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"Uma dor no peito me trouxe o diagnóstico de tuberculose pulmonar"

Meu acompanhamento médico é feito em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) na zona sul de SP - Arquivo pessoal
Meu acompanhamento médico é feito em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) na zona sul de SP Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

24/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Em dezembro, senti uma forte dor no peito e fui ao pronto-socorro achando que era infarto
  • Descartado infarto, médicos suspeitaram de embolia pulmonar, mas era tuberculose
  • Doença é causada pela bactéria mycobacterium tuberculosis (ou bacilo de Koch)
  • Eficaz e gratuito, tratamento via SUS dura seis meses, no mínimo

No dia 17 de dezembro de 2020, entrei no pronto-socorro achando que estava tendo um infarto e saí com um diagnóstico de tuberculose pulmonar, um dos tipos mais comuns da doença.

Você, assim como a maioria das pessoas, deve estar se perguntando: "Mas tuberculose ainda existe?". Sim, embora seja uma doença milenar, ela ainda é muito comum no Brasil e em outros países. No mundo, a TB está entre as 10 principais causas de morte no geral, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Mas antes que esse texto fique sombrio demais, é preciso ressaltar que, hoje em dia, temos um tratamento eficaz e gratuito, feito exclusivamente via SUS (Sistema Único de Saúde) que, desde que realizado corretamente, garante 100% de cura. Hoje (24), no Dia Mundial de Combate à Tuberculose, conto como foi a descoberta da minha doença aos 28 anos.

Nem infarto, nem embolia pulmonar...

Estava trabalhando quando senti uma forte dor no peito, tinha certeza que era algo no meu coração. Esperei cerca de 30 minutos e, como não passou, fui ao pronto-socorro. Descartada a suspeita de infarto, um dos exames mostrou uma alteração que poderia ser sinal de embolia pulmonar —uma obstrução das artérias dos pulmões.

Com isso, o médico pediu uma tomografia com contraste na região do tórax que, rapidamente, trouxe o diagnóstico da tuberculose pulmonar, que é causada pela bactéria mycobacterium tuberculosis (ou bacilo de Koch) e transmitida via gotículas de saliva eliminadas pela respiração, espirros ou pela tosse.

diagnótisco de tb - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Quando recebi o diagnóstico de tuberculose após tomografia e não de embolia pulmonar (TEP)
Imagem: Arquivo pessoal

"Luiza, a notícia boa é que você não está tendo uma embolia pulmonar. A ruim é que apareceu o diagnóstico de tuberculose no pulmão", disse o médico que me atendia. Minha primeira reação foi de choque, nem sabia ao certo o que falar, mas logo perguntei sobre o tratamento: "Existe, doutor?".

O médico disse que sim e que eu deveria procurar, no dia seguinte, a UBS (Unidade Básica de Saúde) do meu bairro para iniciá-lo. Saí de lá tão nervosa que trouxe o acesso na veia, com uma agulha enorme no meu braço. Só reparei quando cheguei em casa.

Ignorei uma tosse de mais de 3 semanas

Já na UBS Parque Imperial (SP), mostrei os exames que diagnosticaram, de fato, a tuberculose. Seguindo os protocolos, as enfermeiras me fizeram perguntas importantes neste primeiro momento. Isso porque qualquer caso de tuberculose deve, obrigatoriamente, ser notificado ao serviço de epidemiologia dos municípios, parte fundamental no controle da doença.

"Qual seu nome? Endereço? Telefone? Quem mora com você? Idade? Luiza, dá seu dedo para o exame rápido de HIV. Negativo. Luiza, você precisa colher o catarro, consegue hoje? Luiza, você precisa vir aqui todo dia tomar o medicamento, ok? Luiza, seu xixi vai ficar laranja e você pode emagrecer no tratamento. Luiza, vou te ligar sempre para saber como você está". Depois dessa avalanche de informações, comecei a chorar que nem um bebê.

tb - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Máscara PFF2 e face shield em dias de ir ao posto
Imagem: Arquivo pessoal

A enfermeira que me atendeu só não me abraçou porque não podia: "Isso não é culpa sua. Fica calma, você já descobriu e nós vamos cuidar de você". Engolindo o choro, passei na consulta com um dos médicos de família do posto. Ele me perguntou sobre os sintomas e tudo começou a fazer sentido.

Além de tosse persistente e dor no peito, tinha notado um emagrecimento muito rápido e falta de apetite. Mas nunca teria relacionado com um quadro de tuberculose —pensei até que era covid-19. Me senti culpada por não ter dado atenção aos sintomas que estavam ali, gritando na minha frente.

Pessoas saudáveis também têm tuberculose

Tinha certeza que a vacina BCG, que tomamos quando nascemos, nos protegia "para sempre" contra a tuberculose. Mas logo me disseram que esse imunizante previne os casos mais graves na infância, extremamente importante.

Uma coisa que também aprendi é que doença não tem rosto. Se você pensa que apenas pessoas em situação de rua ou mais vulneráveis, sem acesso a saneamento básico, podem ter tuberculose, você está enganado. É claro que esses fatores de risco são relevantes, mas jovens saudáveis também podem desenvolvê-la.

Os médicos me explicaram que qualquer um que utiliza o transporte público ou outros locais de aglomerações, por exemplo, está sujeito a ter contato com o bacilo de Koch. A diferença é que, em alguns indivíduos, ela nunca dá as caras, mas, se a imunidade cai muito, pode ser que ela apareça, conforme explica Edinei Guimarães, pneumologista do Hospital Júlia Kubitschek, da FHEMIG (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais).

"Estima-se que, no mundo todo, 1/4 da população esteja infectada pelo bacilo da tuberculose. Infectada não significa adoecida, mas, sim, que o organismo utiliza mecanismo de defesa capaz de bloquear a bactéria. Quando ocorre uma baixa na imunidade, seja por alguma doença, medicamento, má nutrição, alcoolismo, ou outras situações, a tuberculose 'se aproveita' dessa situação e aparece", diz.

tb - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Tratamento é gratuito e feito apenas pelo SUS
Imagem: Arquivo pessoal

Inclusive, a pessoa pode ficar com a bactéria adormecida por anos até ter uma baixa na imunidade. Eu mesma não faço ideia quando e onde posso ter tido contato, e é quase uma missão impossível rastrear. Por isso é importante que as pessoas mais próximas dos infectados também se submetam a exames que detectem (ou não) a presença da bactéria. Meus pais e irmã fizeram e foram todos liberados sem sinal da bactéria. Ainda bem!

Estigma da doença existe e atrapalha tratamento

Antes mesmo de escrever esse texto, pensei bem se seria uma boa ideia me expor dessa forma. Quando você diz que está com tuberculose, não existe uma comoção como ocorre com outras doenças. Na verdade, é mais um choque ao descobrir que ela ainda existe e uma visão de que a pessoa provavelmente está "nas últimas".

Mas eu não julgo. Os filmes retratam a doença dessa forma: uma pessoa à beira da morte e tossindo sangue, que era o que ocorria antigamente. Hoje, esse quadro é bem diferente devido à eficácia do tratamento. Famosos que também já tiveram tuberculose, como o cantor Thiaguinho e o jogador Thiago Silva, auxiliam no combate à desinformação.

"Acho que o que falta, nessas campanhas, é isso: pessoas normais, saudáveis, que podem adoecer. Não é mais aquele negócio do boêmio de séculos passados", diz Guimarães.

Ao mesmo tempo que esse preconceito me fez pensar se seria uma boa ideia expor a situação, foi o que também me motivou a escrever esse texto. O estigma é tão ruim que não só faz mal às pessoas que estão com tuberculose, como prejudica a busca e a adesão ao tratamento.

Com 15 dias de medicamento, você deixa de transmitir a doença

Os remédios só estão disponíveis via SUS, ou seja, não é possível comprá-los. O motivo é que o governo precisa ter controle da tuberculose e garantir que a pessoa está seguindo o tratamento da forma correta.

remédio para tuberculose - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Remédio dos primeiros dois meses é maior
Imagem: Arquivo pessoal

A quantidade de antibióticos ingeridos por dia não é moleza: são quatro comprimidos (enormes!) por dois meses —o número pode variar de acordo com o peso. Em cada um deles tem rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol. Depois, são mais quatros meses com quatro comprimidos (menores) por dia, apenas com a isoniazida e a rifampicina.

Totalizando, o tratamento da doença dura, no mínimo, seis meses. É longo e cansativo, não vou negar. Por sorte, não senti grandes impactos no meu corpo, como ânsia de vômito, diarreia e outros efeitos colaterais. Por conta do longo período, os pacientes deixam de fazer o tratamento corretamente, o que garantiria eficácia de quase 100% de cura.

"Tem gente que abandona o tratamento quando sente as melhoras, mas os bacilos ainda não foram erradicados. Isso, futuramente, pode provocar a doença novamente. Só que os antibióticos podem não ser tão eficientes e cria-se uma resistência aos remédios, que é a tuberculose multidroga resistente. O tratamento fica mais longo, chegando a 18 meses, e a chance de cura reduz. Esse é um dos grandes desafios da saúde pública em relação à tuberculose: reduzir o número de abandonos", explica o pneumologista.

remédio para tuberculose - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Medicamentos da segunda fase: bem menores
Imagem: Arquivo pessoal

Já completei mais de três meses de tratamento e, até o momento, me sinto bem. Não tenho tosse e nem dor no peito. Minha fadiga, muito forte no começo, quase não existe mais. Voltei a me exercitar aos poucos e ainda estou na luta para recuperar peso. Um dia de cada vez.

Mensalmente, vou à UBS para consultas clínicas e também fazer o exame de escarro. Ele faz parte do protocolo e garante que, mês a mês, a bactéria siga "negativa" no resultado. Como combinado com a equipe, pego medicamentos a cada 10 dias, mais ou menos. Com a pandemia da covid-19, é preciso redobrar ainda mais os cuidados.

Diagnóstico precoce e adesão ao tratamento

Esses dois pontos são cruciais para a erradicação da doença, segundo Hélio Arthur Bacha, mestre e doutor em doenças infecciosas e parasitárias pela USP e infectologista do Hospital Albert Einstein. "O maior problema ainda é a adesão ao tratamento. A única fonte da tuberculose é uma pessoa com tuberculose. O diagnóstico precoce é a melhor forma de prevenir e tratar a doença porque quanto mais tempo essa pessoa infectada fica tossindo, mais ela espalha a doença", diz.

Bacha, que participou da criação do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, lamenta que ainda ocorram números tão altos de mortalidade.

Temos medicação específica e é gratuita. Quando alguém morre por tuberculose, é uma derrota coletiva.

Por isso, não se esqueça de procurar atendimento se a sua tosse (com ou sem catarro) não passar depois de três semanas. Esse ainda é o principal sintoma da doença, mas outros sinais podem aparecer, como febre, sudorese noturna, cansaço, dor no peito, falta de apetite e emagrecimento. Em casos mais graves, o catarro tem presença de sangue.

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