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UOL Debate: "Para ser feliz, o ser humano precisa ver os outros felizes"

Do VivaBem, em São Paulo

11/05/2020 14h41

Nesta segunda-feira (11), o UOL Debate reuniu uma líder espiritual, uma filósofa e dois especialistas em saúde mental para discutir como as pessoas podem pensar sobre felicidade e superar sensações de tristeza e ansiedade em meio a pandemia de novo coronavírus.

O mediador foi Jairo Bouer, colunista de VivaBem. Ele é psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP e bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Todos os especialistas concordaram que o conceito de felicidade passa pelo bem-estar coletivo, ou seja, é difícil ser feliz se o seu próximo não está, se o ambiente em que você convive está ruim, se o seu país está passando por uma situação delicada.

"O que me preocupa é que essa pandemia trouxe à tona várias verdades que estão ocultas e, de repente, aparecem. O que vem à tona é a dimensão coletiva que esse vírus traz. Nós ficamos preocupados em não ficar doentes e também nos preocupamos com os outros. A felicidade não pode ser tratada como uma questão particular, é uma ideia que remete ao coletivo, depende do ambiente, do país onde vivo, o ser humano precisa ver os outros felizes para também ser feliz. Se a gente não pensar a nossa felicidade como questão social e política, a gente pode estragar esse conceito", conceitou Marcia Tiburi, professora universitária, romancista e ativista, é doutora em filosofia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

"A felicidade, no sentido mais rigoroso, ou é para todos ou é para ninguém. A infelicidade daquele que está ao meu alcance, ela me diz respeito também", corroborou Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). Também é colunista de Tilt, o canal de tecnologia do UOL.

"Sempre penso que não temos uma tesoura que nos recorta da realidade. Somos seres sociais. Moro ao lado de um hospital de campanha, eu sinto essas pessoas e essas dores, a gente tem empatia. Sentimos os médicos, os entregadores. Talvez as pessoas que não sabem lidar com a dor são as que estão mascarando tudo isso. Vamos sair da estatística e lembrar que os mortos são seres humanos semelhantes a nós. Cada um vai escolher aquilo que lhe é conveniente", afirmou Monja Coen, referência do Zen Budismo no Brasil.

"Um dos grandes desafios talvez seja conciliar os dois ângulos: individual e coletivo. Pode parecer uma competição de quem está sofrendo mais e quem está fazendo melhor uso da quarentena. Esses dois embates também estão alienados. A vida é muito maior do que as redes sociais mesmo quando a gente não pode sair de casa. Ninguém vive só de realidade, a gente vive de fantasia também, já que a realidade está bem difícil", pontuou Lucas Liedke, psicanalista formado pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), é analista de cultura e comportamento.

Felicidade em meio à incerteza?

Sobre conseguir ser feliz em meio à incerteza causada pelo novo coronavírus, cada especialista pontuou o que entende sobre o conceito.

"Felicidade é um conceito político e ético. Cada um precisa encontrar a sua felicidade nos seus termos e no seu próprio caminho. A felicidade é uma tarefa para você, o outro não é responsável pela sua felicidade. A gente não está acostumado a entender a felicidade como um problema", lembrou Dunker.

Citando a felicidade exposta nas redes sociais, Tiburi frisou que "é bacana não se enganar por felicidades plásticas".

"Ser iluminado é uma pessoa que acorda para a realidade. Tenho a sabedoria de analisar a realidade, ver as necessidades verdadeiras e atuar para sanar essas necessidades. Tudo que está acontecendo é uma oportunidade de expansão da consciência. Eu que sou o todo manifesto, e ao cuidar desse todo, estou cuidando de mim. O maior altruísta é o maior egoísta. A compaixão tem a ver com isso", disse a monja.

"A felicidade é um contentamento com a existência, e ela pode existir mesmo em grandes dificuldades com a pandemia. Não existem estados permanentes, passamos por diferentes estados. Contentamento de estar vivo e respirar sem aparelhos. Apreciar a vida agora", continuou a budista.

"Aquele que espera a felicidade como um estado permanente vai acabar negando a contingência da vida e a aceitação, que é um princípio maior. A gente se torna muito infeliz perseguindo uma felicidade super-humana", afirmou Dunker.

"Certamente não dá para ser feliz toda hora. Esse tempo diferente que estamos vivendo tem abalado nossa sensação de felicidade. A gente tem que se perguntar o quão feliz a gente era antes. E essa régua é pessoal. É uma coisa que cada um vai descobrindo. A felicidade pode ser um pouco sobre descobrir que somos mais fortes e resilientes do que imaginávamos. Como eu vou sonhar neste momento? Ironicamente, tem uma sensação de que a vida é agora, e a gente não pode mais perder tempo. A gente tem que ter um cuidado para não azedar a nossa própria felicidade", explicou Liedke.

Pensar sobre ser feliz é algo que alcança todo mundo?

Pode parecer que discutir felicidade é um assunto para os mais intelectuais, já que envolve muita filosofia, e essa foi a questão proposta por Bouer: será que esse conceito alcança todos os estratos sociais?

"Infelizmente, tem muita gente que não se coloca esse tipo de pergunta. Por exemplo, a pessoa já compra a música pronta que traz a felicidade pronta. O estilo de vida burguês é vendido como sendo a felicidade pronta. Essas pessoas já recebem a resposta do que é felicidade, então não se colocam a pergunta do que é felicidade. A gente já recebe a programação pronta do que é felicidade", afirmou a filósofa.

Já Lucas crê que como estamos operando no modo sobrevivência, quase como em uma guerra, é um pouco mais difícil pensar sobre felicidade. "Podemos quebrar alguns hábitos à força. E a gente se dá conta de que fazemos muita coisa compulsivamente. Algumas coisas já estão mudando: já estamos pensando mais sobre as escolhas que fizemos. Dê a oportunidade de ouvir a si mesmo, e se acolher no sofrimento e na dor."

Monja relativizou bastante o conceito ao exemplificar que para a senhora que ficou na fila da Caixa e saiu com o auxílio emergencial, ela vai dizer que isso é felicidade. "Se houver suficiência, nós teremos uma sociedade mais harmoniosa. Tem pessoas muito ricas e muito insuficientes. Tem pessoas que estão vazias de si mesmas. Os momentos de bem-estar têm que ser percebidos, as pequenas alegrias. Temos que aprender com as pessoas mais pobres o que é compaixão. O individual e o coletivo estão juntos, e espero que todos os seres possam ser felizes."

O psicanalista Dunker completou: "Perguntar-se sobre a felicidade é um assunto para ricos, para filósofos que têm tempo, para ociosos. Para os pobres, a questão deveria ser deslocada. A felicidade é uma questão que é direito de todos, por mais o sofrimento nos trate de forma diferencial, a questão da felicidade nos torna equivalentes".

E o amanhã?

Bouer finalizou o debate questionando os estudiosos sobre o futuro: como será a nova normalidade?

"Não há nada fixo, nem nada permanente. Nós tínhamos uma ideia de segurança que a pandemia tirou. Existe um novo mundo porque está tudo transformando. Vai ser diferente, como vamos lidar vai ser para cada um de nós. Vamos descobrir outras maneiras de comunicação amorosa, por exemplo. Cada um de nós vai ter que conviver com esse novo momento. Não seremos os mesmos. Cada instante é um instante novo", disse a monja.

"Estamos vivendo o luto de um mundo que não existe mais, sem saber como vai ser o novo que vai aparecer. Talvez a felicidade seja encarar as nossas falhas e buracos. Não se renda, mas também não fuja", finalizou Liedke.

"Vamos aprender a viver com o que tem para hoje. Qual história vou ter para contar depois da travessia? Você é capaz de reconstruir", concluiu Dunker.

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