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Sem desculpa para ficar parado: o que as melhores cidades para idosos têm

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Imagem: iStock

Felipe de Souza

Colaboração para VivaBem, em Campinas (SP)

04/12/2020 04h00

Quem disse que ser 'velho' significa ter que ficar parado em casa, sem fazer nada? VivaBem vai contar três histórias de idosos que sacudiram a poeira e mostram que é possível, sim, fazer atividades e distrair a mente para ter uma qualidade de vida melhor.

São três histórias de pessoas acima de 70 anos que utilizam espaços públicos oferecidos pelas três melhores cidades do país para que idosos possam viver, segundo levantamento feito pelo Instituto de Longevidade Mongeral Aegon.

Filho criado, dúvida no ar: e aí?

Marirosa - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Quando Marirosa Savaris, hoje com 73 anos, terminou de criar o filho adotivo para o mundo, há 15, algo passou pela cabeça: o que fazer a partir de então? Moradora de Porto Alegre (RS), ela não queria ficar parada de jeito algum. Sempre muito ativa, procurou até encontrar um espaço que, tempos mais tarde, se mostraria o futuro de uma geração: um centro de convivência de idosos, na capital gaúcha.

"Sentia que precisava me mover, precisava fazer alguma coisa. Não dá para velho ficar parado só", brincou, em uma conversa descontraída durante uma das atividades —feitas com isolamento social, claro, por causa da pandemia do coronavírus.

O que começou com uma roda de conversa foi ganhando mais importância na vida da dona Marirosa. Junto com a direção do FASC (Fundação de Assistência Social e Cidadania), administrado pela Prefeitura de Porto Alegre, várias oportunidades para idosos foram pensadas.

Hoje, ela faz, acredite, até levantamento de peso. "Me sinto ótima. É como se tivesse ganhado uma nova vida hoje. Depois de tudo que já fiz, ainda me sentir útil na terceira idade é uma gratificação, quase como um presente", aponta.

Além do peso, ela também joga vôlei adaptado, chamado lá de Câmbio (a modalidade não envolve impactos, apenas jogar a bola e tomar cuidado para não deixá-la cair). São pelo menos 20 medalhas conquistadas até agora em competições para idosos. "Só não trouxe o resto porque não ia conseguir carregar", diverte-se.

Mas não é só. Ela também é uma das 'cabeças' do projeto "Vamos Fazer Amigos", também oferecido nos programas de inclusão dos idosos. Toda semana, o grupo se senta para conversar —seja para jogar papo para o ar ou então falar sobre as dificuldades da vida.

"Tem um caso muito emblemático para mim, de uma senhora que não falava, vivia triste pelos cantos. Começamos a conversar e hoje ela parece que renasceu. Sorri, se mostra disposta com a vida. Acho que essa é a maior recompensa que podemos ter", finaliza.

O surfe como resiliência

Edmea - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Edmea é a do centro
Imagem: Arquivo pessoal

Edmea Pereira Correa, 73, nascida em Santos (SP), nunca teve a oportunidade de praticar esportes por causa da rotina corrida. Mas a vida acabou por trazer isso para ela de uma forma inesperada, há mais de 15 anos, e a resiliência falou mais alto.

"Meu filho ficou cego quando tinha 24 anos. Ele sempre gostou de surfe, então decidimos que esse sonho poderia ser realizado. Ao começar as aulas, vi que também podia. Tinha 58 anos. Resolvi, com meu esposo, arriscar", conta.

Edmea - Divulgação/Prefeitura de Santos - Divulgação/Prefeitura de Santos
Edmea (à esquerda) diz ter uma segunda família no surfe: "São mais que amigas"
Imagem: Divulgação/Prefeitura de Santos

E essa história valeu a pena. A família está inscrita em uma escolinha que é oferecida pela Prefeitura de Santos, gratuita, e, toda semana, estão pegando onda.

"Costumo dizer que temos duas famílias: a minha e a do surfe. Todos somos amigos, conversamos direto, nos encontramos fora do mar. É uma atividade que revigora a alma", derrete-se.

No período mais intenso da quarentena, quando as atividades externas foram proibidas pelo governo do estado, Edmar assumiu que se sentiu triste, e que algo estava faltando na vida dela. "Depois que as aulas puderam ser retomadas, me senti completa de novo", acrescenta.

Hoje, ela agradece ao filho pela oportunidade que teve de realizar uma vontade que também tinha. "Sabe o que descobri? Que nas minhas veias corre água salgada, e não sangue!", brinca.

"É uma dádiva poder fazer atividades com essa idade"

Elizeu - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Aos 87 anos, Elizeu Barroso, morador de São Caetano do Sul (SP), decidiu que precisava tirar um tempo para si. Depois de ter criado os dois filhos (que lhe deram quatro netos), o empresário, que trabalhou muito, enfrentou altos e baixos, precisava de um 'respiro'.

E encontrou em um centro para terceira idade, espaço oferecido pela prefeitura da cidade paulista gratuitamente, uma nova forma de viver —em paz.

"A gente faz de tudo aqui. A minha ginástica é garantida sempre. Tem jogo de xadrez, damas, bocha, atendimento médico. É uma retaguarda completa", conta.

O atendimento médico, aliás, ele 'dispensa'. "Graças a Deus minha saúde é de ferro. Fui privilegiado, nunca tive nenhum problema", brinca.

A pandemia reduziu um pouco os encontros, que já voltaram a acontecer. "Fiquei muito chateado, mas claro que cumpri o isolamento social. Não quero ficar doente. E poder reencontrar pessoas que gosto foi indescritível", afirma.

O que essas histórias têm em comum?

Todas as pessoas que mostramos na reportagem moram em cidades que estão no top 3 do ranking dos melhores municípios para idosos viverem no país.

O levantamento foi feito pelo Instituto de Longevidade Mongeral Aegon, da FGV (Fundação Getúlio Vargas). O Índice de Desenvolvimento Urbano para Longevidade deste ano aponta que as três melhores cidades para os idosos são:

1º São Caetano do Sul (SP)
2º Santos (SP)
3º Porto Alegre (RS)

São avaliados vários indicadores, como "cuidados de saúde"; "bem-estar"; "finanças"; "habitação"; "educação e trabalho"; "cultura e engajamento" e "indicadores gerais".

É importante ressaltar que, em todas as cidades citadas nesta reportagem, as atividades são gratuitas, necessitando apenas um cadastro e a comprovação de que o idoso mora no município.

Em detalhes: São Caetano do Sul

São Caetano - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Atividade de hidroginástica para a terceira idade na cidade de São Caetano do Sul (SP)
Imagem: Arquivo pessoal

São Caetano do Sul, estreante no conjunto de cidades participantes do IDL em 2020, foi apontada como a cidade que melhor desempenhou na estrutura geral do índice. Em essência, esse resultado deveu-se à liderança em bem-estar (está entre as 10 cidades grandes de menor frequência de suicídios) e ao desempenho superior em finanças e em habitação, que colocam São Caetano do Sul entre as 5 cidades melhores nessas duas variáveis.

Em São Caetano do Sul, o estudo aponta que a cidade é líder em bem-estar (nota 100 de 100). A participação dos habitantes de São Caetano do Sul em planos de saúde privados contribui para que a cidade fique entre as cinco melhores.

A cidade lidera ainda alguns dos indicadores de finanças: maior quantidade de estabelecimentos bancários, menor parcela da população classificada como baixa renda e segundo melhor nível de desenvolvimento social dos municípios.

O município oferece cinco CISEs (Centros Integrados de Saúde e Educação), que disponibilizam atividades físicas, cursos, aulas de idiomas e informática, oficinas e atendimento na área de saúde, além de locais para prática de esportes e de interação social.

Há, ainda, a UniMais (Universidade Aberta da Terceira Idade), totalmente gratuita, que oferece aprendizado e formação nas áreas mais procuradas pelos idosos, e o programa Agente Cidadão Sênior, que oferece oportunidade aos maiores de 65 anos de voltarem a ter trabalho e renda. Os selecionados atuam em unidades da municipalidade, como escolas e hospitais.

Em detalhes: Santos

Santos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Aula de surfe para a terceira idade na cidade de Santos (SP)
Imagem: Arquivo pessoal

A segunda colocada, Santos, está, de acordo com o estudo, entre as cinco cidades de melhor desempenho em cultura e engajamento, por causa da elevada participação da população com acesso a TV a cabo e elevada conectividade a internet por habitante, sem, contudo, refletir no número de casamentos envolvendo idosos.

A classificação de Santos entre as três cidades de melhor desempenho em habitação é decorrente especialmente da liderança no número de idosos em relação à população da cidade e do bom número de instituições de longa permanência para idosos. Mas, mesmo alcançando o desempenho de destaque em bem-estar, cabe realçar as relativamente elevadas frequências de suicídios (está entre as 50 de maior taxa) e de mortes por cirrose hepática.

A Escola de Surfe Sênior (do projeto 50+, que Edmar participa) já tem quase 30 anos de existência, atendendo cerca de 30 mil alunos. A cidade também oferece a Vila Criativa, com 20 modalidades entre cursos de tecnologia, educação, saúde e atividades, como dança de salão, sapateado sênior, dança flamenca, pilates e alongamento. Dentro da Vila foi instalada e reinaugurada a Rádio Web 60.0, em setembro do ano passado, com conteúdo exclusivamente voltado para a pessoa idosa.

O serviço de saúde é ampliado com a teleassistência, pelo programa Televida. O idoso com indicação para entrar no programa recebe um aparelho e uma pulseira com botão de emergência. Quando acionado, a equipe da central entra em contato com o paciente pelo aparelho. Se não houver resposta, é acionado familiar responsável e/ou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), de acordo com a gravidade. São 260 idosos que moram sozinhos atendidos hoje pelo programa.

Em detalhes: Porto Alegre

A cidade se destaca por estar entre as 10 cidades detentoras de maior quantidade relativa de condomínios residenciais dedicados a idosos e também de instituições de longa permanência. Porto Alegre tem a quinta maior rede bancária (em relação a população), além de ter uma população de idosos numerosa e caracterizada por níveis elevados de renda.

Na capital gaúcha, são 17 unidades de esporte que oferecem atendimento especializado para a terceira idade. Aproximadamente 2.000 pessoas são atendidas. A UDI (Unidade de Direitos do Idoso) também faz um programa "Se vira nos 60", em que é realizado um encontro de gerações aproximando jovens e idosos por meio da cultura e sempre há uma palestra sobre segurança e saúde do idoso.

Para aqueles que têm alto grau de dependência, a FASC firmou uma parceria para criar 50 vagas de atendimento exclusivo, e criou a República dos Idosos, serviço que atende 20 idosos com 60 anos ou mais que possuam renda (benefício ou aposentadoria), mas que se encontram em situação de vulnerabilidade social, com vínculos familiares rompidos ou fragilizados, e com histórico de situação de rua.

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