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Desconforto social pode ser transtorno de personalidade esquiva; entenda

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Imagem: istock

Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

15/09/2021 04h00

Querer evitar contato interpessoal não é só uma característica de uma pessoa reservada. Há uma condição mental que tem como sintoma a fuga do contato íntimo e social e uma timidez excessiva: o transtorno de personalidade esquiva. Pessoas com o distúrbio também podem ter medo de se sentirem rejeitadas ou inadequadas.

Conforme o DSM-5, o "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais", desenvolvido pela APA (Associação Americana de Psiquiatria), os transtornos de personalidade são agrupados em "clusters" de acordo com suas diferentes características e semelhanças entre si. O transtorno de personalidade esquiva faz parte do "cluster C", relacionado a reações de medo e ansiedade. Dele fazem parte também o transtorno de personalidade dependente e transtorno obsessivo-compulsivo.

O perfil esquivo, também chamado de evitativo, demonstra inibição social constante e com frequência se sente inadequado e hipersensível à avaliação dos outros. Por isso, costuma buscar maneiras de fugir de situações sociais que lhe tirem de sua "zona de conforto".

Constante inibição social e hipersensibilidade são alguns dos sintomas

Na vida prática, os prejuízos são muitos. A pessoa se vê como inferior e teme não ser aceita pelos outros, tem medo de assumir riscos e de se envolver em novas atividades, tende a ser quieta ou tímida para não se expor, evita relacionamentos amorosos por receio de ser humilhada ou ridicularizada e, no trabalho, recusa promoções ou oportunidades para se livrar de possíveis críticas dos colegas.

Quem sofre do transtorno de personalidade esquiva quer, no fundo, se aproximar das pessoas, mas se sente pouco à vontade com elas. Tudo isso causa um sofrimento atroz. As características do quadro são muito semelhantes às do subtipo generalizado da fobia social e, frequentemente, um mesmo paciente recebe os dois diagnósticos.

As pessoas costumam confundir introversão com timidez, mas são coisas diferentes - GETTY IMAGES - GETTY IMAGES
Pessoas com essa condição podem ser extremamente tímidas, ter medo do ridículo e ser excessivamente receosas de parecerem tolas
Imagem: GETTY IMAGES

Diferenças entre outros problemas

As diferenças entre fobia social e transtorno de personalidade esquiva são sutis. O transtorno de personalidade esquiva envolve uma ansiedade mais generalizada do que a fobia social, que muitas vezes inclui situações que possam resultar em constrangimento em público, como falar para uma grande plateia. Mas a fobia social pode envolver um padrão de esquiva mais amplo e, assim, pode ser difícil de distinguir.

Já o transtorno de personalidade esquizoide também é marcado pelo isolamento social. A diferença é que, nesse caso, as pessoas não têm interesse nos outros, enquanto os esquivos se isolam porque são hipersensíveis à possível rejeição ou à crítica.

Primeiros sinais podem surgir na infância

O transtorno surge com mais ênfase na idade adulta, mas alguns sinais podem ser perceptíveis desde a infância: vergonha excessiva, isolamento mais acentuado do que é considerado normal e hábito de evitar pessoas estranhas ou lugares novos.

Os transtornos de personalidade têm uma carga genética relevante. Além disso, a educação e o contexto familiar contribuem de alguma forma para a gênese dessa condição. Dessa forma, lares problemáticos, famílias conflituosas ou agressivas e/ou mesmo pais com dificuldades de educar filhos com limites e capacidade de resiliência podem estar associados a transtornos de personalidade que surgirão ao longo da vida.

É válido destacar que o transtorno de personalidade não tem uma história de "começo, meio e fim". Ele está mais para um "jeito de viver" que a pessoa construiu por causa de suas experiências.

Tratamento: terapia, percepção do quadro e medicação

Cada transtorno de personalidade exige um tratamento diferenciado. O diagnóstico é feito por meio de uma avaliação clínica bem minuciosa com um médico habilitado para que não haja dúvidas. A partir daí, o tratamento pode envolver abordagens psiquiátricas, psicológicas e o uso de psicofármacos como benzodiazepínicos, antidepressivos e antipsicóticos, dependendo de cada caso.

Estudos apontam para a necessidade de uma psicoterapia efetiva de longo prazo para o tratamento, com medicação adotada para crises agudas ou como apoio. A percepção do paciente a respeito da própria condição é essencial, pois o foco está em ajudá-lo a perceber seu modo de funcionamento e a transformá-lo de uma maneira saudável sem perder sua individualidade. A TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental) voltada para as habilidades sociais é uma boa estratégia. Deve-se compreender o transtorno como um todo, e auxiliar o paciente a identificar suas instabilidades sociais e como vencê-las.

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A psicoterapia é o tratamento principal, mas medicamentos, incluindo antidepressivos, podem ajudar com alguns sintomas
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Há controle, em vez de cura

O transtorno de personalidade é um modo de ser e de existir do indivíduo, por isso os especialistas preferem falar em controle da condição, e não em cura. Muitos pacientes evoluem de maneira saudável e com perspectivas de vida iguais às outras pessoas. Não se trata de uma doença a ser erradicada. Exercícios físicos, meditação (principalmente a do tipo mindfulness) e participação em grupos de autoajuda específicos podem ajudar a driblar a ansiedade que permeia a maioria desses transtornos.

Apoio familiar e de amigos reduz estigmas

As pessoas ao redor do paciente precisam oferecer escuta e apoio, enfatizando e reforçando a procura de tratamentos e ajuda profissional. Os especialistas salientam que qualquer transtorno de personalidade ainda é alvo de muito estigma, preconceito, isolamento e rejeição pessoal. Quem convive com um esquivo deve encontrar meios para para tornar sua vida mais agradável e produtiva, oferecendo apoio, escuta, companhia. Como muitos abandonam o processo pelo caminho, acompanhar e valorizar esse processo também é importante.

Fontes: Elie Cheniaux, psiquiatra, docente e orientador no programa de pós-graduação em psiquiatria e saúde mental do IPUB/UFRJ (Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro); Gustavo Bezerra, psiquiatra e pesquisador do Ipq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Laisa Pessoa Botton Prada, psiquiatra da BP (Hospital A Beneficência Portuguesa de São Paulo); Luiz Scocca, psiquiatra pelo HCFMUSP e membro da APA (Associação Americana de Psiquiatria).

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