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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Aumentam os divórcios pós-quarentena: como manter essa convivência saudável

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Imagem: iStock

Simone Cunha

Colaboração para o VivaBem

27/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • O isolamento social nos obriga a permanecer em casa, convivendo com entes mais próximos
  • O próprio confinamento é uma situação geradora de estresse e isso pode se agravar com comportamentos das pessoas que vivem conosco
  • É fundamental aplicar regras de convivência para conseguir cumprir o isolamento social
  • É saudável criar rotinas individuais e coletivas que respeitem essa individualidade e as necessidades de cada um

Com a quarentena, chamou a atenção a notícia sobre o aumento de divórcios em uma cidade da China, após o término do período de isolamento. De fato, a regra de ficar em casa parece simples e fácil de ser executada, mas de repente passamos de pessoas livres para confinados, como se estivéssemos em um reality show. Os programas de entretenimento com tanta audiência mostram bem como é difícil conviver em um espaço confinado e a dica é fazer justamente o oposto do que adoramos ver: o circo pegar fogo!

"Nesses programas, normalmente são fomentadas as desavenças. Mas também são criadas oportunidades interessantes de interação", diz Claudio Paixão, doutor em Psicologia Social e professor da Escola de Ciência da informação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). E é justamente isso que devemos fazer: manter a rotina, mas complementando-a com atividades interativas e envolventes que possam rompê-la.

Por que é tão penoso?

O isolamento social nos obriga a permanecer em casa, convivendo em geral com aqueles entes mais próximos: pais, irmãos, filhos, cônjuges. Segundo Paixão, os conflitos sempre existiram, mas as saídas realizadas no dia-a-dia diluem isso. "Mas podem ser reforçados na convivência conjunta", completa. Portanto, não fique triste se essa proximidade parece tão difícil mesmo que tenha enorme afeto por sua família.

Além disso, o próprio confinamento é uma situação geradora de estresse. "A impossibilidade em manter a rotina provoca esse desconforto, por isso ninguém precisa ficar colado o tempo todo, mas procurar se ajudar mutuamente", sugere Terezinha Féres-Carneiro, professora titular do departamento de Psicologia da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

Dividindo o mesmo espaço

Essa é uma situação inusitada, que nos leva a entender o que está por vir e buscar superação. Por isso, é fundamental aplicar regras de convivência para conseguir cumprir o isolamento social sem que o fardo pareça tão pesado. "É importante compreender que sempre alguém pode se sentir mais angustiado, e nessa hora os demais podem dar apoio. Será um período de troca e de um cuidar do outro", fala Nelson Fragoso, professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Respeitar o espaço alheio também é essencial. No cotidiano, fica mais fácil fazer essa divisão, afinal nem sempre estão todos em casa. "Agora é preciso que este espaço seja reinventado, realizando alternâncias necessárias e preservando a ordem", analisa Paixão.

Se a pessoa é bagunceira, mas conta com alguém para organizar isso, é preciso ter mais atenção. Isso pode atrapalhar quem está dividindo o mesmo local. Se um está trabalhando, outro pode jogar videogame com fone de ouvido. "Paciência, compaixão e atitudes de gratidão são exercícios importantes para o período, pois isso minimiza criticas e reclamações", considera Mariângela Savoia, psicóloga clínica do Programa Ansiedade do IPq do HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Portanto, apostar em um revezamento de tarefas básicas como cozinhar, lavar e limpar o ambiente pode ser importante para manter todos ocupados e não estressar ainda mais aquele que, geralmente, é o responsável por essas tarefas corriqueiras.

Cada um no seu quadrado

Mas, o fato de estarmos juntos também não significa ter de estar junto em tempo integral. "É saudável criar rotinas individuais e rotinas coletivas que respeitem essa individualidade e as necessidades de cada um", alerta Paixão. Neste caso, cada um pode manter suas preferências e hobbies para ocupar o tempo como ler, ver filme, praticar atividade física, criar receitas, fazer artesanato. Enfim, cada um vai buscar preencher o seu dia para mandar pra longe a ansiedade e a angustia.

E é válido lembrar que nos primeiros dias parece mais fácil arrumar o que fazer. Com o passar do tempo, até o que a gente mais gosta começa a ficar tedioso. "A própria imprevisibilidade da situação provoca isso, portanto é natural uma oscilação emocional", dia Savoia. E é nesse momento que o suporte familiar irá nos salvar.

Empatia é palavra-chave

Com quem precisa trabalhar remotamente, com o adolescente que não pode estar com os amigos, com a criança que não pode brincar ou o idoso que não pode dar aquela voltinha pelo bairro. "As características individuais ficam mais acirradas e é importante criar estratégias para vencer essa fase, pois sairemos com uma condição nova e posturas desenvolvidas para lidar com a vida lá fora", garante Paixão.

Tentar manter uma convivência harmônica é uma regra importante. Assim como relacionamento difíceis poderão ser exacerbados. "Não é momento para picuinhas, mas tentar resgatar o que há de bom: ver um filme, ler, rever fotografias antigas, jogar, preparar o almoço juntos. Cada família precisa resgatar o que tem de melhor", diz Savoia.

Afinal, vivemos uma preocupação dupla: ficar doente e passar a doença para um ente querido. Por isso, ficar ligado nos noticiários em tempo integral é um veneno para a saúde mental. Procure manter-se informado, mas não fique refém disso. "A afetividade foi transportada para a fala e os gestos de carinho, menos atitudes físicas", diz Paixão. Mas assim como todas as fases difíceis, essa também vai passar!

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