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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Eles esconderam o diagnóstico de doenças; qual impacto na saúde mental?

Gabrieli Nieman Mello, 29, teve diagnóstico de depressão e compulsão alimentar - Arquivo pessoal
Gabrieli Nieman Mello, 29, teve diagnóstico de depressão e compulsão alimentar Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

25/06/2021 04h00

Não é fácil receber o diagnóstico de uma doença, seja ela qual for. Há um medo do desconhecido, dos tratamentos, de sua eficácia e, em alguns casos, somos até mesmo obrigados a confrontar nossa própria finitude. Para algumas pessoas, ouvir que há algo de errado no corpo pode ser ainda mais difícil, principalmente se estamos falando de doenças estigmatizadas, que geram preconceito em quem está ao redor.

Por esses motivos, alguns têm um receio de se expor e fazem do diagnóstico um segredo. Em conversa com VivaBem, três pessoas relataram como foi esse momento e a hora de contar para amigos, familiares ou colegas de trabalho. Veja a seguir.

"Testei positivo para HIV e meu maior medo era o preconceito"

Henrique Trovó, 26, publicitário

Henrique Trovó - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Henrique Trovó
Imagem: Arquivo pessoal

"Descobri que estava com HIV em 2019, quando fiz um teste rápido, daqueles gratuitos e disponibilizados pelo SUS [Sistema Único de Saúde]. Pensei que estava errado, pois sempre usava camisinha nas relações sexuais. Com isso, realizei o exame de sangue que confirmou o resultado.

Entrei em choque porque sempre tive muito medo do HIV. Já tinha lido sobre o assunto antes, tinha informação, mas liguei para um amigo médico para me tranquilizar. Mesmo assim, passei dois dias muito mal, só chorava.

Meu único medo era o preconceito, além de um receio de o medicamento não funcionar comigo ou, então, sentir efeitos colaterais. Em seguida, comecei o tratamento no SUS, onde temos acesso ao medicamento. São dois comprimidos por dia e, em dois meses, já fiquei indetectável.

Quando descobri, estava no trabalho e contei para minha colega que estava comigo. Dei sorte, pois ela só me deu um abraço e falou para eu ir para casa. Resolvi contar na empresa e meu gestor até me ligou para oferecer todo tipo de suporte possível. Me senti muito acolhido.

Para os meus amigos, decidi contar aos poucos, no meio de conversas. Não fiz um grande evento para isso. Penso em uma pessoa com diabetes, ela não faz uma videoconferência para contar.

Meu único problema foi minha família porque meu pai, até hoje, não aceita que sou gay —e já me assumi há mais de 10 anos. Na cabeça das pessoas, ainda há essa conexão muito forte do HIV com os gays. Então, ele não sabe do meu diagnóstico.

Para minha mãe, contei quando me vacinei contra covid-19. Somos bem próximos, mas tive medo da reação. Uma coisa é contar para amigos ou no trabalho, outra é dentro de casa. Mas a reação foi extremamente tranquila. Ela disse que não precisava ter escondido e também acabou contando para minha irmã. Isso tirou um peso das minhas costas.

Se você guarda isso apenas para você, você surta e entra num buraco. Então, falar é o que te ajuda e te liberta. Também auxilia outros pacientes a entenderem que a vida não acabou aí. Não é um bicho de sete cabeças. Quando comecei a falar mais, descobri muitas pessoas que também convivem com o HIV. Talvez, se eu soubesse antes e tivesse tido contato, teria sofrido menos."

"Me sentia constrangida de contar que estava com tuberculose"

Bruna Palhano, 25, estudante

Bruna Palhano - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Bruna Palhano
Imagem: Arquivo pessoal

Recebi o diagnóstico de tuberculose em agosto de 2019. Foi um grande susto, especialmente para minha mãe. Afinal, quando se recebe um diagnóstico como esse, é impossível não se lembrar do histórico que a doença carrega, até mesmo por ser bastante antiga. Mas se informar foi fundamental para que eu aprendesse a respeito, e seguisse o tratamento com mais serenidade.

Assim que recebi o diagnóstico não contei para ninguém, apenas a minha família sabia. Tinha medo e me sentia constrangida de contar que estava com tuberculose. Até porque, hoje em dia, o preconceito ainda existe e, infelizmente, é bastante comum ouvir comentários maldosos sobre pacientes de tuberculose, além de brincadeiras ofensivas.

Conforme o tratamento foi avançando, fui aprendendo muito a respeito com os profissionais que me acompanhavam, e conheci pessoas que passavam pelo mesmo que eu. Fui percebendo sobre a importância de falar do assunto e até mesmo para ajudar na conscientização das pessoas.

Admitir para as pessoas que estava com tuberculose me tornou muito mais forte. Me senti muito mais leve e confiante. Me fez perceber que a informação é fundamental até mesmo no combate ao preconceito.

Foi libertador para a minha saúde mental e, de certa forma, contribuiu para que outras pessoas também aprendessem a respeito. Hoje, não tenho mais vergonha, afinal, fez parte da minha vida e ajudou para que eu mudasse muitos hábitos."

"Meu maior medo era falar que estava com depressão; até hoje não contei da compulsão alimentar"

Gabrieli Nieman Mello, 29, psicóloga e jornalista

Gabrieli Nieman Mello - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabrieli Nieman Mello
Imagem: Arquivo pessoal

"Fiz terapia a minha vida toda e, em 2015, tive uma crise muito forte em um das sessões. Chorava compulsivamente e não queria voltar para casa. Neste dia, minha psicóloga me diagnosticou com depressão e sugeriu uma consulta com um psiquiatra. Depois da consulta, meus pais foram me buscar porque eu não estava bem.

Eles estranharam e perguntaram o que tinha acontecido, mas só falei que não estava bem e pedi para minha psicóloga conversar com eles. Não tinha coragem de dizer que estava com depressão. Era meu maior medo. Na minha cabeça, pensava 'justo eu que sempre cuido da minha saúde mental e faço terapia? Como pude chegar nesse nível?'. Me sentia mal, fraca e incapaz, não me conformava.

Minha psicóloga explicou a situação. Meus pais me acompanharam na minha primeira sessão com o psiquiatra. A partir do meu histórico clínico, ele prescreveu as medicações e eu comecei o tratamento. Mas implorei para os meus pais não contarem a ninguém.

Nesta fase, estava agressiva e não tinha muita paciência. Meu namorado começou a perceber. Lembro que quando decidi abrir o jogo, tive uma crise de choro e pedi ajuda da minha mãe. Ela explicou para ele, que logo me disse: 'Está tudo bem'. Ter meus pais e meu namorado —hoje, noivo — por perto foi o que me ajudou a enfrentar a doença.

Depois de um ano, consegui contar para as minhas amigas, mas elas levaram isso com tanta naturalidade que me senti muito bem. Já com outros amigos, demorei para falar e isso com certeza prejudicou a relação, que já estava fraca. Para o restante da família, levei mais tempo e foi natural. Abrir o jogo sobre o diagnóstico tirou um peso das minhas costas.

Recentemente, recebi um diagnóstico de compulsão alimentar. Até hoje, eu não contei para as pessoas mais próximas. O único que sabe disso é meu noivo, depois de um longo tempo. Meus pais desconfiam, mas não consigo falar para quase ninguém.

É um assunto que tenho dificuldade em expor. Nos momentos de compulsão, ouço que 'não estou cuidado de mim' e, unindo à questão do padrão estético, tem um peso muito grande."

Como o diagnóstico impacta a saúde mental

O impacto do diagnóstico pode variar de acordo com tipo da doença e até em como a pessoa recebe a notícia. Para alguns indivíduos, afeta de uma forma muito profunda, segundo André Dória, psicólogo e psicanalista da Holiste Psiquiatria, em Salvador (BA). "Você lembra que não é imortal e não tem controle do corpo. Por isso, muitas vezes causa tanto mal-estar e sofrimento", diz.

Há ainda uma dificuldade em assimilar o ocorrido. Por isso a pessoa leva um tempo para saber o que quer fazer com a informação. "Temos o momento de receber a notícia, de compreender, de elaborar e, por fim, tomar uma decisão: contar ou não? A ajuda profissional, nesses casos, é muito importante."

Não é todo mundo que vai sofrer caso guarde o "segredo". Entretanto, há quem apresente grande sofrimento psicológico escondendo o diagnóstico. "Se ela sabe que existe um estigma com a doença, ela já pensa que as pessoas vão se afastar dela. Com isso, ela própria se afasta dos meios sociais, evitando sair e ver os colegas, por exemplo", explica Marilene Kehdi, psicóloga pela FMU (Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas) e especialista em atendimento clínico.

No caso das doenças psicológicas, o tabu presente na sociedade prejudica que a pessoa se abra com alguém. "No caso da depressão, há essa visão de ser uma 'frescura, preguiça'. Aí quando a pessoa fala que não está bem, há um menosprezo e não uma validação da dor dela. Isso também dificulta uma abertura", diz Kehdi.

Por isso que, para algumas situações, o atendimento psicológico é mais do que válido. "O chão dessa pessoa se abre e pode ser um momento muito duro, já atendi pacientes neste contexto. A terapia pode orientá-la em como abordar um amigo ou os pais. Se ela está sozinha, pode ser mesmo difícil", afirma.

Os especialistas deram mais algumas dicas para o momento:

  • Se você está doente e quer se abrir, a orientação é conversar com uma pessoa de confiança e, se estiver muito difícil, procurar um psicólogo. Uma outra dica são os grupos de apoio --de redes sociais, ONGs etc.
  • Para quem está do outro lado, tenha empatia, ofereça acolhimento e faça uma escuta ativa, deixe a pessoa falar. Não fique julgando ou questionando como e onde ela pegou a doença.

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