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Fica mal vendo BBB? Reality pode provocar gatilhos e causar ansiedade

Reprodução/Globoplay
Imagem: Reprodução/Globoplay

Priscila Carvalho

Colaboração para o VivaBem

05/02/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Cenas de violência e com um teor emocional exacerbado mexem com o público, provocando sensações de desconforto
  • O contato frequente com imagens que geram comoção pode provocar sintomas como tristeza, ansiedade e até depressão
  • Se a pessoa está sofrendo com esses exemplos, não é recomendável que ela continue assistindo ao programa ou a conteúdos relacionados a ele

Em menos de um mês no ar, o BBB 21 já está causando muita polêmica do lado de fora. Brigas constantes, xingamentos e até abusos psicológicos têm gerado repulsa, ansiedade e tristeza em quem acompanha o reality. Nas redes sociais, o assunto não para de ser comentado e segue com o debate de que cancelamento e bullying não são entretenimento.

De fato, cenas de violência e com um teor emocional exacerbado mexem com o público, provocando sensações de desconforto. Se a pessoa sofreu um estupro ou racismo, por exemplo, provavelmente ao ver uma situação semelhante em alguma produção, mesmo que fictícia, terá lembranças ruins. Esse é o tal do gatilho: uma série de emoções e comportamentos que podem ser desencadeados diante de situações ruins e até boas.

O contato frequente com imagens que geram comoção pode provocar sintomas como tristeza, ansiedade e até depressão. Pessoas que já sofrem com algum transtorno mental estão mais suscetíveis à piora dos sintomas, principalmente quando o paciente não faz um tratamento correto ou não tem um acompanhamento frequente.

"Um indivíduo que está em tratamento dificilmente vai desencadear uma situação de estresse. Porém, se ela sofre com depressão, por exemplo, e para de fazer psicoterapia, está bem mais vulnerável", explica Maria da Conceição Costa, psicoterapeuta e doutoranda em psicologia clínica pela Unicap (Universidade Católica de Pernambuco).

O racismo e gatilhos em pessoas negras

A atitude de isolar o participante Lucas Penteado depois de um erro foi muito criticada por quem acompanha o programa, principalmente nas redes sociais, mas, para a psicoterapeuta, mais grave foi a conduta inexistente do programa sobre o fato. "Tanto Karol Conká quanto Lucas Penteado são vítimas disso. Mas se fosse uma moça branca, o programa já teria feito uma intervenção diante dessas atitudes. Para eles, é mais importante ver o circo pegar fogo do que realmente tomar alguma atitude", afirma Costa, que também é coordenadora e pesquisadora da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es).

Para ela, o formato do reality é perigoso para quem está confinado e para quem assiste. "Estamos vindo de uma pandemia, onde as pessoas estão mais reclusas e ainda são colocadas dentro de um confinamento. Ninguém em aprisionamento se mostra em uma situação normal", diz. Segundo ela, a presença de um profissional no confinamento para dar assistência é o mínimo.

Ainda de acordo com a psicoterapeuta, situações como as vividas por Lucas dentro da casa só acentuam gatilhos nos adultos negros que já foram excluídos ou ridicularizados pelo cor da pele, formato do cabelo e nariz na infância.

João Pedro Santos da Silva, psicólogo e mestre em Healthcare Management pela Must University (EUA), também reforça que atitudes assim podem promover problemas e traumas maiores em indivíduos negros que acompanham o programa. "Muitas pessoas, ainda que tenham suporte emocional e da militância, podem sofrer muito diante dessas situações".

Além disso, ele reforça que o racismo é estrutural e acaba sendo forte e naturalizado pelas próprias pessoas negras dentro do programa.

BBB - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Programa funcionou como gatilho para algumas pessoas
Imagem: Reprodução/TV Globo

Nem todo gatilho é ruim, mas se for, é melhor parar de assistir

Natalia Pavani, psicóloga do hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que nem tudo pode provocar gatilhos emocionais ruins. Atos de injustiça, como ocorreram dentro do programa, podem mobilizar e criar empatia em relação ao outro. "Quando vemos uma ação ruim com alguém, sentimos na nossa própria pele. Se colocar no lugar do outro faz bem. É muito importante para o nosso desenvolvimento e crescimento pessoal", afirma.

De acordo com Pavani, embora as cenas de abuso dentro do BBB aumentem o risco de desenvolver problemas de saúde, discutir e refletir sobre práticas de bullying e outras temáticas pode ser válido. "Se o paciente estiver estável ou se recuperando, falar abertamente sobre o assunto é algo benéfico. Mas, antes de tudo, é superimportante conversar com o psicoterapeuta, que vai avaliar a intensidade do sofrimento daquela pessoa."

Se a pessoa está sofrendo com esses exemplos, não é recomendável que ela continue assistindo ao programa ou a conteúdos relacionados a ele. "Provavelmente aquelas imagens vão continuar na cabeça dela e o incômodo também. Por isso é importante buscar um suporte por meio de amigos, leitura e, se achar necessário, ajuda de um profissional de saúde mental para orientá-lo no melhor tratamento", reforça Silva.

Também é fundamental focar na mudança de hábitos. Se consumir esse tipo de conteúdo era algo frequente na sua rotina, tente encaixar e implementar coisas novas nos mesmos horários em que assistia ou que se informava sobre a atração.

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