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Caçador de carros: SUV blindado de fábrica? Veja se vale ou não o preço

Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

02/04/2019 07h00

"Mal necessário" é a melhor definição de uma blindagem automotiva. Custa caro, afeta de forma negativa a dinâmica do veículo e sua desvalorização é proporcionalmente maior que a desvalorização do carro em si. Mas seu único benefício é inquestionável para quem precisa. Esse é o ponto que milhares de brasileiros têm valorizado nos últimos anos -- o Brasil tem o maior mercado de veículos blindados do planeta.

Pessoalmente, espero nunca ter que necessitar da blindagem em um dos meus carros, mas confesso que me sinto mais vulnerável quando estou num carro de luxo, dessas marcas que chamam atenção pelo símbolo ostentado na grade.

Por isso, entendo quando clientes me pedem para procurar ou avaliar carros blindados, sem nunca terem passado por algum infortúnio que motivasse a compra. O medo está tão instaurado em suas mentes que somente carros blindados são capazes de, literalmente, tirar essas pessoas de dentro de suas casas.

Atentos ao mercado milionário, alguns fabricantes de carros já oferecem veículos blindados por eles próprios, diferente da mais conhecida blindagem oferecida por empresa terceirizada. A Audi é uma dessas marcas, que optou por oferecer seu SUV médio, o Q5, com o máximo de proteção permitida para um veículo civil, a blindagem nível IIIA. Para deixar mais atraente a este mercado, ganhou o sobrenome: Audi Q5 Security. De novo, o SUV blindado de fábrica estreou primeiro no Brasil.

Mais: no Brasil, acaba sendo caso único de mercado. A BMW também oferece soluções próximas, mas apenas autorizadas pela fábrica, algo diferente do caso deste Audi, que tem o projeto todo desenvolvido pensando na couraça extra.

Blindado original ou modificado?

Eu já tive a oportunidade de avaliar muitos blindados no mercado de usados, mas sempre com blindagens terceirizadas. Portanto estava curioso para conhecer esse blindado de fábrica e poder comparar com o que estou habituado. Fiquei alguns dias com um Audi Q5 Security para descobrir se vale ou não a pena investir num blindado de fábrica.

O primeiro ponto que qualquer um vai notar, é que ele custa muito mais que um Q5 normal. São cerca de R$ 90 mil a mais: a versão custa R$ 374.990.

É mais caro também que um blindado feito por empresa terceirizada: fosse este o caso, o serviço dificilmente passaria dos R$ 70 mil -- considerando o mesmo nível de proteção. São R$ 20 mil a mais.

Apesar de não conhecer a fábrica desse Q5, feito no México, é fácil apontar a diferença básica: o carro não precisa ser desmontado para receber a blindagem, algo inevitável de se acontecer numa empresa terceirizada. Tudo é feito ao longo da linha de montagem. Teoricamente a blindagem feita pela Audi poderia custar menos que a de outra empresa.

Mas, na prática, alguns diferenciais fazem jus ao investimento maior.

Blindagem de fábrica não interfere no conforto, segurança ou tecnologia do carro - Murilo Góes/UOL
Blindagem de fábrica não interfere no conforto, segurança ou tecnologia do carro
Imagem: Murilo Góes/UOL

Diferenciais do Q5 Security

Quem conhece o atual mercado de carros blindados, sabe que as blindadoras tem utilizado cada vez mais as mantas balísticas nas partes opacas da carroceria. São mais leves e maleáveis que as pesadas chapas de aço. Por algum motivo, a Audi veio na contra-mão e optou por utilizar somente chapas de aço. Com isso, o carro ficou bem mais pesado que o normal. O manual do proprietário informa peso de 2370 kg para essa versão Security, contra 1795 kg do Q5 "civil"equivalente.

São quase 600 kg a mais, algo que exigiu dos engenheiros da Audi novos cálculos para que esse peso extra não tirasse a dinâmica do Q5. E esta é uma diferença para o investimento maior: o upgrade de equipamentos.

Freios vieram emprestados da versão mais esportiva, SQ5, portanto são maiores para lidar melhor com o peso extra. Pneus são exclusivos, com índice de carga 105 (cada um suporta até 925 kg) e do tipo "run flat", ou seja, pneus que podem rodar vazios. A suspensão recebeu refinado sistema pneumático, que além de lidarem melhor com o peso, permitem um rodar bem mais confortável.

Por fim, testes de colisão foram refeitos nessa versão, para garantir que a segurança do carro não se limitasse a suportar disparos de armas de fogo. São modificações relevantes, que você jamais vai ver num carro blindado por uma empresa terceirizada.

Prepare-se para "fazer academia" ao manusear portas e tampa do porta-malas extremamente pesadas - Murilo Góes/UOL
Prepare-se para "fazer academia" ao manusear portas e tampa do porta-malas extremamente pesadas
Imagem: Murilo Góes/UOL

Mas há o que melhorar no Q5 Security

É incrível como as portas da Q5 blindado pela Audi são pesadas. A escolha das chapas de aço em detrimento das mantas balísticas poderia ser revista pela Audi neste quesito. E não fui apenas eu que notei isso. Todos que estiveram comigo nesses dias fizeram a mesma crítica. Minha filha, uma menina de 11 anos, sofreu para abrir a porta. Editor e fotógrafo de UOL Carros também estranharam.

Sem contar a tampa do porta-malas, que mais parece equipamento de academia de musculação. A Audi oferece abertura e fechamento elétrico como opcional para esse último, mas é tão pesada que deveria ser de série. Voltando às portas laterais, se de fato a solução das chapas for a melhor, é preciso ajuste fino nas articulações para facilitar a vida de motorista e passageiros.

Outro ponto no qual esperava-se solução melhor é o dos botões dos vidros elétricos traseiros. Como na maioria dos carros blindados, os vidros traseiros são fixos, portanto os botões que estão ali são inúteis. Algumas blindadoras tiram esses botões e cobrem o espaço vazio, solução bem mais caprichada que, ironicamente, passa a impressão de ter saído assim de fábrica. Mas não, o Audi Q5, que realmente é blindado na fábrica, mantém os acionadores inúteis.

Blindado usado?

Quando vejo anúncios de Mercedes-Benz ou BMW blindados de fábrica, essa característica é destacada como um diferencial positivo. Por esse motivo, o Audi Q5 Security deve ser bem visto no mercado de usados em seus primeiros anos de vida.

Entretanto, a suspensão pneumática, por mais fantástica que seja, demanda um custo maior para manutenção. Carros com esse tipo de suspensão não são bem vistos no mercado de usados. Pneus exclusivos também jogam contra, pois a exclusividade sempre cobra seu preço por isso.

Assim, no papel, fazendo prós e contras, talvez poucos vão querer se arriscar a comprar um Q5 Security mais rodado e seu preço deve cair bastante no médio e longo prazo.

Vale a pena?

Somando tudo, acredito que vale a pena pagar mais caro pela blindagem de fábrica, pois as alterações feitas pela Audi têm importante valor agregado. E convenhamos, quem está disposto a pagar mais de R$ 370 mil pedidos pelo Q5 Security, não deve estar nem um pouco preocupado com a desvalorização maior que esse carro possa ter.

O primeiro dono desse tipo de carro costuma ficar pouco tempo com ele. Não sabe e nem quer saber o custo da manutenção da suspensão ou o preço dos pneus, pois essas batatas quentes não vão queimar na mão dele.

Mas se você é comprador de usados, vai precisar de atenção redobrada com o histórico de manutenção. Inclusive, neste seu caso, recomendo que leia essa outra coluna que escrevi sobre o tema, com dicas para você fazer o melhor negócio de blindados de segunda mão.