista de maior apelo junto ao consumidor comum, e não às já tradicionais vendas no atacado.

Só que a versão PCD do T-Cross começa a ser entregue nas próximas semanas. E, se o modelo da Volkswagen já vinha tirando o sono do Jeep - foi líder em novembro e dezembro -, a briga agora pode ficar ainda mais apertada.

O que a Jeep vai fazer para se defender? Para 2020, está prevista a substituição do ultrapassado motor 1.8 por um 1.3 turbo, mais moderno e com mais torque em baixa rotação. Com isso, a estimativa é que a versão mais vendida do Renegade fique mais esperta e econômica.

Assim, terá um de seus principais problemas resolvidos, para se manter forte na briga com T-Cross, Creta e Kicks. O HR-V, sem versão PCD, deve continuar fora do páreo pela liderança.

Renegade e os SUVs compactos

2016 (primeiro ano completo de vendas) - 51.563 emplacamentos - 2º mais vendido
2017 - 38.330 - 3º lugar
2018 - 46.334 - 4º lugar
2019 - 68.726 - 1º lugar

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.