Paula Gama

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Por que carros de entrada nos EUA são vendidos como 'premium' no Brasil

Em uma única visita aos Estados Unidos é possível perceber que muitos dos carros "caros" do Brasil têm outro público-alvo por lá. É o caso de modelos como Toyota Corolla, Honda ZR-V (que lá é chamado de HR-V), Nissan Versa, Jeep Renegade e outros. Enquanto esses produtos despertam desejo da classe média alta por aqui, chegando a custar mais de R$ 200 mil, são considerados modelos de entrada por lá, com foco nos jovens e trabalhadores menos abastados.

Um bom exemplo é o carro mais novo da Honda no Brasil, o ZR-V, posicionado acima do HR-V no portfólio brasileiro. Com foco em famílias de classe média alta, o modelo é vendido em versão única por R$ 214.500. Já nos Estados Unidos, ele se chama HR-V e é o SUV de entrada da marca, vendido por 24 mil dólares. Para ser justa, é importante ressaltar que a configuração escolhida para o nosso país é a topo de linha, portanto, bem mais equipada que a de entrada dos EUA.

Em terras norte-americanas, o termo "carro de entrada" se refere a veículos compactos e acessíveis, projetados para atender à demanda de consumidores que buscam uma opção mais econômica. Esses veículos, muitas vezes, oferecem tecnologia básica, motores eficientes em termos de combustível e um conjunto de recursos essenciais.

Por mais que alguns desses modelos, como Corolla e o próprio ZR-V, não pareçam compactos nas ruas brasileiras, no mercado americano eles disputam espaço com veículos muito maiores. Para se ter uma ideia, o veículo mais vendido no país é a Ford F-150 - uma picape gigantesca em comparação com os carros que rodam pelo Brasil.

O fenômeno de trazer para o Brasil modelos de entrada como carro "caro" não se limita a uma marca específica, abrangendo diversos fabricantes. Veículos que seriam considerados opções acessíveis nos EUA chegam ao Brasil com etiquetas de preço que rivalizam com veículos de categorias superiores. Os especialistas do setor automotivo atribuem essa discrepância a uma série de fatores, como impostos, tarifas e taxa de câmbio.

De acordo com Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, a taxa de câmbio, imposto e custo de produção justificam a diferença de posicionamento. No entanto, segundo ele, há um pouco de preferência do mercado também.

"O Corolla pode ser a mesma 'casca', mas o vendido aqui é bem mais luxuoso do que o comercializado nos EUA. Lá, são carros de entrada e de locadora, com interior simples, enquanto aqui são veículos aspiracionais e bem mais caros do que os nossos automóveis de entrada: Kwid e Mobi", explica.

Na prática, a solução encontrada pelas montadoras para atender o público brasileiro em termos de preço e preferências de mercado é mesclar o exterior dos modelos de entrada em outros mercados com o "recheio" dos carros mais caros.

Para rentabilizar, agregar valor e fazer com que os consumidores topem pagar mais pelo mesmo carro, são incluídos equipamentos como piloto automático, câmera de ré e assistentes de condução semiautônoma, como alerta de ponto cego, frenagem de emergência e alerta de permanência em faixa. Em alguns casos, até o conjunto motor e suspensão são diferentes.

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Por que não trazem carros "baratos" para cá?

Enquanto Honda, Toyota, Nissan e Jeep são vistas como marcas de carros de "rico" por aqui, nos Estados Unidos, são empresas generalistas como Fiat e Chevrolet, que possuem um portfólio de carros mais extenso - desde os modelos, de fato, de entrada, até os maiores e mais caros. A realidade é que os carros brasileiros "baratos" nem são considerados nos Estados Unidos, já que o tamanho não agrada o público.

Além disso, os automóveis que são vendidos "pelados" com preço baixo por lá não chegariam com ofertas tão módicas por aqui, principalmente devido à carga tributária e desvalorização do real. Então, provavelmente, faltaria público para eles.

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