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Acelerar vídeos e áudios: por que queremos viver em velocidade?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Isabella Abreu

Colaboração para o VivaBem

29/01/2022 04h00

Você costuma acelerar os vídeos aos quais assiste e os áudios que escuta? Plataformas de conversa, como o WhatsApp, e de streaming, como YouTube, Spotify e Netflix, possibilitam que os seus conteúdos sejam reproduzidos em velocidade até duas vezes maior. Para muita gente é até difícil se imaginar sem o acesso a esse recurso.

"À primeira vista, a possibilidade de acelerar e 'ganhar tempo' pode parecer um presente. Por outro lado, pode ser um gatilho para a ansiedade, impactando as relações pessoais e afetando a saúde física e mental", alerta Tatiana de Carvalho Socorro, mestre em psicologia e professora da Universidade Tiradentes, de Sergipe.

Para o psicólogo Kleber Marinho, responsável pela clínica PPI, a ferramenta não é propriamente um problema, já que recursos tecnológicos deveriam ser bem-vindos, sobretudo quando a ideia é aprimorar e/ou facilitar nossa vida. Entretanto, ele acredita que deveríamos sim questionar a forma, o propósito e a finalidade específica do uso.

"Podemos indagar o porquê tais recursos são desenvolvidos, a serviço de quem e a que se prestam, qual é a real necessidade e, por fim, para quê? Por essa via, seria possível traçar um diagnóstico sobre o 'tempo' atual que vivemos e, a partir disso, chegaríamos na análise do sintoma já implicitamente existente no próprio recurso", diz.

Em suma, essas ferramentas tecnológicas expressam tão somente a sintomatologia da qualidade da vida presente, um espelho de como vivemos e de uma forma de vida cotidiana moldada e padronizada. É mero reflexo de um padrão e estilo de vida que gradualmente fora implementado pelo legado de um sistema neoliberal, o qual carrega em seu bojo a fantasia do ideal de extrair o máximo no menor tempo (im)possível, um anseio obsessivo de alcançar o melhor instantaneamente". Kleber Marinho, psicólogo responsável pela clínica PPI.

Michelle Prazeres, idealizadora do Desacelera SP, iniciativa para as pessoas desacelerarem na cidade de São Paulo, também acredita que esses recursos são sintomas de uma sociedade cada vez mais acelerada e marcada pela cultura da velocidade. No entanto, ela avalia que precisamos olhar para essas manifestações de forma generosa, para não tender a responsabilizar os indivíduos apenas.

"Pode ser que faça sentido, em algum momento, acelerar os áudios. Mas o problema é que essas ferramentas surgem como necessidades e se tornam hábito para logo em seguida se tornarem a regra. Quando a velocidade faz sentido, que bom que podemos correr, mas quando a regra é correr, precisamos observar, porque pode haver algo de errado", ressalta ela.

O impacto da pressa constante

Marinho explica que um estilo de vida acelerado, com pressa constante, naturalmente resultará em um estado de hipervigilância, com possibilidade de oscilação de humor e, portanto, levando a uma qualidade de vida ansiosa, um roteiro perfeito para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade, englobando o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), fobias, burnout (síndrome do esgotamento profissional) e outras patologias correlatas. "Tudo que é vivido em exagero, em ritmo frequente e cadência incessante promove desequilíbrio e causa adoecimento", afirma.

Como se não bastasse o prejuízo causado pela ação já comum de acelerar os processos ligados às tarefas de trabalho, o modo acelerado agora é estendido ao lazer, ócio e todo momento de prazer de foro íntimo. "Temos pressa, por exemplo, em antecipar o final de um filme, de uma série, ouvir um áudio mais rápido para fazer o que com o hipotético tempo abreviado? Não seria essa ação um reflexo estimulado pelo simples impulso de terminar, antecipar e abreviar algo para, então, começar tudo de novo sem um propósito genuíno e legítimo?", diz o psicólogo.

Ele compara a vida da sociedade à de um hamster, correndo incessantemente na rodinha sem qualquer destino. "Talvez seja o momento de pensar se um estilo de vida acelerado não é um comportamento compulsivo social que aceitamos sem qualquer contestação", questiona.

Além disso, a aceleração generalizada da existência vem afetando a nossa vida em outras áreas, como lista Michelle Prazeres: na educação, com crianças cada vez mais cedo pressionadas por um sistema que estimula a competição e o aprendizado precoce (muitas vezes, comprometendo a infância como tempo de brincar); na medicina, com atendimentos cada vez mais rápidos e menos atentos ao corpo e à história da pessoa; na moda, quando tudo é descartável e a cada semana temos novas coleções nas vitrines, formando cadeias de produção cada vez mais desumanas; na tecnologia, quando somos cada vez mais pressionados a ter a última versão de cada dispositivo; na alimentação, quando comemos cada vez mais rápido, sozinhos e alimentos ultraprocessados.

"A aceleração é um fenômeno relacionado à ideia que criamos de avanço, de evolução, de desenvolvimento, e que todos sabemos que está equivocada, tendo em vista os alarmantes números de degradação dos recursos naturais do planeta. No entanto, apesar de sabermos disso, seguimos glorificando o ocupado, o rápido, achando bonito o fato de sermos indisponíveis e superprodutivos", lamenta a idealizadora do Desacelera SP.

Como desacelerar?

Segundo Prazeres, desacelerar não é necessariamente ser devagar. É se perguntar quando a velocidade faz sentido e quando ela não faz, mas corremos, porque isso é o "normal". "Desacelerar é recobrar os sentidos, é humanizar. Por isso que, vale ressaltar, não se trata de um movimento de indivíduos que se desaceleram apenas a si. Trata-se de um movimento coletivo, que entende que é preciso desacelerar a vida, o mundo, as relações, para que todos possamos desacelerar", enfatiza.

Do ponto de vista individual, ela sugere algumas atitudes:

  • Cuide das relações importantes para você;
  • Perceba as suas escolhas de tempo;
  • Faça uma coisa de cada vez e com pausas entre elas;
  • Fique mais tempo off-line;
  • Mantenha contato com atividades que proporcionam desacelerar, como estar na natureza, cuidar de plantas ou realizar trabalhos manuais.

Para melhorar a sensação de correria, o psicólogo Kleber Marinho aconselha que resgatemos o espírito contemplativo, o momento da pausa e do respiro. Em termos práticos, significa apertar a tecla off, não acordar olhando as mensagens do aplicativo, não dormir com o celular próximo, recusar a ouvir todos os áudios acelerados, ter interesse pela qualidade da voz de quem lhe envia a mensagem, olhar quem lhe entrega uma encomenda, dar-lhe bom-dia, sorrir e ter um cotidiano mais empático, solidário e gentil. "Repare diariamente em suas ações e se acostume a lhe impor a dúvida sobre a necessidade da sua pressa", recomenda.

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