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Longevidade

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Cidade longeva, Maués (AM) credita vida longa a guaraná e vida sem estresse

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Imagem: iStock

Gabriel Ferreira

Colaboração para VivaBem, em Manaus

27/08/2021 04h00Atualizada em 27/08/2021 11h12

Conhecido como "terra do Guaraná", o município de Maués, localizado na região do Baixo Amazonas, guarda segredos que a ciência segue em busca de desvendar, como o caso da longevidade da população.

Uma pesquisa relacionada ao tema, de Euler Ribeiro, médico e reitor da Funati (Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade do Amazonas), doutor em geriatria e gerontologia, mostra que a cidade possui o dobro da média nacional octogenária, que é de 0,5% nas cidades.

Os dados foram obtidos por Ribeiro a partir de um levantamento do ano de 2007 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e apontam que os idosos com mais de 80 anos de Maués representam 1% da população da cidade.

O objetivo era identificar fatores genéticos e marcadores de longevidade e, do ponto de vista nutricional, se existe algum componente alimentar responsável por manter a população acima de 80 anos num percentual acima da média brasileira.

Da curiosidade de pesquisador em saber o porquê do idoso de Maués ser tão longevo, Ribeiro desenvolveu o estudo Idoso da Floresta: indicadores de longevidade e fragilidade, realizado em parceria com a UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), representada por Ivana Mônica da Cruz, doutora em genética e professora. Como resultado, em 2012 foi publicado o livro "Dieta Amazônica". O livro trata da relação da alimentação amazônica com o idoso de Maués, sobretudo a respeito do consumo do guaraná.

A pesquisa de Ribeiro e Cruz foi desenvolvida de 2007 a 2011 e comparou 3.000 idosos de Maués e Manaus. Os moradores com mais de 80 anos da "terra do Guaraná" tinham menor incidência de doenças. Houve também um estudo complementar apresentando o perfil desses idosos: idade corporal de uma pessoa de 45 anos, com manutenção de memória, força muscular e equilíbrio.

A partir dos estudos realizados, Ribeiro destaca que, além do consumo do guaraná, outros fatores do cotidiano contribuem para a longevidade da população de Maués, como fuga do estresse, exercícios e alimentação.

Idosos em Maués (AM) - Divulgação - Divulgação
Idosos em Maués (AM)
Imagem: Divulgação

"Eles vivem na floresta e na beira dos rios, por isso o fator estresse é muito reduzido, eles têm casa para morar, comida todos os dias e reunião familiar muito presente. Não veem coisas negativas na televisão toda hora. O melhor exercício é caminhar e eles caminham muito na floresta. E mais: eles remam muito porque a roça fica na terra firme onde não inunda nas cheias dos rios, e eles moram na várzea, onde tem mais frutos da floresta e é onde a pescaria é mais fácil. O sono também é favorável, eles dormem cedo e acordam cedo", declara.

Ribeiro segue relatando que "o alimento de frutos das florestas como castanhas, guaraná, camu camu, açaí, cupuaçu, graviola, ingá, é muito importante". Além disso, o pesquisador explica que a população mauesense toma çapó, "uma mistura do guaraná em pó com mel de abelha e água, todo dia de manhã."

De acordo com o médico, "o guaraná é anticarcinogênico, além de ser um vasodilatador cerebral, o que ajuda a manter a memória. Também é vasodilatador periférico, então as artérias que irrigam o pênis estão sempre favorecendo a irrigação peniana e clitoriana, por isso homens de 90 anos ainda fazem filhos."

Há 66 anos com guaraná

Desde os 14 anos, Ationel Gomes, aposentado, hoje com 80 anos, toma gemada com guaraná diariamente. "Acordo 5h, e 6h estou tomando o guaraná com a gema do ovo. Aí vou tomar o café feliz a partir das 8h", declara.

O mauesense conta que começou a beber a mistura por influência dos pais. Além disso, diz que começou a tomar o guaraná com açúcar devido ao gosto amargo, diferente dos "antigos que tomavam sem açúcar."

Gomes diz que faz de 20 a 30 minutos de caminhada diária nas praças públicas do município. Com uma vida toda trabalhando como produtor rural, ele relata que consumia o guaraná como fonte de energia para segurar a lida diária até chegar à aposentadoria.

Os idosos de Maués

Tacimara Pereira, médica do Programa Mais Médicos em Maués, compartilha sua experiência: "A maioria dos idosos informa como cuidado de saúde o uso de guaraná, grande parte relata que adiciona açúcar, mas também vemos muita atividade física, com ênfase para caminhadas e a ingestão de peixe frescos", declara.

Segundo Pereira, "empiricamente atribuo o uso do guaraná à longevidade da população mauesense. Cientificamente, me alinho aos artigos de Euler Ribeiro, que igualmente relaciona a longevidade de Maués ao consumo de guaraná e jaraqui [um peixe da região]."

Idosa de Maués (AM) - Divulgação - Divulgação
Idosa de Maués (AM)
Imagem: Divulgação

Nubiane Alves, nutricionista da Central de Referência em Fisioterapia e Fonoaudiologia Carolino Dias dos Santos, de Maués, a longevidade "tem fator multifatorial, mas a alimentação é a protagonista, assim como a atividade física e as longas conversas no final da tarde, algo típico na nossa cidade, fator que contribui para a saúde mental."

"O plano alimentar dos idosos é rico em alimentos regionais, vitaminas, minerais, antioxidantes, como o cará, macaxeira, banana pacovã, jerimum, peixes regionais, cheiro-verde, e outros alimentos nutritivos. Ou seja, comida de verdade regional evitando ao máximo os alimentos processados", conta a nutricionista.

O guaraná em pó possui em sua composição a teobromina que, segundo a nutricionista, atua na geração da sensação de bem-estar, e contém alta concentração de tanino, um poderoso antioxidante. Além disso, Alves destaca que o guaraná pode ser considerado um "elixir da longa vida", por auxiliar no "controle da glicose e do colesterol."

Novos estudos sobre os efeitos do guaraná

Em julho deste ano, Jorge Massulo de Aguiar, médico nutrólogo, doutorando em geriatria pela Universidade da Beira do Interior, em Covilhã, Portugal, esteve por duas semanas em Maués para também realizar um estudo relacionado a longevidade. Ele atendeu 200 idosos com mais de 80 anos.

Na pesquisa, o médico estuda a incidência de aterosclerose em idosos que tomam guaraná. A doença causa uma inflamação, com a formação de placas de gordura, cálcio e outros elementos, na parede das artérias do coração e de outras localidades do corpo humano.

"As formas de uso [do guaraná] que descobri na minha pesquisa são as mais variadas: bastão ralado na pedra foi a mais citada, mas tem também ralado na língua do pirarucu, misturado com gemada, misturado com mel, limão e mangarataia (gengibre), misturado com mirantã ou catuaba. Em pó com água e açúcar, com suco de limão", explica.

A pesquisa de Aguiar busca compreender se há relação do guaraná e a diminuição dos efeitos da aterosclerose nos idosos. Diante disso, o médico afirma que "o material coletado até a presente data já é bastante forte para vislumbrarmos uma futura publicação e, quem sabe, publicar os dados e as belíssimas histórias dos examinados."

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