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Divagar é preciso! Deixar a mente livre para viajar aumenta produtividade

Denis Freitas / VivaBem
Imagem: Denis Freitas / VivaBem

Cristiane Capuchinho

Colaboração para o VivaBem

24/02/2020 04h00

De uma hora para outra, sua cabeça desliga e você já não está mais ali concentrado na tarefa que fazia há poucos segundos. Uma viagem, ou como chamam os neurocientistas, uma divagação. Quando o mundo está cheio de estratégias para manter o foco e tornar útil cada momento do seu dia, deixar a mente sair um pouco da realidade e viajar parece coisa de hippie ou de quem está desconectado da busca contemporânea por produtividade.

Por muito tempo, essa divagação foi relacionada em estudos científicos com transtornos de atenção e doenças como depressão. No entanto, pesquisas recentes têm mostrado que as coisas não são tão preto e branco. Divagar é inevitável e, mais do que isso, sonhar acordado, de maneira controlada, é desejável para o bom funcionamento do cérebro.

Podemos fazer uma aproximação da divagação com a importância do sono para a saúde mental. Reduzir muito o tempo para o cérebro divagar compromete seu resultado Claudinei Biazoli, neurocientista e professor da UFABC (Universidade Federal do ABC)

As viagens da mente podem ajudar a resolver problemas de forma criativa, a melhorar a produtividade e a fazer melhores planos.

O que é a divagação?

Os momentos de divagação estão relacionados a áreas do cérebro que fazem parte do que os neurocientistas chamam de rede padrão, que é ativada com ações relacionadas a memória, ao planejamento do futuro e a pensamentos autocentrados, elenca Biazoli. Nessas horas, os pensamentos mais comuns são de três tipos: pensamentos sociais, relacionados a amigos e família; orientados ao futuro, de planejamento sobre o que faremos na sequência, e a ruminação, em que você repensa coisas que deram errado ou negativas.

Evidências científicas indicam que nossa mente está apta a divagar espontaneamente sempre que a tarefa que estamos fazendo não requer muito controle executivo. Você está andando e pensando em outra coisa, cozinhando e com a cabeça bem longe, fazendo uma tarefa automática no trabalho e relembrando a lista de coisas a resolver em casa.

Já quando estamos fazendo coisas que pedem mais esforço cognitivo, como a leitura ou a solução de um problema, é um momento menos propício à divagação e, se ela acontece, atrapalha a tarefa principal. Ou seja, no meio de uma reunião ou de uma aula, quando sua mente viaja, você já não presta atenção no conteúdo ali exposto.

Os especialistas dividem as 'viagens' do cérebro em dois tipos: a divagação consciente e deliberada e a divagação inconsciente.

"A deliberada é aquela que acontece quando você está fazendo algo em que não precisa prestar atenção e começa a pensar em outra coisa ou então está assistindo a algo chato ou está cansado, e você desliga e começa a pensar no que vai comer ou no que vai fazer depois dali. Essa é normal e todos temos", explica Paulo Mattos, coordenador de neurociências do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino. "A outra é a que acontece quando você não quer e você não consegue fixar a atenção. Este tipo de divagação, quando você não tem controle, é um problema."

Veja abaixo três casos em que deixar a mente voar é benéfico, e quando é preciso ter atenção.

  • Denis Freitas / VivaBem

    Diante de um problema difícil

    Um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia e do Instituto Max Planck publicado em 2012 sugere que fazer tarefas simples que estimulam a divagação pode ajudar a encontrar novas soluções para problemas. Na pesquisa, 145 pessoas tinham dois minutos para listar usos possíveis e incomuns para objetos corriqueiros, como um tijolo. As respostas eram posteriormente avaliadas usando um índice de pensamento criativo. Os participantes eram, então, divididos em quatro grupos. Para três deles, as pessoas fariam uma pausa de 12 minutos em que: um grupo recebeu uma tarefa que exigia atenção cognitiva; o segundo tinha de realizar uma tarefa simples; o terceiro usaria o tempo para descansar. O quarto grupo não fez pausa. Os quatro grupos foram novamente testados para dar respostas criativas aos mesmos objetos. O resultado foi que as pessoas do grupo que fizeram uma pausa com tarefas simples, que estimulava o desenvolvimento de pensamentos aleatórios, tiveram o melhor resultado no segundo teste de resolução de problemas. O grupo que não fez pausa entre os dois testes teve um resultado pior no segundo experimento do que no primeiro. Com isso, os pesquisadores concluem que desenvolver pensamentos não-relacionados com a questão durante uma tarefa menos cognitiva "facilitam a resolução criativa de problemas".

  • Denis Freitas / VivaBem

    Divagar em tarefas repetitivas

    Deixar a mente viajar pode ser especialmente interessante, e produtivo, em trabalhos repetitivos. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia aponta que, em um teste com mais de cem pessoas que deveriam repetir a mesma tarefa dezenas de vezes, os participantes que relataram ter mais momentos de divagação durante o experimento tiveram melhor desempenho e foram mais rápidos. A hipótese dos cientistas é que desviar a mente brevemente da tarefa sirva como uma espécie de pausa mental, que permite ao cérebro voltar mais focado ao trabalho na sequência.

  • Denis Freitas / VivaBem

    Fantasiar para fazer melhores planos

    No momento da divagação, o cérebro ativa áreas ligadas ao planejamento e a pensamentos autocentrados. Isso permitiria melhorar os planos para o futuro e criar objetivos mais concretos. Uma pesquisa feita na Universidade de York e publicada em 2016, indica que em um teste com cem pessoas, aqueles que declararam ter mais momentos de divagação ao longo do experimento eram os que conseguiam descrever seus objetivos de vida de maneira mais clara e com planos de como realizar seus objetivos. Para os cientistas, esse resultado estaria relacionado com o exercício de projetar o futuro feito com frequência em momentos em que o cérebro viaja. Como se essa desconexão da realidade naquele momento, permitisse criar planos mais concretos para a vida real.

  • Denis Freitas / VivaBem

    Falta de controle é o botão de alerta

    Se as divagações acontecem de maneira recorrente quando elas não deveriam, e a pessoa não se sente mais no controle, é hora de procurar um médico, alerta Paulo Mattos. O neurocientista explica que muitas vezes a divagação problemática vem associada à depressão, e não apenas ao TDAH (Transtorno por Deficit de Atenção e Hiperatividade). Mattos e sua equipe estudam a relação entre depressão e falta de atenção. "Cerca de 70% dos pacientes diagnosticados com TDAH sofrem também com ansiedade ou depressão, e muitas vezes ele está medicado para o deficit de atenção. No entanto, se o paciente de depressão com queixa importante de divagação estiver tomando o remédio para TDAH [como ritalina], isso não vai resolver seu problema". Daí a importância de uma investigação cuidadosa do problema antes de um diagnóstico, lembra Mattos.

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