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'Não aguentamos mais ver gente morrendo', desabafa médica do interior de SP

Taiane é medica e atualmente está trabalhando nas UTIs de hospitais no interior de São Paulo - Arquivo pessoal
Taiane é medica e atualmente está trabalhando nas UTIs de hospitais no interior de São Paulo Imagem: Arquivo pessoal

Danielle Sanches

Do VivaBem, em São Paulo

05/03/2021 16h27

Em abril de 2020, quando o novo coronavírus (SARS-CoV-2) começava sua escalada pelo interior paulista, a médica emergencista Taiane Solin, de 30 anos, falou ao VivaBem sobre a rotina pesada de cuidar dos pacientes vítimas da covid-19.

Na época, ela havia viralizado na internet com um desabafo sobre um paciente que se despediu da família usando o celular da médica, pouco antes de ser intubado. Ele faleceu.

Quase um ano depois, Taiane conversou com a reportagem novamente para contar o que tem vivido durante o agravamento da pandemia no estado de São Paulo. Agora, ela atua apenas em hospitais na região de Campinas.

Taiane, médica do interior de SP - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Estamos exaustos", resume ela, que conversou com a gente enquanto fazia compras no mercado— seu único "rolê" ultimamente. "As coisas já tinham melhorado, eu esperava que, a essa altura, nós já estivéssemos mais preparados, e não estamos", diz. Confira o depoimento:


"Eu comecei a pandemia atuando no PS como emergencista, mas acabei mudando minha área de atuação. Por pura falta de profissionais disponíveis, acabei indo cada vez mais para as UTIs e fiquei de vez.

Na UTI, a qualidade de vida é melhor. Não tem ninguém gritando na minha cara enquanto eu tento ajudar o paciente, o que era frequente no pronto-socorro. Por outro lado, a gente vê muita gente morrer. Essa é a pior parte.

Eu e meus colegas não aguentamos mais ver tanta gente morrendo.

O perfil também mudou. Antes eram os mais velhos, gente com comorbidade, uma situação mais complexa. Agora são pessoas jovens, saudáveis, que chegam já em estado muito grave. O que percebemos é que o corpo jovem reage mais violentamente à infecção, e justamente por isso a situação se agrava, as coisas ficam piores.

Hoje eu atuo em hospitais da rede particular e do SUS. Os dois têm problemas. Recebi ontem uma mensagem avisando que talvez falte bomba de infusão —um aparelho que serve para manter os pacientes sedados, com medicação o tempo todo na veia. Falta medicação em outro. É como falar para um restaurante que não tem arroz bem na hora do almoço.

taiane, médica interior de SP - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A sensação que eu e meus colegas temos é de incredulidade. 'Tá começando tudo de novo', é o que mais falamos. Tem dias que saímos da UTI e vamos chorar no banheiro.

Estamos exaustos, a verdade é essa. As coisas tinham melhorado no fim do ano passado, mas é claro que esperávamos uma nova onda. Só que não pensamos que seria pior do que a primeira. Eu esperava que, a essa altura, nós já estivéssemos mais preparados, e não estamos. É muito angustiante porque já morreu muita gente.

As cenas dramáticas também continuam. Eu tive que emprestar o meu celular —porque é sempre assim, se esperarmos o celular do hospital, não dá tempo— para uma mulher de 30 anos, grávida de 29 semanas, se despedir da filha mais velha, de 6 anos, antes de ser intubada. O parto foi feito, a bebê passa bem. Mas ela mesma está em estado grave.

É o tipo de coisa que vai nos esgotando. Além disso, na minha vida pessoal, esse ano de pandemia cobrou um preço alto. Acabei me separando do meu marido, pois resolvi me isolar para evitar que ele e meu filho, de 4 anos, se contaminassem. Nosso relacionamento não suportou essa pressão.

Me mantenho isolada e hoje meu filho mora com meu ex-marido. Ele não entende bem a situação, começou a sentir angústia de separação, tinha medo que eu não voltasse do trabalho. Acabamos, eu e ele, indo para a terapia.

taiane, médica interior de SP - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Hoje, tento relaxar após os plantões me jogando no sofá e vendo novela. Ou dormindo agarrada ao meu filho, quando posso, durante as folgas. Não saio, não vou ao bar com os amigos. Meu rolê da semana é ir ao mercado.

E, como se não bastasse viver tudo isso, perder pacientes queridos e enxergar tanta gente doente, ainda temos que lidar com esse pessoal negacionista, que ainda duvida se o que estamos vivendo é verdadeiro, da gravidade da situação. É um grande desrespeito.

Eu me sinto meio que como aquela turma do desenho 'Caverna do Dragão', sabe? Quando os meninos estão quase voltando para casa e vem o Mestre dos Magos para estragar tudo? Eu não tenho ideia de como ou quando vamos voltar a viver normalmente."

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