Paula Gama

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Por que até carros seminovos baratos estão com os dias contados no Brasil

No cenário automotivo atual, não é raro encontrar antigos defensores do carro zero-quilômetro migrando para a categoria de seminovos. Na prática, se tornou mais racional pagar R$ 70 mil por um veículo com até três anos de uso 'completão', ou seja, com ar-condicionado, central multimídia e, com sorte, câmbio automático, do que investir o mesmo valor em um subcompacto novo. A má notícia é que essa fórmula está com os dias contados.

Desde a pandemia, em 2020, diversos carros "de entrada" deixaram de ser comercializados no país. A escassez de peças para a produção de veículos obrigou as montadoras a reduzirem os volumes de produção, o que levou à priorização de modelos mais lucrativos.

A fórmula deu tão certo que a maior parte delas deixou de investir em carros de volume para apostar em automóveis com alto valor agregado. O caso mais emblemático é o da Ford, que deixou de lado Ka e Fiesta para apostar em modelos acima de R$ 300 mil.

"Os compradores de carros novos migraram para os seminovos. O problema é que não estão sendo lançados novos automóveis de entrada. Em pouco tempo, não vão existir mais seminovos 'baratos'. É um problema que não temos como resolver. Enquanto a indústria não estiver preocupada em ganhar volume, o brasileiro vai ter que recorrer a carros cada vez mais antigos para caber no bolso", alerta o presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), Enilson Sales.

Outro fator é que, durante os anos de 2020 e 2021, centenas de milhares de carros deixaram de ser produzidos devido à escassez de peças. Diversas fábricas brasileiras ficaram fechadas por semanas e até meses, o que reflete diretamente na quantidade de carros com até três anos de uso no mercado. Com menos opções disponíveis e a procura impulsionada para cima por causa da falta de opções de carros zero-quilômetro a preços módicos, é natural que os seminovos custem cada vez mais.

"Não existe fábrica de carros usados. Tudo que acontece com os novos nos afeta alguns meses depois. Se falta automóvel novo de entrada, vai faltar seminovo de entrada e, mais tarde, usados", avalia Sales.

Cenário não vai mudar

Durante a coletiva de imprensa de anúncio do novo ciclo de investimentos da Chevrolet no país, na semana passada, Santiago Chamorro, presidente da GM América do Sul, foi claro ao dizer que a oferta de um produto mais barato não está nos planos.

"O brasileiro não quer carrinho, quer carrão. Nossa estratégia é oferecer em todos os segmentos que atuamos uma possibilidade mais acessível", argumentou, se referindo às versões menos equipadas de seu portfólio.

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Chamorro também avaliou que, para algumas famílias, um "carro de entrada" pode ser, por exemplo, um Onix Plus e, para outras, uma Montana, por isso, é difícil definir o segmento. Argumentou, ainda, que o mercado de usados tem suprido bem a demanda de quem busca opções mais baratas.

Já a Volkswagen, que vai investir mais R$ 9 bilhões no país entre 2026 e 2028, confirmou que lançará uma picape - que deve concorrer com Fiat Toro e Chevrolet Montana -, um novo motor e uma nova plataforma, os dois últimos serão utilizados em veículos híbridos. Ou seja, nenhum deles ocupará a posição que o antigo Gol tinha em sua linha de produtos.

No mesmo caminho, Renault, Nissan e Caoa Chery - marcas que anunciaram aporte de recursos para aumentar o portfólio no país - também apontam suas velas para eletrificação e produtos de maior valor agregado.

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