PUBLICIDADE

Topo

Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Equilíbrio

Falar mal de si mesmo, ainda que brincando, é prejudicial: entenda por quê

iStock
Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração com VivaBem

02/07/2020 04h00

Saber rir de si mesmo é uma habilidade que costuma ser apontada como sinal de inteligência emocional. Afinal de contas, todo mundo comete gafes e enganos e, nos casos mais amenos, encará-los com leveza é uma atitude resiliente e positiva, principalmente se a pessoa se dispuser a corrigi-los. No entanto, há quem faça piada dos próprios defeitos e falhas em praticamente todas as situações, num processo constante de autodesqualificação que pouco tem de vantajoso. Pior: só reforça uma imagem depreciativa diante dos outros e perante si mesma.

Segundo a psicóloga Giovana Rossi Lenzi, coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Santa Catarina, em São Paulo (SP), existem diversas razões que podem levar alguém a se desqualificar constantemente. Ela explica que todas as pessoas trazem consigo um pacote de crenças pessoais e padrões de comportamento que são resultados das experiências de vida, da dinâmica familiar, do ambiente em que se vive e das formas como se escolhe enfrentar as situações. "Esses fatores podem levar a uma construção prejudicada da percepção do 'eu'. Isolar apenas um aspecto, característica ou comportamento, e rotulá-lo como 'ruim' é algo muito reducionista e gera uma marca equivocada nas pessoas ao redor. Por isso é essencial identificar a origem dessa fragilidade e como se deu o processo de construção dessa autoimagem", afirma.

Para a psicanalista Gisele Gomes, professora de Teoria Psicanalítica Freudiana na RNA Clínica e Escola de Psicanálise, também em São Paulo (SP), quem se desqualifica de forma contumaz geralmente está agindo conforme experiências vividas na primeira infância, fase primordial para o desenvolvimento do aparelho psíquico do ser humano e que definirá como ele se posicionará ao longo de sua existência. "A criança que é regularmente desqualificada pelos pais ou por aqueles que exercem esses papéis em sua vida, como os avós, por exemplo, certamente será um adulto que não consegue identificar, muito menos trabalhar, as suas potencialidades e qualidades e tende a se colocar sempre em uma posição de inferioridade", pontua.

Outra hipótese, na opinião do psicólogo Marcelo Santos, docente do curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, no interior paulista, é que se colocar para baixo o tempo todo diante dos outros consiste numa forma meio "torta" de pedir ajuda. "Ao se colocar no papel de vítima, a pessoa espera, ainda que modo inconsciente, que o interlocutor preste atenção nele e lhe dê importância", diz. Ou seja, o comportamento revela ainda um sentimento de menos valia e baixa autoestima.

Permissão para a desqualificação alheia

Quando temos o hábito de falar mal de nós mesmos, acabamos dando autorização, inconscientemente, para que os outros também o façam. "Trata-se de um mecanismo de repetição. Quem age assim expõe a terceiros o seu lado mais frágil e, a partir das atitudes dos outros, esse lado mais frágil acaba por ser reforçado, quase que como um círculo vicioso. Quanto mais reforço, maior a descrença em si mesmo. E é assim que a pessoa acaba se apresentando para o mundo, assumindo constantemente uma identidade baseada apenas na baixa autoestima", comenta Marcelo Lábaki Agostinho, psicólogo clínico do IP-USP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo).

A baixa autoestima pode conduzir à dificuldade de reconhecer quando alguém está sendo maldoso em suas atitudes, pois os inseguros não se sentem fortalecidos o suficiente para colocar limites em discursos ou ações que lhes sejam prejudiciais. "Quando estamos cientes do nosso valor, é mais fácil mostrar aos outros como podem ou não nos tratar. O autoconhecimento pode aliviar o sofrimento da insegurança. Pessoas confiantes, que sentem-se confortáveis consigo mesmas, tendem a ter melhor qualidade de vida e relações mais saudáveis", diz Lenzi.

O contrário, por sua vez, pode gerar sofrimento em diversas situações. Porém, o ambiente também pode vir a regular como as pessoas se comportam, por isso é natural que haja contextos e lugares em que a gente se sinta mais seguro de expor nossas fragilidades. É essencial saber identificar o momento, a hora e o propósito em que vamos expor determinada força ou dificuldade da nossa personalidade.

Reconhecer qualidades ajuda a quebrar o padrão

É preciso lembrar que as pessoas formam uma ideia sobre nós a partir daquilo que comunicamos. "Se você constrói no outro uma imagem com viés negativo, há o risco de a pessoa passar adiante algo que você mesmo condicionou, o que acaba provocando um estigma", observa Santos que, em contrapartida, lembra que, culturalmente, no Brasil as pessoas que costumam falar bem de si mesmas às vezes são tidas como arrogantes e soberbas. "É preciso quebrar esse paradigma, pois ninguém tem a obrigação de saber que você é competente ou referência naquilo que faz ou tem determinada habilidade", considera.

Reconhecer e compartilhar as próprias qualidades é um movimento de autovalorização bem diferente de ser narcisista, o que implica em se achar superior aos demais. "Se apropriar das suas capacidades é uma atitude essencial para fazer as escolhas de vida que vão ao encontro de aos seus talentos, valores e filosofias", descreve Lenzi. Ela explica que dessa maneira, as chances de desenvolver um bom trabalho, ser bem sucedido e fazer a diferença na sociedade em que vive, aumentam. "No entanto, a maneira como a pessoas transmitem essa positividade pode ser arrogante se houver um movimento de colocar-se acima do outro. É importante identificar as qualidades alheias também" afirma.

Sob o ponto de vista de Lábaki, para quebrar o padrão de falar mal de si mesmo, chamando a atenção apenas para os defeitos, é fundamental observar se essa desqualificação se dá principalmente no aspecto emocional e se, provavelmente, entra em choque com a inteligência real e outras capacidades. "Uma pessoa com esse hábito pode se surpreender quando, apesar da ladainha da incapacidade, consegue fazer uma atividade muito bem feita e até ser elogiada pelos outros. Este descompasso pode ser um bom momento da tomada de consciência", avisa.

Vale perceber, inclusive, se há aceitação dos elogios recebidos. Há pessoas que, quando são elogiadas, desconfiam de que aquilo é genuíno, pois não se avaliam da mesma maneira. "Se for o seu caso, comece a observar como os outros podem ter uma imagem diferente, e mais positiva, daquela que você construiu sobre si. Isso ajuda a compreender que todos temos aspectos a desenvolver e lapidar, nos aproxima e favorece a empatia com o outro e com nós mesmos", sugere Lenzi, que nos casos mais extremos aconselha um acompanhamento com psicoterapia.

Equilíbrio