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Na pandemia, terapia inédita no Brasil propõe tratar depressão à distância

Os pacientes passarão por sessões de estimulação diárias de 30 minutos - Divulgação
Os pacientes passarão por sessões de estimulação diárias de 30 minutos Imagem: Divulgação

Paula Nogueira

Colaboração para o VivaBem

12/07/2021 04h00

Um estudo inédito no Brasil vai analisar a eficácia de um novo tratamento para depressão à distância. A terapia usa um método de estimulação cerebral chamado ETCC (estimulação transcraniana por corrente contínua), acionado por meio de um dispositivo conectado ao celular. Além disso, também há atividades cognitivas.

Além de inovador, o método que será testado por pesquisadores do IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) pode também ser uma solução para os problemas de locomoção enfrentados durante a pandemia. Diversos estudos apontam que o momento fez aumentar a população que sofre com o transtorno mental, mas a falta de consultas presenciais se tornou um entrave ao tratamento.

"O aparelho de ETCC que vamos avaliar é portátil e de uso fácil e intuitivo. Além da comodidade, pode aumentar a aderência ao tratamento, uma vez que resolve os problemas logísticos relacionados ao deslocamento diário aos centros de pesquisa", explica em entrevista ao VivaBem o psiquiatra do IPq, Lucas Borrione, que integra a equipe que conduzirá o estudo.

A técnica também está sendo estudada em vários países ao redor do mundo para o tratamento de diferentes quadros depressivos. No caso do ensaio clínico da USP, segundo Borrione, será avaliada a eficácia no tratamento da depressão unipolar (que não vem intercalada com episódios de mania ou hipomania, característicos do transtorno bipolar).

Como funciona o tratamento?

Depois de passarem por uma sessão de treinamento presencial, os participantes levarão o aparelho para realizarem as sessões em casa. Durante o período da pesquisa, todos serão acompanhados por meio de telemedicina pela equipe do estudo, que será coordenado pelo professor da Faculdade de Medicina da USP André Brunoni.

O aparelho para o tratamento remoto de ETCC emite uma corrente elétrica de baixa intensidade, semelhante a uma pilha comum, que atravessa o cérebro de forma não invasiva, modulando áreas afetadas pela depressão, detalha Borrione. "O procedimento é indolor, e costuma gerar sensações de formigamento e leve calor no local da aplicação."

A combinação do aparelho remoto com atividades feitas em um aplicativo de celular tem a função de ajudar o paciente a focar sua atenção na sessão, observa o pesquisador da USP. "Na medida do possível, tenta evitar que a mente fique ociosa, ou tomada por ruminações pessimistas, características dos episódios depressivos."

No tratamento em casa, os pacientes passarão por sessões de estimulação diárias de 30 minutos. Além da eficácia domiciliar, outro objetivo do estudo, segundo Borrione, é avaliar se, de fato, o método mais simples aumentará a aderência às sessões.

Podem participar do estudo adultos entre 18 e 59 anos, com diagnóstico de depressão unipolar, sem outros diagnósticos psiquiátricos conflitantes (que serão avaliados pela equipe de pesquisadores), e que estejam ou não em uso de antidepressivos. Os interessados devem responder a um questionário.

"Faremos uma pré-avaliação de cada caso e, caso haja critérios de participação, entraremos em contato com os interessados para agendamento da triagem". O médico avisa, entretanto, que a procura tem sido grande. "No momento, contamos com uma lista de espera de algumas semanas para chamada."

Dispositivo é conectado ao celular por meio de um aplicativo - Divulgação - Divulgação
Dispositivo é conectado ao celular por meio de um aplicativo
Imagem: Divulgação

Terapia não é novidade, mas é inédita no Brasil

A ETCC começou a ser estudada em pacientes com depressão em Londres, na década de 1960. Mas foi a partir dos anos 2000, na Universidade de Goettingen, na Alemanha, e em seguida, em Harvard, nos Estados Unidos, que as pesquisas foram retomadas, impulsionadas pela demanda por novos tratamentos para pacientes com quadros depressivos resistentes às medicações antidepressivas.

Ao longo dos últimos 10 anos, o grupo de pesquisas com neuromodulação da USP, coordenado pelo professor Brunoni, já realizou diversos estudos com ETCC no tratamento da depressão, com resultados promissores.

Mas a terapia domiciliar, que será testada agora no ensaio clínico da USP, patrocinado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), é inédito no Brasil, ressalta o pesquisador.

Mais de 30 mil sessões individuais já foram documentadas em diversas pesquisas ao redor do mundo, com boa margem de segurança, avalia Borrione. De acordo com o médico, os efeitos colaterais são breves e transitórios. "As principais contraindicações, no momento, dizem respeito a implantes metálicos em crânio", observa. Para evitar problemas, a participação no estudo estará condicionada a uma avaliação cuidadosa, garante o médico.

Pode chegar ao SUS?

Em alguns países como o Reino Unido já existem recomendações de aplicação de ETCC pela Nice (Instituto Nacional para Saúde e Cuidados de Excelência, em tradução livre), para pacientes que tenham refratariedade aos antidepressivos, ou que sofram de efeitos colaterais com estas medicações. Nos países da União Europeia, Austrália e Estados Unidos também pode ser usada em casos específicos, diz Borrione.

No Brasil, no momento, ainda não há previsão para o uso do ETCC portátil no SUS, mas o pesquisador da USP está otimista. "Certamente o conjunto das pesquisas que estão sendo realizadas vai oferecer dados suficientes para que gestores públicos possam tomar as melhores decisões baseadas em avaliações de custo-benefício, sempre alicerçadas em sólidas evidências científicas."

O médico acredita no avanço dos estudos e na expansão do uso da terapia. "As pesquisas continuam em fases avançadas e podem eventualmente repercutir em políticas públicas e recomendações por órgãos oficiais".

Tratamentos disponíveis e em teste no país

O Brasil é o país com maior número de pessoas deprimidas da América Latina, segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde). A maioria dos tratamentos para depressão reúne uma combinação de antidepressivos, psicoterapia, dieta equilibrada e a prática de atividade física. Veja alguns tratamentos no país para o transtorno:

  • Antidepressivos: são medicamentos indicados após o diagnóstico de depressão. Atuam no sistema nervoso central, aliviando os sintomas de tristeza, cansaço, alteração de sono e apetite;
  • Magnetoconvulsoterapia: nova técnica, ainda em teste, para depressão grave com menos efeitos colaterais;
  • EMTr (estimulação magnética transcraniana): técnica não invasiva, que utiliza campos magnéticos para estimular pequenas regiões do cérebro;
  • ECT (eletroconvulsoterapia): utilizada para tratar depressão grave, consiste na aplicação de um estímulo elétrico no cérebro, indolor e administrado com leve anestesia, que age sobre os neurotransmissores cerebrais;
  • Cetamina: a aplicação é de maneira intravenosa. O procedimento é feito em hospital acompanhado do psiquiatra;
  • Psicoterapia: estudos indicam que a terapia ajuda o paciente a entender melhor os motivos que causam a depressão, auxiliando no tratamento e na busca do autoconhecimento.

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