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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Práticas espirituais também podem fazer mal; saiba como identificar

Espiritualidade faz mal quando é usada para a fuga, supressão, repressão de emoções desconfortáveis e feridas psicológicas mal resolvidas - iStock
Espiritualidade faz mal quando é usada para a fuga, supressão, repressão de emoções desconfortáveis e feridas psicológicas mal resolvidas Imagem: iStock

Patrícia Beloni

Colaboração para o VivaBem

12/11/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Práticas espirituais têm diversos benefícios à saúde física e mental, entretanto, se praticadas de forma inadequada, podem fazer mal
  • Spiritual bypassing é um dos efeitos negativos que podem surgir de terapias alternativas em excesso ou como substitutas da psicoterapia
  • Religiões, orações e atos de gratidão podem ser considerados como práticas espirituais, porque têm o objetivo de conexão do ser interior com o divino
  • Astrologia, numerologia, tarô, por exemplo, não são práticas, e sim ferramentas de autoconhecimento que podem ou não fazer parte de terapias

Meditação, ioga, massagens terapêuticas, reiki, thetahealing e outras terapias corporais são exemplos de práticas espirituais que prometem auxiliar processos de curas emocionais, "despertar" e expandir a consciência. Mas ainda que com muitos benefícios, se praticadas de forma inadequada ou em excesso, podem trazer malefícios.

Isso porque elas podem mascarar problemas ou questões emocionais e levar ao chamado spiritual bypassing (desvio espiritual). O conceito foi introduzido na década de 1980 pelo psicólogo norte-americano John Welwood, para definir o uso de práticas espirituais para fuga, supressão e repressão de emoções desconfortáveis e feridas psicológicas mal resolvidas.

Segundo o psicólogo, acupunturista e homeopata Roberto Debski, do Hospital Guilherme Álvaro, em Santos (SP), spiritual bypassing é quando a busca de elevação espiritual pula as diversas etapas essenciais do processo espiritual, que compreendem em acolher tudo o que existe dentro de si, sejam virtudes sejam defeitos.

"O universo e tudo o que existe segue a lei da polaridade: sempre há dois lados opostos e complementares em toda a criação. Então, para se elevar espiritualmente, primeiro se deve acolher o lado luz ou superior, e também o sombra ou inferior, as características boas e altruístas, assim como as negativas e as egoístas", explica Debski.

Só depois de dar lugar a todas essas características, sem excluir nenhuma, é que é possível "transcender", transformar, mudar o que é conhecido em si mesmo. "Pular etapas nunca foi uma maneira de conquistar os objetivos em nenhuma área do conhecimento, e também não será na busca da espiritualidade".

meditação, ioga, bem-estar - iStock - iStock
Práticas podem causar sofrimento quando, por exemplo, fazem a pessoa se esforçar para ser um modelo de paciência e generosidade
Imagem: iStock

O que são práticas espirituais

De acordo com a psicóloga e astróloga Prem Devaki, as práticas espirituais "pressupõem uma conexão com aquilo que temos de mais real, de essência dentro de nós, com o divino, seja qual fora a crença". Elas ajudam a resgatar esse contato, a acolher e compreender quem somos de verdade. Além das terapias espirituais, também chamadas de alternativas e corporais, a própria oração, o tantra, outros rituais e as religiões também podem ser considerados práticas espirituais. Isso porque "pleiteiam um papel como intermediárias entre o humano e a divindade".

Para a psicóloga Flávia Lourenço, da cliníca Consulta Aqui, do grupo Hospital Albert Sabin (SP), até atos como parar em algum momento do dia para agradecer, construir vínculos com pessoas que frequentam ou praticam as mesmas atividades podem ser considerados práticas espirituais que podem estar relacionados com a cultura e crenças populares.

De acordo com o panorama das pesquisas em ciência, saúde e espiritualidade, publicado na jornal científico da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e com a revisão de literatura publicada na revista científica Clinical Psychiatry, há evidências em diversos estudos de que as práticas espirituais trazem benefícios a saúde física e mental. As pesquisas mostram a redução nos indicadores de depressão, suicídio e dependência física e psicológica de drogas, além de uma tendência maior em se manter saudável com o tempo.

Portanto, "conectar-se com um plano maior, divino, praticar uma religião, viver a espiritualidade de modo saudável e não extremado tem se mostrado como um método efetivo para melhorar a qualidade de vida, a saúde mental e longevidade", aponta Debski.

Até a OMS (Organização Mundial da Saúde) colocou a espiritualidade como um dos seis domínios para a qualidade de vida, junto à saúde física, saúde mental, saúde ambiental, nível de independência e relacionamentos interpessoais, reforçando a importância de se viver a espiritualidade para a obtenção de saúde e qualidade de vida.

Segundo Devaki, as práticas espirituais também auxiliam no processo de aceitação da vida, das coisas da vida como elas são, do outro, de si mesmo, de forma a proporcionar relaxamento e tranquilidade. Ajudam a diminuir o estresse, a tensão e a ansiedade, trazendo sensação de leveza de quem vive no presente e enxerga a vida de forma simples, com clareza mental. Promovem uma conexão natural com o sentimento de gratidão, de graça pela vida, seguindo um movimento de perdão, se desprendendo do passado e parando de carregar rancores, mágoas e ressentimentos.

O problema é quando esses costumes se tornam exagerados e podem levar ao fanatismo e extremismo. "Podem levar a uma visão reducionista, à condenação da diversidade, ao desrespeito às pessoas e instituições e às próprias necessidades, a uma visão única e restrita em detrimento da grande diversidade de fenômenos da vida e de suas interações", diz Debski.

Inclusive, ferramentas de autoconhecimento como astrologia, tarô, numerologia não se enquadram como práticas espirituais em si, mas podem fazer parte desse processo de "escapismo", substituindo terapia e outros tratamentos. Essas práticas até ajudam a acalmar ou tranquilizar a curto prazo e fazer parte de um caminho de cura, mas também podem alienar em vez de conscientizar.

Elas podem levar a um caminho que faz a pessoa não se responsabilizar pelos seus atos, pelo que sente e pensa. A astrologia, por exemplo, "pode ser usada para justificar, como desculpa, e assim perpetua o sofrimento de outra forma", explica Prem Devaki. Ela pode ser usada para evitar sentir uma emoção ou "olhar" para um trauma. "Sempre que você nega uma emoção ou trauma, ele não deixa de existir. É uma força que continua lá e se não for tratada, vai continuar causando sofrimento", diz.

Mediunidade mulher rezando Alto Astral - Tinnakorn Jorruang/Getty Images/iStockphoto - Tinnakorn Jorruang/Getty Images/iStockphoto
Em exagero, pode levar a uma visão reducionista, a não aceitação da diversidade, ao desrespeito às pessoas e instituições
Imagem: Tinnakorn Jorruang/Getty Images/iStockphoto

Como identificar uso para fuga de emoções

O spiritual bypassing acontece quando o indivíduo não olha ou não acolhe todas as características da sua personalidade, ignorando, principalmente, as negativas e difíceis. Geralmente, isso é feito porque é difícil aceitar e enfrentá-las e pode ser feito até de forma inconsciente.

A pessoa pode até sabotar, de forma inconsciente, a área da vida que vai fazer ela entrar em contato com o sentimento rejeitado, seja nos relacionamentos, na vida financeira, profissional. Vai sentir frustração, as situações da vida vão ser sempre desafios e vistas com dificuldade. Esse é o sinal de que algo está sendo negado.

"Quando a pessoa se disponibiliza a sentir os sentimentos, como a dor, por exemplo, a vida abre", explica Prem Devaki. Mas se ela se nega, a vida fica bloqueada em diversas áreas. Isso porque sentimento é energia. "Quando há a negação, a energia fica presa —e como nossa vida é reflexo do nosso mundo interno, vai haver bloqueio no externo". Para identificar, existe alguns sinais:

  • Fanatismo;
  • Valorizar mais experiências espirituais do que reais;
  • Negação de dificuldades e defeitos;
  • Sempre colocar o outro em primeiro lugar;
  • Características positivas "falsas" (ser o que não é);
  • Enfatizar ou focar no positivo de forma excessiva;
  • Dificuldade em lidar com a diversidade;
  • Evitar entrar em contato com sentimentos (como a raiva, por exemplo);
  • Menosprezo do sofrimento pessoal ou coletivo;
  • Julgar os outros por sentires emoções negativas;
  • Reprimir memórias e experiências dolorosas;
  • Desapego exagerado;
  • Tolerância excessiva;
  • Dificuldade em aceitar desafios.

Por que faz mal

As práticas espirituais podem causar sofrimento quando, por exemplo, fazem a pessoa se esforçar para ser um modelo de paciência e generosidade, o que impede que ela consiga expressar sua raiva, tornando-a reprimida e podendo sofrer por conta desse comportamento. "Ou, então quando uma pessoa é sempre prestativa, mesmo quando não deseja ser, ou sempre positiva mesmo quando não se sente dessa maneira. Nesse caso, ela se anula se para ser aceita e amada por um grupo ou uma pessoa específica", explica Lourenço.

Além disso, vale ressaltar que tudo que é excessivo, inflexível pode trazer malefícios ao invés de benefícios. "A água é fundamental e mesmo imprescindível para a saúde e a vida, mas se ingerida em excesso pode causar hiponatremia, problemas neurológicos, metabólicos e até matar", exemplifica Debski.

Segundo o psicólogo, a prática espiritual exagerada, embora seja difícil de mensurar com precisão, pode, em vez de elevar, causar separações, conflitos, doenças e até mesmo a morte. Quando há "certeza" que a compreensão e expressão da espiritualidade do indivíduo é a única válida e verdadeira, "pode haver conflito nos relacionamentos, separação, falta de validação do outro e da diversidade, intolerância e até mesmo guerras e mortes, como fato conhecido em todas localidades e épocas na história da humanidade", revela ele.

Artigos religiosos como velas, imagens e terços são formas de levar a religião para qualquer lugar, ainda que longe do templo - Daniele Levis Pelusi/ Unsplash - Daniele Levis Pelusi/ Unsplash
Além das terapias espirituais, também chamadas de alternativas, a própria oração, outros rituais e religiões também podem ser considerados práticas espirituais
Imagem: Daniele Levis Pelusi/ Unsplash

E ainda que auxilie na mudança de comportamentos negativos e fornecer ferramentas para enfrentar as mais diversas da vida, como explica a psicóloga Lourenço, e, se praticada de forma saudável, possa ser altamente terapêutica, "ela não é uma forma clássica e validada de terapia como temos nas diversas abordagens psicológicas e psicoterapêuticas", explica Desbki. Ou seja, não deve ser usada como substituta. Outro malefício das práticas espirituais realizadas de forma inadequada ou em excesso, é o spiritual bypassing.

Como evitar

De acordo com Debski, é preciso trabalho e dedicação para mudar a si mesmo, sempre buscando enxergar as próprias dificuldades, sem negar e projetar os problemas nos outros. Por que, se não, "nunca conseguiremos superar nossas limitações e seremos sempre reféns de nós mesmos e da nossa "miopia espiritual". Daí a importância de usar as práticas espirituais como ferramentas para auxiliar a encarar, abraçar e acolher traumas e as características da própria personalidade.

Para isso, é importante entrar em contato com aquilo que se sente e pensa de verdade, entendendo que os sentimentos "ruins", como a dor, o sofrimento, a raiva e outros fazem parte da experiência humana. "Ciente disso, é possível desenvolver a capacidade de controlar e gerenciar os comportamentos e sentimentos cotidianos, melhorando a saúde mental e usando as práticas espirituais a favor desse processo", aconselha Lourenço. Para superar os traumas e sentimentos ruins, é essencial senti-los e assim, passar por eles, deixando-os ir embora.