Topo

Saúde

Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


UOL Debate: é precoce relaxar isolamento, e falta liderança nacional

Do VivaBem, em São Paulo

28/04/2020 14h16

Nesta terça-feira (28), o UOL Debate discutiu o sistema de saúde brasileiro. O colapso que pode acontecer em muitas cidades do país foi um dos assuntos principais.

Os especialistas trouxeram suas visões sobre como minimizar os impactos que a crise pode causar no atendimento à população e trouxeram possíveis soluções para o combate à covid-19. O debate foi mediado por Cristiane Segatto, jornalista especializada em saúde e colunista de VivaBem.

Relaxamento do isolamento social

Questionados sobre se é o momento de pensar em relaxar o isolamento social, como algumas cidades já têm feito e outras estão pensando a respeito, todos os debatedores concordaram tratar-se de uma medida precoce.

"Hoje não é o momento de pensar nisso. Olhando para a curva epidêmica, aparentemente a partir de 10 de maio a curva vai decrescer, mas acho precoce falar em reduzir a quarentena. Se a epidemia começar a decrescer, vamos fazer um plano. Restaurante? Acho perigoso reabrir. Tem que sentar e olhar os dados, fazer um plano e discutir com a sociedade", explicou Gonzalo Vecina Neto, médico fundador da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ex-secretário municipal de saúde de São Paulo (SP) e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

"O problema é que temos a subnotificação [dos casos], trabalhamos com dados irreais, por isso não conseguimos projetar muito o agravamento da crise. Nós temos um grande problema de informações hospitalares, cruzamento dos dados. Não sabemos onde a doença está em maior gravidade e onde falta chegar", pontuou Ricardo Nicolau, diretor do Hospital de Campanha Municipal de Manaus (AM).

"O isolamento é o que tem se mostrado efetivo. Enquanto não tivermos outras respostas, o isolamento é uma medida que a gente tem que entender", completou Amanda Cardoso Montal, médica e membro da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas da FMUSP.

"Alguns hospitais privados estão começando a fazer internações de rotina, isso é um desatino. Nesse momento, é crise, não tem que ter internação eletiva. Eles alegam risco financeiro. Vamos descobrir o que vamos fazer com o risco financeiro da instituição", vociferou o professor da USP.

Conduta do Ministério da Saúde

A mediadora questionou sobre qual erro o Ministério da Saúde não pode cometer no combate ao coronavírus e todos foram enfáticos em dizer que falta uma coordenação nacional. "Não pode soltar cada estado fazendo o que bem entender. Tem que ter uma liderança que vai coordenar a ação no Brasil, e até agora não liderou, e que tome as decisões que devem ser tomadas", disse Vecina.

"Tem que distribuir as estratégias de tratamento. Essa diretriz é extremamente útil, principalmente para pequenos municípios", lembrou Nicolau, explicando que muitas vezes pequenas cidades não têm acesso ao conhecimento técnico completo da infecção e podem sair tratando os doentes como acharem melhor, e nem sempre obterem os resultados desejados.

"Entre os profissionais da saúde, há o sentimento de que falta liderança nacional. Cada estado e cada município vai fazendo as suas políticas e isso é muito ruim", pontuou Pedro Archer, cirurgião-geral e diretor do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (RJ).

O SUS e recursos públicos

"Está caindo a ficha do que é viver em sociedade. Nós desaprendemos a viver em sociedade. Desaprendemos a conviver com os direitos dos outros. Nos últimos 15/20 anos, o mundo quis equilibrar contas e não salvar vidas. O SUS é capaz de construir essa civilidade da qual estamos atrás", disse Vecina ao comentar a importância do sistema único de saúde.

Amanda contou que o planejamento no HC-SP começou em janeiro com a previsão de compra de mais EPIS, por exemplo, já no final de março, todos os leitos dos outros institutos foram destinados só para questões respiratórias. "Planejar e reforçar o isolamento são pontos importantes para evitar que o colapso aconteça, é o medo de todo mundo na rede pública", contou.

Sobre a má gestão dos recursos púbicos aplicados à saúde, Nicolau classificou como um problema muito grave. "Problemas de corrupção, ineficiências, desperdício fazem com que a população sofra muito. A covid veio para mostrar a ineficiência que temos no Brasil inteiro, infelizmente".

"Não existe resposta fácil. Tem um monte de componentes. O problema de gestão não é do sistema, mas um problema do estado brasileiro. Tem sobrepreço, não tem jeito de comprar EPI, anestesia, respiradores sem sobrepreço. Acho que se eu tivesse no governo compraria com sobrepreço, por que se não fizer vai ter mortes que cairão no seu colo", opinou Vecina.

Testes rápidos x eficácia

Tanto Vecina quanto Nicolau classificaram os testes rápidos que detectam a covid-19 como ineficientes e classificaram a testagem em massa, via RT-PCR, como essencial para entender a curva da doença e pensar em estratégias de relaxamento da quarentena.

"Tem que fazer a testagem com PCR, descobriu que é portador, tem que isolar. Não podemos permitir que a infecção se alastre muito depressa. Agora, os testes rápidos e jogar cara-e-coroa são a mesma coisa. Melhor jogar que é mais barato. Nós vamos ter testes, mas precisamos de central de processamento. Temos que aumentar a capacidade de testagem do país, e é um problema de todas as síndromes virais, não só para a covid", explicou o sanitarista Vecina.

"Os testes rápidos, temos visto que não têm eficácia, há muito falso-negativo e só pega na fase aguda da doença. O PCR é o mais indicado e a tomografia também tem se mostrado eficaz", afirmou Nicolau.

O colapso no Amazonas

Nicolau explicou que o colapso no Amazonas, onde diariamente covas coletivas estão sendo abertas para enterrar os mortos pela doença, se deu pelo fato de o estado não ter conseguido cumprir com nenhuma das fases da doença.

"A primeira fase era tentar escalonar para não inflar o SUS, que seria o isolamento social. Aí fomos para a segunda, que seria o diagnóstico precoce. E aí chegamos a terceira fase, da hospitalização. As UTIs já estavam lotadas e não foram criados, de forma rápida e eficiente, novos leitos", justificou.

"O primeiro componente do problema do Amazonas é a falta de isolamento social. O estado sofreu muito também com a falta de testes moleculares, o RT-PCR. A estrutura sanitária do Amazonas é ruim, e houve uma pressão do polo industrial que há na cidade por não instaurar a quarentena. E parte desse desastre social é fruto dessa conjugação", lembrou Vecina.

"Aqui no Rio de Janeiro não estamos vivendo uma situação tão diferente assim. Estamos caminhando para a mesma situação do Amazonas", falou Archer.

Fila única de leitos

Segatto perguntou a opinião dos médicos sobre a possível implantação de uma fila única de leitos de UTI, contando com leitos de hospitais públicos e privados.

"Os governantes podem requisitar os leitos privados para que brasileiros não morram. No Amazonas não tem mais jeito. Certamente, no momento em que essa epidemia eclodir no Rio de Janeiro, nós vamos ter que usar esses leitos privados. E vai ter que fazer sentido porque senão brasileiros pobres vão morrer e brasileiros ricos vão se salvar. Os governantes têm que sentar com os proprietários dos hospitais privados e organizar uma fila única, ver quanto custa e reembolsar esse gasto", disse o criador da Anvisa.

Já Nicolau acrescentou que a fila única não pode ser exata e precisa de regulação bem-feita, analisando os critérios dos pacientes. "Tem que unir todos os sistemas. Temos visto que o tempo da doença é muito rápido, tem que usar conhecimentos técnicos e tecnologia para fazer com que esses pacientes não agravem e que a gente consiga salvar vidas", finalizou.