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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Como você trata a si mesmo? Autoagressão é perigosa para saúde mental

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

28/09/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Tratar-se de maneira irônica ou agressiva pode ser considerado normal de vez em quando, mas pode esconder problemas que precisam ser trabalhados
  • Pessoas que se autoagridem ou se autopunem podem chegar a consequências graves como depressão e até suicídio
  • Desenvolver o autoamor é fundamental para uma saúde física e mental equilibrada. Isso incluiu o autocuidado e liberação do estresse

Estamos nos tratando mal. Com uma pressão cada vez maior para sermos cada vez melhores, produzirmos mais, entregarmos melhores resultados, além da relativização causada pelas redes sociais, em que comparamos nossa vida completa com um percentual feliz e cheio de sucesso dos outros, a cobrança e autocrítica interna está fazendo com que detratemos cada vez mais a nós mesmos.

Você já deve ter se pego dizendo ou pensado frases como "nossa como fui/sou burro (a)", "como sou feio (a)" ou ainda "não faço nada certo, sou um fracasso", etc. Quando ocorre de forma ocasional, pode refletir apenas a frustração de algo que deu errado em algum momento. Mas, quando isso passa a ser constante, pode ser um sinal de algo está errado com a saúde mental.

Segundo Henrique Bottura, psiquiatra e psicoterapeuta, diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista e colaborador do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso IPq do HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), o tempo todo temos diálogos internos: pensamos, planejamos, analisamos coisas erradas que fazemos, entre outras tantas possibilidades. Ter essas conversas de forma autoagressiva e autopunitiva é um mecanismo de funcionamento que pode estar presente em maior ou menor grau em todos nós.

Entretanto, o psiquiatra afirma que existem aqueles que exageram, sendo extremamente duros consigo mesmos, se tratando de forma negativa e autodestrutiva. "Esses diálogos internos nocivos podem refletir dificuldades quanto ao amor-próprio, o que chamamos de baixa autoestima", explica o médico. Pode também acontecer em que tem um nível de autoexigência exagerada ou ainda pode sugerir a presença de algum transtorno psiquiátrico como depressão, por exemplo.

Baixo autoconceito é frequente entre as pessoas. Para Eduardo Perin, psiquiatra pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), especialista em TCC (terapia cognitivo-comportamental) pelo Ambulatório de Ansiedade do IPq HC-FMUSP, uma das explicações para o comportamento autodepreciativo é evitar que outras pessoas o critiquem. "Outra explicação é realmente lembrar-se a todo momento o quanto se é fracassada (na visão dela), o que faz com que o autoconceito diminua ainda mais", analisa.

Funções cerebrais e emocionais podem interferir

Baixa autoestima estresse - iStock - iStock
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Deborah Moss, neuropsicóloga e mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP, afirma que funções cerebrais podem interferir. Existem pessoas, por exemplo, que têm mais dificuldade no autocontrole, que são funções neuropsicológicas. Muitas vezes a pessoa tem um comportamento impulsivo e acaba comprometendo a tomada de decisões, as resoluções de problemas nas situações no dia a dia ou no autocontrole nas questões que envolvem estresse.

"Essas funções estão muito relacionadas ao córtex pré-frontal, que fica na parte da testa e que envolve o planejamento de ações, do raciocínio e tomada de decisões. E isso tem muito a ver com o comportamento social, pois essa é a parte mais humana do cérebro e que nos diferencia dos animais", esclarece Moss. Ela explica que pessoas que agem dessa maneira podem ter um certo comprometimento nesse controle dos impulsos e dificuldade em lidar com situações de estresse, sem passar pela consciência a reação agressiva consigo mesmo.

Questões emocionais também são fatores que podem influenciar: tudo está ligado e não dá para separar uma coisa da outra. Tratar a si mesmo de uma forma negativa está associado a autoestima e pode estar relacionado a uma distorção de imagem, em que a pessoa idealiza algo que ela não é ou não pode ser, como atingir determinados padrões de beleza, por exemplo.

"Se você juntar questões neuropsicológicas com questões ambientais de exigência, de pressão e ainda questões emocionais, tudo isso vira uma 'bomba-relógio' e que pode lutar contra si mesmo, chegando até a casos mais extremos de automutilação e de suicídio", elucida Moss. Ela complementa que uma raiva contida que pessoa tenha, uma impotência, uma incapacidade elaboração e de uma interpretação podem levar alguém a agir impulsivamente e se autoagredir.

Interferência familiar e social

Fatores externos como família, sociedade e amigos podem interferir no comportamento de uma pessoa. A neuropsicóloga diz que temos de pensar que apesar da totalidade do ser humano, tem a troca com o ambiente em que vivemos, que pode favorecer ou pode inibir tendências de cada um. Então, sim, a opressão, as questões familiares e suas dinâmicas, as relações afetivas entre a vida da pessoa, tudo isso tem um papel muito importante na forma como ela vai agir, como vai responder àquilo que vai ser exigido dela, para o bem ou para o mal.

"Essa influência começa desde a infância. Os pais são os principais cuidadores e são os primeiros laços afetivos das crianças. Essa relação inicial terá impacto ao longo da vida e tem um papel muito importante, mas há outras influências no decorrer da vida que podem ser positivas ou negativas", complementa Moss.

Contudo, ela não acredita que exista uma relação causal direta: as pessoas têm toda a capacidade de mudança e de saírem destas situações ocorridas na infância. Assim, para Moss, claro que essa percepção sobre os pais tem uma importância, mas não é decisivo. Como a pessoa vai elaborar isso, como vai tentar mudar isso em sua vida e se apropriar da situação é que vai interferir no resultado de como ela lidará com ela mesma e com situações-problema.

Comportamentos não podem ser considerados normais

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Ser duro consigo mesmo em alguns momentos pode ser necessário, às vezes falhamos com algo que poderíamos ter sido melhores e podemos nos cobrar. No entanto, analisa Bottura, algumas pessoas são tão duras consigo mesma que não geram mobilização ou impulsionamento para uma processo de melhoria ou de desenvolvimento pessoal, pelo contrário, geram uma estagnação, paralisia, perda de capacidade de sentir amor próprio, orgulho e felicidade pelas realizações pessoais e o processo de se autopunir vira uma constante: a pessoa cristaliza a imagem de si mesma como algo negativo, insuficiente e se torna algoz de si mesma.

Nessas condições o comportamento é disfuncional e a vida emocional funcionará melhor se esse padrão for corrigido. Quando esse exagero na autoagressão acontece, a pessoa sofre e perde a capacidade de sentir prazer na vida, nas relações e na existência e que irão afetar a saúde mental, podendo levar a consequências mais sérias como a depressão.

Por mais que precisamos estar conscientes das nossas, falhas, fraquezas e insuficiências e buscarmos a disposição interna para evoluir como pessoas no mundo, Bottura acredita que viver é um grande desafio e por isso precisamos ser um bom parceiro de nós mesmos. "Se não for assim, nessa jornada da existência, a vida se torna ainda mais difícil. Às vezes ser duro é necessário mas se não tivermos amorosidade com a gente mesmo, inclusive naquilo que não somos bons, certamente não nos tornaremos melhores e viveremos a dor crônica da sensação de insuficiência, o que considero um peso muito grande a se carregar ao longo do trajeto da vida", pondera.

Dicas para "pegar leve" consigo mesmo

  • Olhe para aquilo que construiu até aqui com amorosidade e reconheça o que você tem de bom, dando valor para suas qualidades e dando menos peso para as suas imperfeições e defeitos;
  • Tenha em mente que somos seres passíveis de desenvolvimento em quase qualquer área da vida e que se queremos melhorar em algo precisamos ser o líder ideal de nós mesmos, que pode até ser duro, mas nunca é destrutivo;
  • Alivie o estresse: busque atividades que te dão prazer em fazer e que te deem mais leveza, como esportes, atividades recreativas ou artes, por exemplo. Extravasar a pressão do dia a dia libera o acúmulo e impede um desgaste muito grande de saúde física e mental;
  • Buscar terapia com profissionais da saúde mental podem ajudar no processo de autoconhecimento. Por meio da psicoterapia ou psicanálise é possível investigar o que está por trás desse comportamento e assim, trabalhar o problema.

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