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Aos 11, ele descobriu leucemia, achou que morreria, e fez dois transplantes

Gabriel Knabe, em 2016, ao lado da mãe (à esquerda) e da médica  - Arquivo pessoal
Gabriel Knabe, em 2016, ao lado da mãe (à esquerda) e da médica Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

27/12/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Gabriel Knabe, aos 11 anos, teve diagnóstico de LMC (leucemia mieloide crônica)
  • Três meses depois, o quadro evoluiu para outro tipo de leucemia, a LLA (leucemia linfoide aguda)
  • Com quadro considerado raro, Gabriel passou por dois transplantes de medula óssea
  • Doença do adolescente está em remissão, ou seja, sob controle, desde 2018

O aniversário de 11 anos de Gabriel Knabe, hoje com 17, ficou marcado na vida dele. Isso porque, no dia da comemoração, ele apresentou sinais de que não estava bem. O garoto, sempre saudável e animado, estava se sentindo o oposto disso: não conseguia sair da cama para brincar com os amigos que se divertiam na piscina.

A mãe dele, Marcia Knabe, que é médica, notou que algo estava estranho. "Uns dias antes, ele já se sentia cansado, tinha falta de apetite e começou a emagrecer", conta. No dia seguinte do aniversário de 11 anos, eles foram ao hospital, onde Gabriel fez um exame de sangue que apresentou o nível de plaquetas alterado.

A mãe de Gabriel contatou um amigo da área de hematologia —área médica que estuda os componentes do sangue— que analisou os resultados e pediu mais exames. Dois dias depois, já era possível fechar o diagnóstico do pré-adolescente: leucemia mieloide crônica, também conhecida pela sigla LMC. A doença ocorre quando a medula óssea produz células sanguíneas em excesso e, diferente do que ocorreu com Gabriel, é mais comum em adultos.

"Quando descobri a doença, não tinha noção do que era e nem da gravidade. Contava como se fosse qualquer brincadeira. Quando fui entendendo melhor o tratamento, vi que era sério e que não iria me recuperar tão rápido", diz Gabriel.

Quando ocorre o diagnóstico de LMC, o tratamento é feito com uso de medicamentos via oral, mas no caso de Gabriel, o resultado não foi o esperado. Três meses depois, antes de realizar uma biópsia da medula óssea, o adolescente passou mal e precisou fazer mais exames de sangue, que mostraram que os medicamentos não estavam funcionando.

Foi aí que a doença se agravou e evoluiu para outro tipo de leucemia, a LLA (leucemia linfoide aguda), mais comum em crianças. Nesta situação do Gabriel, considerada rara, o tratamento é feito por meio de transplante da medula óssea.

"Acreditava que iria morrer"

Para receber o transplante, o paciente precisa fazer um tratamento que ataca as células doentes e destrói a própria medula. Esse período antes do procedimento, inclusive, é considerado delicado, pois a pessoa fica com a imunidade muito baixa. Mas é só depois disso que ela pode receber a medula sadia.

gabriel knabe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabriel ficou muito debilitado antes dos transplantes
Imagem: Arquivo pessoal

Após seis meses fazendo quimioterapia, com o objetivo de "limpar" a doença da região, os médicos decidiram fazer o transplante —mesmo sem alcançar 100% do resultado desejado. "A Adriana [médica] falou que o Gabriel iria morrer por conta da quimioterapia e não pela leucemia. Decidimos transplantar e acreditar que iria dar certo", relembra Marcia.

O filho mais velho da família, Matheus, era 100% compatível como doador de medula e, assim, o procedimento foi feito. Antes do transplante, Gabriel já estava debilitado, mas mesmo assim quis ir à escola ver os amigos: "Passei a manhã com eles, de máscara, careca, debilitado, mas fiquei lá. Não sabia se ia voltar à escola um dia. Acreditava que iria morrer", diz.

Três meses depois do transplante, a doença voltou. E a decisão dos médicos era tentar um outro doador de medula. Mas até conseguirem encontrar, Gabriel passou por sessões mais fortes de radioterapia e quimioterapia e tentou uma nova medicação que não existia no Brasil. Essa fase durou cerca de um ano. Em 2016, os médicos encontraram um novo doador, que não era 100% compatível, mas 90%.

gabriel e a mãe, marcia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabriel ao lado da mãe, Marcia Knabe
Imagem: Arquivo pessoal

Segundo a mãe do garoto, o resultado foi melhor do que o esperado e Gabriel se recuperou rapidamente. "O pós-transplante não é fácil. Leva um tempo para se recuperar. Até hoje, o Gabriel tem várias sequelas, como a doença do enxerto [contra hospedeiro] no pulmão, pele e olhos. Também toma remédios e está sempre lutando. O transplante foi apenas uma parte do tratamento mas, sem ele, o Gabriel não estaria aqui", conta.

Além dos remédios, o adolescente também faz exames a cada 90 dias em São Paulo —a família é de Extrema (MG)— para fazer uma avaliação da medula óssea. Desde 2018, a leucemia está em remissão, ou seja, sob controle.

"Imagina conhecer a pessoa que salvou sua vida?"

Gabriel conta que sempre quis conhecer a pessoa que salvou sua vida, seu doador de medula óssea. Após três anos —tempo determinado pelo Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea)— o encontro finalmente ocorreu. Em outubro de 2019, Gabriel chegou da escola e encontrou o doador, também Gabriel: "Foi muita emoção, não dá nem para descrever. Imagina conhecer a pessoa que salvou sua vida?"

O adolescente conta que os dois se falam até hoje e trocam mensagens. "Não poderia ter sido uma pessoa melhor, até nosso nome é igual. Ele também come besteira como eu e é baixinho. Somos muito parecidos", fala Gabriel.

gabriel knabe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gabriel ao lado do doador, também chamado Gabriel
Imagem: Arquivo pessoal

Hoje, Gabriel conta que segue todo o tratamento e, mesmo com a pandemia de covid-19, tenta fazer suas atividades sempre com cuidado. Ano passado voltou para a escola de forma presencial —o adolescente nunca perdeu um ano do colégio, pois continuava estudando. "Pensava assim: 'a doença já tirou meu cabelo, meu convívio, tudo, e ia tirar meus amigos também? Não podia deixar", relembra.

Ano que vem, Gabriel começa o terceiro ano do ensino médio e já sabe o que vai escolher na hora de prestar o vestibular: "Medicina, né?"

O que é LMC (leucemia mieloide crônica)?

Mais comum em adultos, a LMC (leucemia mieloide crônica) ocorre quando os leucócitos, ou seja, os glóbulos brancos, aparecem em uma quantidade excessiva no exame de sangue.

Na maioria dos casos, não há sintomas. "Muitas vezes, esse diagnóstico é feito por acaso. A pessoa não sente nada e quando faz o exame de sangue de rotina descobre que está com leucemia", explica Adriana Seber, hematologista do Hospital Samaritano Higienópolis (SP), membro da diretoria da SBTMO (Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea) e da AMEO (Associação de Medula Óssea do Estado de São Paulo).

A especialista conta que, em alguns casos, pode surgir um desconforto na região da barriga, pois na LMC, o fígado e o baço ficam maiores. Já o tratamento da doença é feito com medicamento via oral, que consegue curar o paciente ou deixá-lo, pelo menos, com a doença controlada.

Em algumas situações, a leucemia mieloide crônica pode progredir para a leucemia linfoide aguda —caso de Gabriel Knabe, que é considerado raro.

E o que é LLA (leucemia linfoide aguda)?

A leucemia linfoide aguda ocorre quando "as células da leucemia ocupam a medula óssea e impedem a produção normal do sangue", explica a hematologista. Esse tipo pode afetar qualquer faixa etária, mas é mais comum na infância. Neste caso, as crianças desenvolvem anemia, já que os neutrófilos (células de defesa) e as plaquetas (responsáveis por coagular o sangue) ficam com níveis muito baixos.

Os principais sintomas incluem febre e sangramentos pelo corpo, como nariz, gengiva, pelas fezes ou vômito. Além disso, podem aparecer manchas roxas pelo corpo e pintas vermelhas. "O mais comum nas crianças é aparecer mancha roxa em um local que ela não bateu. É sinal de alarme que indica que pode ter leucemia linfoide aguda", afirma Adriana Seber.

O tratamento é feito por meio de quimioterapia pela veia. Mas quando a LMC progride para LLA, é necessário o transplante de medula óssea —como ocorreu com Gabriel, quimioterapia e radioterapia e, em seguida, o procedimento.

Em ambos os tipos de leucemia, o diagnóstico é feito com exames simples de sangue, como o hemograma, ou com exames genéticos focados na leucemia. As causas também são desconhecidas, mas no caso da LMC, alguns fatores ambientais, como exposição a derivado de petróleo e inseticidas, podem contribuir.

Estatística sobre a leucemia

De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), a estimativa de novos casos de leucemia em 2010 é de 10.810 (sendo 5.920 homens e 4.890 mulheres). O número de mortos, segundo o Atlas de Mortalidade por Câncer de 2018, foi de 7.218 (sendo 3.902 homens e 3.316 mulheres).

A leucemia é uma doença maligna dos glóbulos brancos e, geralmente, de origem desconhecida. Tem como principal característica o acúmulo de células doentes na medula óssea, que substituem as células sanguíneas normais.

Existem mais de 12 tipos de leucemia, sendo que os quatro primários são LMA (leucemia mieloide aguda), LMC (leucemia mieloide crônica), LLA (leucemia linfocítica aguda) e CLL (leucemia linfocítica crônica).

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