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Na pandemia, redes sociais ajudaram a aumentar depressão e traumas em Wuhan

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Imagem: iStock

Frederico Cursino

Da Agência Einstein

08/10/2020 10h08

O uso excessivo das redes sociais durante a pandemia pode ter contribuído para que os habitantes da cidade chinesa Wuhan, primeiro epicentro da covid-19 no mundo, desenvolvessem depressão e traumas secundários da doença.

A constatação vem de um estudo desenvolvido pesquisadores das universidades Penn State, nos Estados Unidos, de Jinan, na China, publicado pelo jornal acadêmico Computers in Human Behavior.

O trabalho analisou 320 indivíduos, todos habitantes locais e sem histórico de transtornos depressivo ou traumático. Na primeira etapa —realizada em fevereiro, duas semanas após o fechamento da cidade por conta da epidemia—, os participantes responderam questionários online sobre o uso do WeChat, aplicativo de mídia social mais popular da China, para obtenção de informações da doença.

Em seguida, os pesquisadores utilizaram um método criado para medir a dependência do Facebook por meio da avaliação do uso do WeChat pelos voluntários. Com esses dados, a equipe analisou as mudanças de humor do grupo no período de uso da mídia social.

Mais da metade dos entrevistados relatou algum nível de depressão, com quase 20% deles em graus moderado ou grave. Entre aqueles que manifestaram trauma secundário, a maioria (80%) apresentou um nível baixo, enquanto 13% relataram trauma moderado e 7%, alto.

"Descobrimos que o uso da mídia social foi recompensador até certo ponto, pois fornecia suporte informativo, emocional e de colegas sobre assuntos de saúde relacionados à Covid-19", afirma Bu Zhong, professor associado de jornalismo da Penn State, e um dos autores do estudo. "No entanto, o uso excessivo da mídia social levou a problemas de saúde mental. Os resultados mostram que fazer uma pausa nas redes sociais pode promover o bem-estar durante a pandemia, crucial para mitigar os danos à saúde mental infligidos neste momento."

O estudo destaca que, embora as informações possam ajudar a diminuir o estresse em eventos como o da Covid-19, a busca deliberada por notícias também ampliaria a sensação de incerteza devido ao vasto número de informações disponíveis. Com isso, o indivíduo tende a se sentir perdido diante da enormidade de alternativas e boatos, muitas vezes, contraditórios entre si.

Os pesquisadores destacaram ainda que, no caso da China, a censura do governo aos canais de mídia tradicionais ampliou o uso das redes sociais na busca por notícias sobre a doença. Segundo os autores, embora essas mídias também sofram algum nível de controle pelo Estado, a censura não tem a mesma rapidez e abrangência do que nos canais oficiais.

Aumento do estresse entre adolescentes no Brasil

No Brasil, um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) mostrou que 68% dos adolescentes entre 12 e 18 anos tiveram aumento de ansiedade e irritabilidade desde o início da epidemia no Brasil.

Ao mesmo tempo, a exposição dos jovens às telas (TV, computadores, tablets, smartphones e jogos) também teve crescimento substancial. Antes da pandemia, 17% dos brasileiros dessa faixa etária utilizavam essas tecnologias por mais de seis horas diárias. Durante o isolamento social, o índice subiu para quase 60%.

De acordo com o urologista Daniel Suslik, um dos autores da pesquisa, o aumento da exposição dos jovens à internet está ligado a uma experiência essencial nessa faixa etária, mas da qual esse público acabou privado com o isolamento:

"A convivência em grupo é fundamental para que o adolescente adquira a própria identidade e sua posição dentro da sociedade. Mas o isolamento impediu a reunião de grupos. Ainda hoje, após sete meses, não temos a mesma sociabilidade do início do ano. Com isso, eles tentam encontrar a substituição na internet, fazendo com que passem grande parte do dia diante das telas. Isso certamente está relacionado ao quadro que detectamos de maior de ansiedade e mudanças de humor", explica Suslik.

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