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Casa de repouso no RS usa capoterapia para fazer idosos se movimentarem

Luciano Nagel

Colaboração para VivaBem, em Porto Alegre

27/11/2020 04h00

Foi na cidade de São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre, que os capoeiristas Cleverson Silva da Rosa, 43, e Michele Correa Rodrigues, 37, resolveram dar o pontapé inicial em um projeto pioneiro na região Sul do Brasil: a inclusão da capoterapia dentro de casas de repouso.

Esta atividade, ainda em expansão no Brasil, foi criada em 1998 pelo capoeirista brasiliense mestre Gilvan Alves de Andrade e tem como objetivo combater ou diminuir a depressão e estimular a autoestima, em especial nos idosos.

''Diante da pandemia de coronavírus, eu e minha esposa buscamos esta formação para professores em capoterapia. O curso foi administrado online pelo mestre Gilvan Alves de Andrade, lá de Brasília. Foram 3 meses de atividades em que obtivemos o nosso registro profissional emitido pelo Instituto Brasileiro de Capoterapia'', explicou Cleverson, que pratica capoeira há mais de 20 anos.

Aulas com berimbau e agogô

As sessões ocorrem sempre nas manhãs de sábado na instituição Nosso Lar, no bairro Feitoria, em São Leopoldo, onde o projeto teve início no mês de setembro.

Cerca de 20 idosos que vivem no local, muitos deles cadeirantes ou portadores de necessidades especiais, participam das classes compostas por exercícios físicos, ritmos com instrumentos musicais como berimbau, pandeiro, atabaque, agogô, entre outras atividades lúdicas. As aulas duram 45 minutos.

''Há alguns meses, os professores de capoterapia estiveram aqui no asilo e apresentaram a sua proposta. Achei muito interessante. Realmente não conheço outros abrigos aqui na região, ou até mesmo no estado que oferecem esse tipo de terapia com os idosos. Esse projeto tem apresentado ótimo resultado'', conta Eduardo Martins, proprietário da casa de repouso.

Benefícios já são sentidos

Entre os efeitos surgidos, a professora Michele lembra de um comentário, feito recentemente por sua aluna, uma senhora de 76 anos. ''Ela me chamou depois da classe de capoterapia e me disse que tinha algo muito bom para contar. Ela disse que desde que começou a praticar as sessões de capoterapia, seu intestino começou a voltar a funcionar, e ela passou a ir com mais frequência ao banheiro para fazer suas necessidades fisiológicas'', comentou, orgulhosa com o resultado de seu trabalho.

Aula de capoterapia em casa de repouso no RS - Luciano Nagel/UOL - Luciano Nagel/UOL
Neuza junto com o professor Cleverson
Imagem: Luciano Nagel/UOL

Neuza Maria Fernandes, 76, a aluna a que a professora se refere, foi uma das primeiras a integrar o grupo. Mãe de três filhos, avó oito netos, deficiente visual e viúva, ela vive no abrigo e há alguns meses vinha reclamando com frequência de prisão de ventre.

"Estava acostumada a tomar laxantes para poder ir ao banheiro e, desde que comecei a fazer os exercícios, participar das aulas, meu intestino deu uma melhorada e até contei para a professora'', conta.

Empolgada com as classes de capoterapia, a idosa Valéria Cará, 84, é uma das mais ativas no grupo. Mesmo dependente da cadeira de rodas, ela demonstra a todos que não há empecilhos para se divertir e se exercitar.

''Estou gostando muito de fazer os exercícios. Também é divertido, pois os professores são bem legais e nos motivam'', afirma a idosa. Valéria conta que há cerca de um ano teve que amputar as duas pernas devido à má circulação das artérias, no entanto lembrou que não há motivos para não ser feliz.

Aula de capoterapia em casa de repouso no RS - Luciano Nagel/UOL - Luciano Nagel/UOL
Valéria e Tania (à direita) durante a aula de capoterapia
Imagem: Luciano Nagel/UOL

''Agora sou outra pessoa. Antes, sentia muitas dores nas pernas, não aguentava. Hoje me distraio com os exercícios da capoterapia e com a disputa de jogo de dominó'', disse. Neuza e um grupinho de amigas da casa de repouso jogam dominó todas as manhãs após o café.

Fã de jogos de tabuleiro e praticante assídua de capoterapia, Tania Maria Goncalves de Mello, 66, revelou que por meio dos exercícios físicos aos poucos vem se recuperando das sequelas de um AVC ocorrido em 13 de janeiro do ano passado.

Devido a isquemia, a idosa ficou com uma das pernas e os braços parcialmente paralisados, o que dificulta a locomoção e movimentos. ''Comecei a capoterapia há um mês. Tenho me movimentado como posso e vejo melhorias'', admite.

Atividade só faz bem aos idosos

Na avaliação de Sônia Beatriz da Silva Gomes, profissional de educação física e doutora em gerontologia biomédica da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), toda prática de atividade física é benéfica cognitivamente, fisicamente e psicologicamente na vida de um idoso.

''A capoterapia traz muitos benefícios à saúde, desde a melhora da condição cardiorrespiratória, por meio da dança, da movimentação que se faz na capoeira, quanto das aptidões anaeróbicas de força, habilidade e coordenação motora. Em relação aos processos cognitivos, a prática de bater palmas e dançar, por exemplo, auxilia na melhora da memória e atenção'', explica Gomes.

Ela lembra que todas essas atividades desenvolvidas dentro do abrigo Nosso Lar, como o simples ato de rir, brincar e interagir com os idosos, liberam a endorfina —uma substância natural produzida pelo cérebro e que estimula a sensação de bem-estar, conforto, melhorando o estado de humor e a alegria.

''Num momento de pandemia e distanciamento social, isso só faz bem, inclusive para os idosos'', finaliza.

Existe um projeto de lei (PL165/2018) que tramita no Senado para incluir a capoterapia no rol de terapias oferecidas pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

A autoria é do ex-senador Hélio José (PROS-DF). O texto aguarda parecer do relator Styvenson Valentim (Podemos-RN), ainda sem data definida, conforme verificado no site oficial do Senado.

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