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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Quer ajudar alguém que está pensando em se matar? Saiba como

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Imagem: iStock

Sibele Oliveira

Colaboração para o VivaBem

16/09/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Uma pessoa que pensa em se suicidar não quer desistir da vida, mas matar o que a faz sofrer
  • É preciso ficar atento aos sinais de risco, mesmo que não sejam tão claros
  • A melhor maneira de ajudar é ouvir a pessoa de forma respeitosa, tentar compreendê-la pelo ponto de vista dela e buscar uma solução junto com ela
  • Julgar, criticar e desrespeitar quem está nessa condição só serve para aumentar o sofrimento
  • Quando o assunto é suicídio, todas as faixas etárias merecem atenção

Imagine que você está entrando no mundo de uma pessoa que tirar a própria vida. Ele é feito de desespero, impotência, prostração, desesperança, angústia, solidão, desamparo, falta de sentido e ausência de futuro. As paisagens são todas sombrias e não existe luz para enxergar uma saída. Se já é difícil cumprir tarefas simples como levantar da cama ou escovar os dentes, as que demandam mais energia, como trabalhar, são um verdadeiro martírio.

É nessa escuridão que surge a sensação de que não tem mais jeito. "Em vez de remover o problema, a pessoa imagina que vai se livrar desse sofrimento com a morte", resume Karina Okajima Fukumitsu, psicóloga, suicidologista e consultora do Hospital Santa Mônica.

Agora faça o exercício de se colocar no lugar dessa pessoa e não encontrar quem entenda como é insuportável o que ela vive. Por isso, muitas costumam se fechar. Mesmo que por dentro haja um turbilhão de pensamentos, emoções e sentimentos, eles ficam trancados a sete chaves, tão bem escondidos que às vezes nem quem está ao lado percebe.

A pessoa guarda tudo para si porque não tem ânimo nem vontade de falar sobre o seu estado interno. Na verdade, ela não quer desistir da vida, mas matar o que a faz sofrer. Tanto os problemas quanto a forte dor emocional que enterra o desejo de continuar vivendo.

Tomada por um sofrimento intenso, a pessoa mergulha num definhar existencial, que Fukumitsu chama de "processo de morrência". Algo que vai acontecendo aos poucos, até ela chegar à conclusão de que morrer é a única maneira de acordar do pesadelo que a vida se tornou. Uma ideia que aos olhos dela parece tentadora, pois resolve tudo com uma tacada só, de maneira rápida e eficaz. O suicídio é mais comum do que a gente imagina. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 800 mil pessoas se suicidam por ano em todo o mundo. Uma morte a cada 40 segundos. É também a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos.

O desejo de dar um golpe certeiro nessa dor extrema nunca é motivado por uma única causa, mas por uma combinação de vários fatores. Geralmente são pessoas que não se dão bem com as adversidades, aquelas que não conseguem se levantar depois de levar uma rasteira da vida. E permanecer no chão está além das forças delas. Quem abusa de álcool e de drogas também costuma ter mais pensamentos de morrer, pois as substâncias podem gerar alucinações ou sensação de perseguição. Assim como quem tem o transtorno de personalidade borderline e transtornos mentais como depressão e transtorno bipolar.

Dependendo do caso, quem não quer mais viver precisa ser internado. "Se o risco de suicídio é iminente, existe a indicação de internação para proteger a pessoa, porque na enfermaria de um hospital psiquiátrico ela vai ser cuidada e observada 24 horas por dias. Em casa, a família não dá conta de ficar 24 horas por dia tomando conta dela', enfatiza Mario Louzã, psiquiatra do Programa Esquizofrenia do IPq - HC/FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

A delicada tarefa de ajudar

Escuta setembro amarelo - iStock - iStock
Imagem: iStock

Nem sempre quem quer desistir da vida verbaliza sua intenção de forma clara. Por isso é tão importante prestar atenção aos pequenos detalhes, às mudanças de comportamento, mesmo que sejam sutis. E mais importante do que isso. É preciso ter empatia e sensibilidade para entender o que a pessoa está precisando naquele momento. Pode ser um colo, alguém que a ouça durante o tempo que for preciso ou que embarque em seu mundo sem julgamentos ou preconceitos. "A gente deve entrar com a pessoa mesmo que seja no lodo, no limbo existencial dela", enfatiza Fukumitsu.

Em outras palavras, oferecer o ambiente acolhedor que ela tanto precisa e tratá-la com respeito e dignidade. Um bom começo é convidar a pessoa para uma conversa em um ambiente agradável. E de forma sincera perguntar onde está doendo, qual é o problema que ela não consegue resolver e se colocar à disposição para ajudá-la no que ela precisar. Frases como Estou com você. Você não está sozinho. Me ajude a te ajudar. Vamos juntos encontrar uma maneira de você sair dessa situação funcionam como uma injeção de ânimo para quem está sem energia. Para completar, é importante buscar procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica.

Colocar as emoções represadas para fora é um remédio dos mais eficazes contra o suicídio. "É como uma panela de pressão, que tem os sentimentos ali pressionando, indo para o coração e para a mente. De repente, quando a pessoa fala, essa panela abre um pouco e alivia esses sentimentos. O antídoto para a pessoa que sofre, que pensa em suicídio é o calor humano", afirma Antonio Batista, voluntário do CVV (Centro de Valorização da Vida) há 21 anos. Com esse apoio, ele diz, a pessoa se sente fortalecida e reconhecida, e tem a possibilidade de encontrar recursos internos para lidar com a situação.

Fukumitsu reforça a necessidade ouvir e legitimar o que a pessoa com pensamentos suicidas fala. "Quando ela não encontra esse escoamento, vai explodir ou implodir. Implosão, para mim, é o suicídio. Faço uma analogia do suicídio como um tsunami existencial. É um monte de coisas acontecendo". Se nos lembramos de momentos difíceis que passamos, fica mais fácil ver o que a pessoa está passando. "Todos nós já tivemos falta de sentido na vida. Então se a gente sentiu, podemos oferecer uma escuta sensível para acessar qual é esse sofrimento", afirma a psicóloga.

Nesse processo, é preciso dar tempo ao tempo, até para quem quer colocar um ponto final na vida perceber que precisa de ajuda. "A gente quer tirar a pessoa da dor, quer eliminar esse sofrimento. Só que ela não está pronta. O que faz a diferença é se aproximar com carinho e respeito. Não menosprezar nem supervalorizar o que a pessoa está sentindo, mas reconhecer que esse sofrimento tem um significado para ela", analisa Batista. Para ele, mais do que um pedido de socorro, quem busca ajuda está se dando uma oportunidade, que não deve ser desperdiçada. Com o cuidado de quem faz parte do seu convívio e um tratamento adequado, ela pode interromper o caminho da autodestruição e ressignificar as emoções.

Entretanto, não é tão simples como pode parecer. Ninguém tem o poder de evitar mortes por suicídios. Até porque existem os impulsivos, que não dão pistas. Ou seja, aparentemente está tudo bem, às vezes a pessoa acabou de conquistar algo na vida, como um bom emprego. Ainda assim, quando ela sofre algum revés e se vê sem saída, pode se matar de uma hora para outra. O mesmo vale para os suicídios planejados. Muitas vezes se trata de alguém que tem uma rede de proteção, recebe tratamento e acaba dando cabo da própria vida. Quando isso acontece, quem fica jamais deve se responsabilizar, achando que podia ter impedido esse desfecho.

Para ajudar a conviver com essa dor, o CVV criou o GASS (Grupo de Apoio ao Sobrevivente do Suicídio). Os encontros reúnem sobreviventes de suicídio e familiares enlutados. Ao compartilharem suas experiências, as pessoas se sentem mais confortadas. Batista garante que perder alguém dessa maneira gera um luto mais traumático. "Podem ficar sentimentos de culpa, de que algo podia ter sido feito, de não ter prestado atenção. Às vezes a pessoa perdeu um ente querido há 10 anos e esses sentimentos continuam presentes", relata.

Sinais de alerta

  • Tentativas de suicídio anteriores;
  • Desesperança;
  • Desespero;
  • Desamparo;
  • Mudanças abruptas de comportamento;
  • Desejo de morrer;
  • Planejar o suicídio;
  • Sintomas fortes de depressão;
  • Oscilações de humor;
  • Pessimismo;
  • Ansiedade e estresse acentuados;
  • Raiva e agressividade intensas;
  • Desejo de vingança;
  • Problemas relacionados ao sono;
  • Sensação de estar preso e sem saída;
  • Isolamento social;
  • Falta de sentido na vida;
  • Impulsividade e interesse por situações de risco;
  • Abuso de álcool e drogas;
  • Desfazer-se de objetos importantes;
  • Concluir assuntos pendentes como fazer um testamento, um seguro de vida ou uma carteira de doação de órgãos;
  • Colocar as coisas em ordem;
  • Encerrar contas bancárias;
  • Interesse súbito em religião;
  • Despedir-se de parentes e amigos;
  • Irritabilidade fora do normal;
  • Crises de culpa e de choro;
  • Comprar armas ou estocar comprimidos.

O que nunca devemos fazer

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Falar o que gente pensa não é ajudar uma pessoa que deseja abreviar a vida. Longe disso. Qualquer palavra dura ou mal colocada pode fazer a confiança que ela se esforçou para colocar em alguém cair por terra. Julgar, criticar ou desrespeitar só afunda a pessoa ainda mais no sofrimento.

Frases como "Você não vai fazer essa besteira, né?", "Vai passar", "Isso é frescura" e "Bola pra frente" jamais devem ser ditas, pois reduzem a nada a dor que a está corroendo o outro por dentro. Querer preencher o vazio que ela está sentindo também não funciona, assim como dar conselhos. "Ninguém que está pensando em se matar quer uma solução pronta", assegura Fukumitsu.

Precisamos falar dos idosos

É um erro achar que a tristeza faz parte da vida de quem envelhece. "Muitas vezes um idoso deprimido pode estar com ideação suicida. Não é natural que o idoso esteja triste", alerta Louzã. Por isso, é necessário prestarmos mais atenção na população mais velha. De acordo com Rosa Maria Maia, psicóloga da empresa Senior Concierge, quando o idoso passa muito tempo sozinho, não quer ninguém por perto, demonstra agressividade sem motivo ou começa a se automutilar, é sinal de que ele pode estar correndo perigo. Nesse caso, não deve ficar sozinho em hipótese alguma.

Muitos sofrem por se sentirem "um peso" para os parentes. "Os idosos podem tentar o suicídio por se sentirem solitários, doentes, incapazes, achar que estão dando trabalho, não ter mais o cônjuge, estarem longe dos filhos e dos netos e sob os cuidados de alguém que não faz parte da família", enumera Maia. E continua. "É preciso oferecer a eles amor para que tenham um sentimento de pertencimento, de valorização. Além de conversar muito e procurar o máximo possível otimizar o tempo deles, sem jamais tratá-los como crianças, incapazes e coitados. Mas como pessoas que estão em outro momento da vida e que também fazem parte da sociedade", sintetiza a psicóloga.

Além do tratamento tradicional

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O cuidado não deve ser apenas com os idosos, mas com pessoas de todas as faixas etárias. As crianças ficam muito irritadas, se queixam de não ter amigos, apresentam baixo rendimento escolar e podem demonstrar a vontade de morrer em desenhos, por exemplo. Enquanto os adolescentes fazem comentários mais claros e podem, inclusive, expressar esse desejo postando mensagens e fotos de morte nas redes sociais. "O suicídio nas crianças e adolescentes têm um caráter mais impulsivo. Nos adultos e nos idosos, são mais planejados", diferencia Fukumitsu.

Antes de mais nada, é preciso os tratar problemas de ordem emocional e vícios. "A ideação suicida muitas vezes está ligada a uma situação patológica, que se for controlada, desaparece", ressalta Lousã. Isso vale para o uso de álcool e drogas, para a depressão ou outros transtornos mentais. O tratamento, via de regra, é feito com psicólogos e psiquiatras. No entanto, o leque de ajuda pode ser muito maior. Basta a pessoa encontrar algo que traga de volta o sentido da vida. Pode ser desde uma meditação, dança, música, acupuntura, um curso novo ou até uma religião. "São várias possibilidades existenciais que a pessoa pode se dar ao direito de ter uma segunda ou terceira chance", conclui Fukumitsu.

Onde buscar ajuda

  • CAPS (Centro de Atenção Psicossocial);
  • Unidades básicas de saúde;
  • CVV (Centro de Valorização da Vida): atendimento gratuito através do telefone 188 e no site cvv.org (chat e e-mail).

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