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Kelly Fernandes

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como incentivar mulheres a pedalar?

Rahel Patrasso/Xinhua
Imagem: Rahel Patrasso/Xinhua
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

12/03/2021 04h00

Hoje é o último dia da semana na qual comemoramos o Dia Internacional da Mulher (08/03). Diferente de textos anteriores que dão centralidade para os efeitos da ausência de segurança pública, nesse quero falar de presença. Desejo compartilhar com vocês o lugar que as mulheres ocupam na mobilidade urbana a partir da bicicleta.

Para isso vou contar como esse meio de transporte, nas mãos e sob os pés de três mulheres, virou um instrumento para a construção de relações de afeto e amizade, experimentação de sentimentos de liberdade, reconexão com o corpo e descoberta da cidade. Ou seja, um potente instrumento de transformação social.

Para isso, conversei com as paulistanas Jô Pereira e Nilda Silva e com a manauara Marileia Seixas. O diálogo partiu da seguinte pergunta: Como incentivar uma mulher a pedalar?

Aprendendo a pedalar

Com 36 anos, Marileia usa a bicicleta para ir até a escola pública na periferia da cidade de Manaus onde é professora de inglês, deslocamento que realiza em cerca de 20 minutos. De acordo com ela, seria mais demorado percorrer essa mesma distância usando o transporte coletivo, pois levaria quase 30 minutos só esperando o ônibus passar.

Ao pedalar até a escola, a professora estimulou colegas de trabalho e alunas a fazerem o mesmo, antes envergonhadas por acharem que bicicleta é "coisa de pobre". Mas lamenta que algumas delas ainda não sabem pedalar, uma vez que muitas mulheres não aprendem a andar de bicicleta na infância ou na adolescência.

Tal desigualdade fica evidente na fala de Marileia durante nossa conversa quando ela conta sobre a iniciativa de levar alunas da escola onde trabalha para pedalar no Centro Histórico da cidade, revelando que muitas delas são impedidas de ter essa experiência por não saberem andar de bicicleta.

Suprir essa lacuna, aliás, é uma das motivações do projeto "Bike Anjo Manaus", do qual Marileia também faz parte e que ensina pessoas a pedalar, muitas delas mulheres com idade acima de 50 anos, prestando auxílio a quem busca a realização desse sonho.

Marileia lembra que antes de começar a ir para o trabalho de bicicleta traçou uma rota segura junto com uma amiga, evitando áreas com trânsito intenso. Ela explica que o bairro onde se mora é um ótimo ponto de partida para as mulheres que estão se aventurando a pedalar, recomendando começar por destinos mais próximos, como a casa de familiares, padaria ou mercado. Jô conta ter dito o mesmo para a amiga com a intenção de incentivá-la a retomar o hábito que deixou de lado há mais de 24 anos. Reagindo ao incentivo, a ciclista em iniciação pedalou por vários quilômetros, o que impressionou as duas, que riram do feito enquanto falavam sobre a sensação de liberdade trazida pelo vento no rosto.

A escolha da bicicleta

Nilda Silva tem 52 anos e também decidiu utilizar a bicicleta como meio de transporte para chegar até o trabalho. A bicicleta foi presente do marido que, com a ajuda de uma bicicletaria, atendeu todos os desejos e necessidades de Nilda ao acolher todos os atributos do que seria uma bicicleta ideal para ela, por exemplo um banco confortável.

Depois de alguns anos de pouco uso, ela acabou vendendo a bicicleta para a irmã, mas, alguns anos depois, a comprou de volta e começou a utilizá-la para ir ao seu local de trabalho, uma oficina de costura, e ao Parque do Carmo, local de lazer próximo à sua casa. A bicicleta passou por mais algumas adaptações, ganhou uma cestinha para carregar a bolsa e um amortecedor para amenizar as trepidações.

Tudo isso também graças a uma fiel companheira que a incentivou a usar mais a bicicleta, afinal, nada melhor do que uma boa amiga. Jô tirou a amiga do carro e a ajudou a colocar seu corpo verdadeiramente em movimento, inclusive a apoiando na escolha e na compra da primeira bicicleta.

Como ciclista experiente, Jô instruiu a iniciante sobre a adequação das dimensões das rodas, do guidão e do aro em relação a sua altura e recomendou cores discretas para não atrair atenções em excesso, instalação de luzes noturnas e outros acessórios essenciais para pedalar com segurança na cidade de São Paulo. A amiga, empolgada, incluiu mais alguns itens na lista, como luvas coloridas.

Construindo confiança

Jô conta que, conforme ia pedalando, a amiga ganhou mais confiança. Para isso, a disponibilidade de infraestrutura cicloviária foi um diferencial importante. "As ciclovias são a melhor coisa que inventaram", diz Nilda, revelando que só se sente confiante para fazer distâncias maiores quando há ciclovias no caminho.

Ganhar confiança enquanto pedala ocorre aos poucos. Jô reforça a importância das ciclofaixas para incentivar as pessoas a pedalarem mais, como diretora geral da Associação Ciclocidade e idealizadora dos projetos "Pedal na Quebrada" e "Mapa Pedal Afetivo", ela percorre a cidade de São Paulo de ponta a ponta estimulando pessoas a adotarem a bicicleta como meio de transporte, sobretudo impulsionar a descoberta e reposicionamento dos corpos negros e periféricos nas cidades, colaborando para que ocupem o seu lugar de direito.

Já Marileia declara que não há infraestruturas destinadas para as bicicletas em seu bairro. Em Manaus, as ciclovias estão presentes apenas em algumas vias principais que fazem conexões entre os bairros e a Área Central. Mas é nas ruas dos bairros onde há muitas mulheres pedalando, enquanto nas grandes avenidas vigora a presença masculina.

Até onde pedalar?

O céu é o limite. A bicicleta já levou Marileia até inúmeras cidades do Brasil, com destaque para a experiência de "pedal fotográfico", atividade realizada para registrar pontos turísticos e históricos durante uma pedalada em grupo na cidade de São Paulo.

A bike também possibilitou que ela atravessasse o Oceano Atlântico para chegar em Amsterdã, capital da Holanda, graças ao reconhecimento do projeto "Pedala Maninho", que ensina crianças a pedalar.

Para Jô, o primeiro trajeto mais longo foi entre o bairro Vila Santa Catarina e o Parque do Ibirapuera, na capital paulistana, o que significou pedalar por 12 quilômetros. Tudo isso fez escondida da mãe e acompanhada por amigos (sim, todos homens).

Voltou encorajada para casa, pois descobriu que aquele jeito de explorar e conhecer a cidade também era para as meninas. Hoje, com 47 anos, utiliza a bicicleta para encontros, trabalhos e compras.

Nilda, às vezes, visita amigas que moram um pouco mais distantes e já pedalou até praças e outros parques da Zona Leste. Relembra o dia em que a filha, de 30 anos, duvidou que a mãe estava mesmo pedalando todos os dias para ir ao trabalho e propôs que as duas fossem pedalando até uma praça do bairro recentemente reformada pela prefeitura.

No caminho havia uma subida que exigia condicionamento e força nas perdas. Resultado do desafio: a filha chegou cansada e ofegante, e a mãe pronta para outra, já acostumada com as descidas e subidas.

Nilda diz que a bicicleta deixou tudo mais firme, das coxas à auto-estima. De acordo, Jô acredita que a bicicleta é a verdadeira fonte da juventude, ao despertar o corpo e a mente para o brincar.

Atualmente, a pandemia do novo coronavírus impõe restrições para o pedalar e demais atividades dessas três mulheres. Marileia, que até poucas semanas recuperava-se dos sintomas e sequelas da covid-19, precisou pausar muitos dos seus projetos.

Mas isso não a impediu de continuar planejando novas iniciativas, tal como o blog "Pedale como uma amazonas", e nem de registrar através da fotografia, outra paixão, a diversidade de pessoas que sozinhas ou com compras, cargas e caronas vão de um lado para o outro com a bicicleta, muitas delas mulheres. Atividades como essa servem para manter o afeto com esse meio de transporte e são uma alternativa viável em tempos de restrição.

Por fim, espero que essas histórias e dicas, as quais você encontra também em portais e redes sociais de coletivos como "La Frida Bike", "Pedal das Minas São Luís", "Pedala Queimados", "Pedala, Mana!", "Pedalando Sem Idade", "Preta, Vem de Bike", "Bike Anjas", "Bike Zona Leste", "Bike é Legal" e tantos outros, estimulem você a pedalar, descobrir e construir. Assim aconteceu comigo há seis anos quando comprei minha primeira bicicleta.