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TOC, transtorno bipolar... 5 doenças mentais que não são como você imagina

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Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para o VivaBem

22/08/2019 04h00

Quem nunca disse que uma pessoa que muda de humor rapidamente é bipolar? Ou que aquele colega bastante metódico com organização tem TOC? É comum que termos ligados a doenças mentais ganhem notoriedade, mas muitas vezes isso ocorre carregando-os de estigma e preconceito.

"Doença psiquiátrica não é fraqueza, não é culpa da pessoa, e essa banalização pode desencorajar aqueles que realmente precisam de tratamento", afirma Ives Cavalcante Passos, professor do Departamento de Psiquiatria da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Esse tipo de comentário é uma maneira de banalizar doenças sérias e que exigem um tratamento adequado.

Portanto, é essencial falar sobre as doenças mentais, mas sem banalização. Afinal, não é um sintoma específico que irá confirmá-la. "É importante não cair na tentação de um pseudodiagnóstico, pois a psiquiatria analisa um conjunto de sintomas que precisam ser bem identificados para um tratamento assertivo", alerta o psiquiatra Raphael Boechat Barros, professor da Faculdade de Medicina da UnB (Universidade Federal de Brasília).

Na prática, transtornos mentais comuns como a depressão e a esquizofrenia costumam ser identificados e tratados tardiamente. De acordo com psiquiatra Elisa Brietzke, orientadora do programa de pós-graduação em psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o transtorno bipolar, por exemplo, pode demorar cerca de 11 anos para ser reconhecido e tratado. "E comentários indevidos podem afastar um paciente de recursos para tratar com sucesso e restaurar sua qualidade de vida", confirma.

Por isso, conheça a seguir como cinco dessas doenças são diferentes das expressões que muitas pessoas usam no dia a dia.

1. TOC (Transtorno obsessivo compulsivo)

Qualquer pessoa pode ter uma mania, um ritual ou uma superstição e isso não significa que o indivíduo tem TOC. Por isso, não diga que alguém tem TOC por fazer algo de forma repetitiva ou ser muito metódico.

O TOC é uma doença caracterizada por pensamentos obsessivos intrusivos e rituais recorrentes de checagem e organização, usados como forma de tentar anular esses pensamentos ou evitar que a ameaça que está preocupando essa pessoa aconteça de fato. É comum que essas obsessões tomem tempo da pessoa que possui o quadro ou lhe causem um sofrimento significativo e prejuízos sociais e psicológicos.

2. Transtorno Bipolar

Ninguém consegue se manter apenas feliz e, ao longo do dia, é natural mudar de humor de acordo com as situações cotidianas.Por isso, não diga que alguém é bipolar porque teve uma oscilação de humor.

A bipolaridade é um transtorno caracterizado por flutuações extremas de humor que raramente acontecem em um mesmo dia ou de uma hora para outra. Na verdade, os episódios de humor agitado (mania) e depressão são longos, podendo durar até mesmo semanas. Além disso, essas alterações são acompanhadas de mudanças no nível de energia, no padrão de pensamento e comportamento. Ocorre em 1% da população em geral e estão associadas ao maior risco de suicídio.

3. Compulsividade

É comum demonstrar interesse por algo específico, portanto, colecionar selos ou cartões postais ou querer usar camiseta de gatos ou uma série favorita não é sinal de doença. Por isso, não chame de compulsivo alguém que demonstra um interesse mais por algum item ou personagem.

Ser compulsivo provoca uma incapacidade de controlar um comportamento. Uma pessoa com este tipo de doença pode ser compulsiva por álcool, drogas, jogos, compras, alimentos, sexo. E é possível mudar de uma compulsão para outra, por isso, é ela que deve ser tratada.

4. Esquizofrenia

Pensar fora da caixinha ou fazer algo inusitado pode ter a ver com um traço de personalidade ou uma fase, e isso não é loucura. Por isso, não chame de esquizofrênico quem age fora dos padrões ou tem uma mente mais solta e até sem juízo.

Essa é uma doença caracterizada por graves distorções do pensamento, chamadas de delírios e alterações da percepção, como ouvir vozes ou ter alucinações visuais. Para se fechar o diagnóstico, é preciso que a pessoa apresente pelo menos dois desses cinco sintomas (sendo que a presença de um dos três primeiros é obrigatória): delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento grosseiramente desorganizado ou catatônico e sintomas negativos --como redução da expressão das emoções ou diminuição de atividades que envolvam iniciativa.

5. Transtorno de personalidade antissocial

Gostar de ficar sozinho ou evitar aquela reunião em família pode ser necessário para algumas pessoas que preferem a calmaria, ao agito social. Por isso, não chame de antissocial quem prefere ficar no quarto lendo um bom livro.

Esse é um transtorno de personalidade característico por um padrão recorrente de dificuldade de empatia pelos outros e um padrão persistente de violação das regras e dos direitos dos outros.

É preciso ter cuidado e respeito

Essa banalização que, muitas vezes, acontece sem a intenção de prejudicar, ajuda a transformar tais doenças em algo mais 'natural' ou 'aceitável'. "Em um estudo feito, mas com dados ainda não publicados, avaliamos todas as postagens do Twitter com o termo 'esquizofrenia' durante um mês e vimos que costuma ser usado para exprimir ideias de 'confusão', 'incoerência' ou 'incompreensão'. Isso de nenhuma forma ajuda as pessoas portadoras de esquizofrenia, pois reforça o estereótipo negativo já ligado a doença", reclama Brietzke.

Portanto, um diagnóstico psiquiátrico pode ser muito pesado para muitas pessoas, e associar o nome dessas doenças a algo instável ou perigoso, por exemplo, só aumenta o sentimento do portador de querer estar longe desse universo. Portanto, é fundamental eliminar o estigma, e para isso é preciso mudar a maneira como as pessoas pensam sobre as doenças mentais.

"A área da saúde mental possui todo um corpo de procedimentos e técnicas. Muitas vezes, no intuito de simplificar o discurso, há uma abordagem superficial e pouco útil da doença mental", acrescenta Flávio Kapczinski, professor e pesquisador na área de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). E o uso trivial desses termos soa agressivo e doloroso para os que possuem uma condição séria, potencialmente grave, mas que podem ser tratados e ter uma vida mais equilibrada e saudável.

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