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Aos 15 anos, Arthur chegou aos 180 kg e não tinha motivação para nada

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

19/08/2020 04h00

Aos sete anos, o estudante Arthur Fernandes de Oliveira, 17, pesava 70 kg e já era considerado uma criança obesa. Aos 15, e no auge da obesidade, seu peso máximo chegou a 180 kg. Foi uma fase difícil, Arthur perdeu a autoestima, tinha vergonha do corpo e sentia o preconceito de perto. Ao fazer um tratamento de obesidade infantil, ele foi submetido a uma cirurgia bariátrica e emagreceu 91 kg. Conheça a história dele.

"Venho de uma família de obesos, meu pai gosta de cozinhar e sempre fez comida em grande quantidade. Minha mãe trabalhava fora e eu passava a maior parte do tempo em casa com o meu pai ou com a babá. Quando acabava de comer e chorava querendo mais, a babá me dava, não havia limites e nem supervisão com a minha alimentação.

Aos sete anos, já era uma criança obesa e pesava 70 kg. Não usava mais roupas infantis, só vestuário de adulto, meu manequim era 42. Nessa idade, minha mãe me levou à nutricionista, fiz uma dieta pela primeira vez, mas logo parei. Ao observar meu pai cozinhar, com oito para nove anos, aprendi a cozinhar também, o que me inseriu ainda mais nesse ambiente de comida. Tinha preferência por alimentos salgados: pizza, esfiha, fast-food, batata frita e massa.

Aos 12 anos, comecei a sofrer bullying dos meninos na escola, eles me chamavam de gordo e baleia. Me sentia um lixo de pessoa, diminuído de todas as formas. Não respondia, ficava quieto na minha. Às vezes ia ao banheiro para chorar e ligava para a minha mãe. Descontava todas essas ofensas e frustrações na comida.

Era um garoto muito sedentário, ia e voltava da escola de carro ou de perua. Em casa, só ficava deitado assistindo TV, mexendo no celular ou cuidando dos meus passarinhos. Meus pais viviam me incentivando a praticar algum esporte, a jogar basquete, futebol, fazer natação, a andar de bicicleta, mas não gostava de nada.

Não me exercitava nem nas aulas de educação física. Devido ao sobrepeso e também por ter asma, se fizesse qualquer exercício, já ficava cansado e com falta de ar. Às vezes usava esse problema respiratório como desculpa para não fazer nada.

Arthur - antes e depois - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Médicos brigavam com meus pais

Na tentativa de me inserir em mais atividades e evitar que ficasse em casa só comendo, meus pais me tiraram da escola onde estudava só meio período e me colocaram em uma escola de período integral, mas não adiantou.

Toda vez que eles me levavam a uma consulta, os médicos brigavam com eles. Diziam que estava obeso, que precisava ter disciplina na alimentação e fazer algum esporte. Por mais que meus pais tentassem ter algum controle sobre mim, eles não conseguiam.

A obesidade refletiu na minha saúde. Fiz uma bateria de exames e tive algumas alterações, a pressão e o colesterol estavam altos, e já estava pré-diabético.

Aos 13 anos, com 120 kg, um médico me indicou a bariátrica e meu deu um remédio para inibir o apetite. Tomei essa medicação por quase um mês, mas sofri muito com os efeitos colaterais, tinha fortes dores de cabeças e fiquei bastante irritado.

Arthur Fernandes de Oliveira - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Minha mãe suspendeu o remédio e começou a procurar algum cirurgião que aceitasse me operar. O problema é que nenhum médico queria fazer a bariátrica em mim por causa da minha idade. Eles diziam que eu não tinha idade o suficiente para fazer uma cirurgia desse porte, e que nós deveríamos esperar até eu completar pelo menos 16 anos.

Minha mãe dizia que se responsabilizava, mas ninguém aceitava pegar o meu caso. Ela me levou em cinco profissionais, um deles até chegou a indicar o balão gástrico, mas foi realista em afirmar que ele seria insuficiente para eu emagrecer tudo o que eu precisava.

Em um ano, devido a alguns acontecimentos que me abalaram psicologicamente, engordei 34 kg e cheguei aos 154 kg aos 14 anos. Após eu e a minha família sermos vítimas de um assalto, desenvolvi síndrome do pânico, tinha crises, chorava, ficava ansioso, tinha medo de sair sozinho. Como consequência passei a comer sem limites.

Foi uma fase complicada, perdi a autoestima, evitava tirar fotos, só ia à escola e à igreja por obrigação, não tinha motivação para fazer nada. Não gostava de sair de casa porque tinha vergonha do meu corpo, as pessoas me olhavam torto e com desprezo. Sentia o preconceito na pele.

Até então, mesmo ouvindo de todas as pessoas que precisava emagrecer, nunca me importei em ser obeso. Esse pensamento começou a mudar quando eu passei a acompanhar a minha irmã nas consultas com o cirurgião. Ela tinha 24 anos e ia fazer a bariátrica. Achei interessante a possibilidade de poder emagrecer em um curto período de tempo e de ter uma vida mais saudável, com mais disposição e energia.

Fiz a cirurgia bariátrica aos 15 anos

Paralelamente a isso, minha mãe conseguiu para mim um tratamento de obesidade infantil no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Estava com 15 anos e pesando 180 kg. Fiz acompanhamento multidisciplinar com endocrinologista, psicóloga, nutricionista, educador físico e cirurgião.

Pela primeira vez, não fui tratado apenas como um adolescente obeso que precisava emagrecer, mas como uma pessoa com sentimentos e necessidades. Me senti acolhido pela equipe, eles se importavam com a minha história. Isso fez toda a diferença para que despertasse em mim a vontade de mudar de vida e de adotar novos hábitos saudáveis.

Com o tratamento, emagreci 10 kg e, uma semana antes de completar 16 anos, fiz a cirurgia bariátrica, no dia 12 de março de 2019. Meu pós-operatório foi bem tranquilo. Nos primeiros 15 dias, tomei só dieta líquida e nos outros 15 a alimentação foi pastosa.

Arthur Fernandes de Oliveira - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Na primeira semana, eliminei 14 kg. A partir do segundo mês, a nutricionista montou um plano alimentar simples e fácil de ser seguido. Basicamente meu cardápio tinha uma proteína, arroz, feijão e salada à vontade.

De lanches, as opções eram queijo branco, castanha, iogurte natural, pães integrais e frutas. Nesse processo, a minha relação com a comida mudou completamente, passei a me alimentar de forma saudável, em pouca quantidade e me sentia saciado.

Após três meses, entrei na academia, ia de segunda a sábado. Corria meia hora na esteira e fazia 40 minutos de musculação. Para quem não gostava de fazer nenhum exercício físico, me identifiquei com a musculação, é algo que faço com prazer. Em um ano e cinco meses, sequei 91 kg, fui de 170 kg para 79 kg.

Hoje, aos 17 anos, sou outra pessoa, confio muito mais em mim, recuperei a minha autoestima e estou feliz comigo. Como um ex-adolescente obeso, o conselho que deixo a outros jovens que estejam enfrentando a obesidade é para buscar ajuda profissional e apoio na família. Graças à cirurgia e ao tratamento, venci a obesidade e hoje tenho uma vida toda pela frente".

Obesidade na adolescência

Os níveis de sobrepeso e obesidade na infância e adolescência estão aumentando em todo o mundo. De 2000 a 2016, a proporção de crianças e adolescentes com excesso de peso entre 5 e 19 anos praticamente dobrou, passando de um em dez para quase um em cinco, de acordo com dados da Unicef.

No Brasil, uma em cada três crianças de 5 a 9 anos possui excesso de peso. Entre os adolescentes, 17,1% estão com sobrepeso e 8,4% já são considerados obesos. A obesidade é uma doença crônica que, se não controlada com tratamento contínuo, assim como diabetes e hipertensão, pode piorar a qualidade e diminuir a expectativa de vida.

As causas da obesidade na adolescência são complexas e multifatoriais envolvendo desordens genéticas, endócrinas, psicológicas, neurológicas, ambientais —como fatores socioeconômicos—, parentais, de estilo de vida e até condições induzidas por medicamentos.

"Ao olharmos o padrão familiar, claramente observamos que, se os pais têm obesidade, a chance de os filhos terem também é maior, tanto pela genética como pelos maus hábitos alimentares", explica Rocio R. Della Coletta, endocrinologista e gerente médica de obesidade da Novo Nordisk Brasil.

De acordo com o endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Flaso (Federação Latino-Americana de Obesidade), 80% dos genes relacionados à obesidade estão no cérebro. Esses genes facilitam o impulso alimentar e uma maior fome.

Há evidências de que o sedentarismo facilita o consumo excessivo de calorias. "É importante ressaltar que o número de crianças e adolescentes com obesidade aumentou não porque eles se tornaram mais sedentários, mas porque o ambiente mudou, se tornando mais obesogênico", diz. O tempo de tela e a má qualidade de sono interferem no metabolismo e são considerados fatores de risco para o ganho de peso.

Fatores psicológicos

Os efeitos físicos e psicológicos são diversos. Tudo depende do grau da obesidade, do ambiente em que essa pessoa vive, do tipo de pressão que ela sofre, mas, em geral, crianças e adolescentes sofrem mais bullying de colegas, têm mais dificuldade de relacionamento, são mais isoladas socialmente e, com isso, o risco de depressão é maior.

Halpern afirma que crianças e adolescentes com obesidade têm uma chance muito alta de se tornarem adultos obesos. Segundo estudos, adolescentes com excesso de peso têm maior risco de ficarem diabéticos a longo prazo e de terem doenças cardiovasculares mesmo quando perdem peso na vida adulta.

Por isso, o tratamento na juventude é tão importante. "A adolescência é uma fase boa para buscar mudanças de estilo de vida e tratamentos para a perda de peso, porque é o momento do estirão da puberdade, das mudanças de hormônios, do ganho de massa muscular. Esses fatores podem facilitar o processo, desde que a pessoa faça um movimento proativo para começar a se tratar".

O tratamento da obesidade é baseado inicialmente num tripé: dieta com reeducação alimentar, exercício físico regular e medicação para ajudar na adesão a mudança do estilo de vida, que é primordial para a perda e manutenção do peso perdido. O tratamento deve ser individualizado, acompanhado por profissionais especializados (médico, nutricionista, educador físico, psicólogo, entre outros) e deve ser contínuo para manter a doença controlada ao longo da vida.

Em agosto deste ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o uso da medicação liraglutida para o tratamento da obesidade em pessoas a partir de 12 anos. "Esse é um passo muito importante no tratamento da doença no Brasil, principalmente para os jovens, que se veem, muitas vezes, sem opções para a perda de peso quando reeducação alimentar e exercícios físicos não são suficientes", diz Coletta.

Vale lembrar que a liraglutida é indicada como um complemento a uma dieta com redução calórica e aumento de atividade física para o controle de peso.

Coletta explica que pessoas com obesidade costumam ter uma disfunção do GLP-1 e, por isso, podem ingerir maior quantidade de alimentos. A liraglutida é um análogo de GLP-1 com 97% de semelhança com o hormônio produzido naturalmente pelo nosso organismo e faz esse papel de atuar na saciedade de pacientes com a doença, refletindo na menor quantidade de ingestão de alimentos. A liraglutida não é anfetamina e não causa dependência física ou mental.

Além da medicação, hoje, existe a possibilidade de fazer cirurgia bariátrica em pacientes acima de 16 anos, mas só em casos de obesidade muito graves e após o acompanhamento de diversos profissionais, como pediatra, psicólogo, psiquiatra e endocrinologista, para que se entenda exatamente qual é o perfil do indivíduo e quais os benefícios a longo prazo, bem como quais os malefícios de não se operar entre 16 e 18 anos, conclui Bruno Halpern.

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