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Clima tropical não protege contra o coronavírus, como disse Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento exibido em rede nacional - Isac Nóbrega/PR
O presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamento exibido em rede nacional Imagem: Isac Nóbrega/PR

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

25/03/2020 15h12

Em um pronunciamento feito ontem (24), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) usou o clima como um dos argumentos para que a crise do novo coronavírus seja menor no Brasil, em comparação com a Itália, país mais atingido pela pandemia (mais de 7.500 mortes).

Segundo ele, a mídia espalhou "a sensação de pavor, tendo como carro-chefe o anúncio do grande número de vítimas na Itália. Um país com um grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso".

Essa não foi a primeira vez que o presidente citou o clima tropical como um fator de proteção do país ao vírus. Ele também comentou em uma coletiva à imprensa, feita no dia 18 de março: "Hoje temos informações, por ser um clima mais tropical, estamos aí praticamente no final [sic], ou já acabou aí [sic], o verão, e o vírus não se propaga com essa velocidade em climas quentes como o nosso."

A relação, entretanto, entre a temperatura e a umidade de um local, por exemplo, e a taxa de propagação do coronavírus ainda não tem uma base sólida científica.

Uma análise feita por cientistas do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos, mostrou que 90% das transmissões até 22 de março ocorreram em regiões com temperatura entre 3 e 17°C. Mas os próprios pesquisadores concluíram que os resultados ainda são baseados em dados incertos e que, portanto, a possível relação entre o clima e os casos de coronavírus não deve levar as lideranças políticas e o público à acomodação.

"Nossos resultados de forma alguma sugerem que 2019-nCoV não se espalharia em regiões úmidas e quentes. Intervenções eficazes de saúde pública devem ser implementadas em todo o mundo para diminuir a transmissão".

20.03.2020 - Vista aérea da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, esvaziada em função do temor de coronavírus - Mauro Pimentel/AFP - Mauro Pimentel/AFP
Vista aérea da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, esvaziada em função do temor de coronavírus
Imagem: Mauro Pimentel/AFP

Em uma entrevista ao jornal The New York Times, Qasim Bukhari, cientista computacional do MIT e coautor do estudo, disse que "temperaturas mais altas podem tornar esse vírus menos eficaz, mas a transmissão menos eficaz não significa que não há transmissão".

Ponto é questionável

A eficácia da transmissão em climas temperados inclusive é algo questionável. De acordo com Luciana Costa, diretora adjunta do Instituto de Microbiologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e do Laboratório de Genética e Imunologia das Infecções Virais, o que acontece, na verdade, é que no frio as pessoas tendem a se aglomerar e isso facilita a transmissão.

"Mas em termos do número de transmissão de um infectado para outros não infectados, a relação com o clima não tem absolutamente nada a ver. Não existe base científica para falar isso."

Segundo Costa, a prova disso é que no Brasil, mesmo com temperaturas mais quentes, como as notadas no Nordeste, há casos de resfriados e de gripe. "Você tem surtos dessas doenças respiratórias porque o vírus está se espalhando."

O virologista Jônatas Santos Abrahão, professor de microbiologia no Laboratório de Virus do ICB/UFMG (Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais), diz que o próprio Ministério da Saúde e diversas Secretarias de Estado de Saúde já declararam circulação comunitária do vírus no Brasil, e que temos casos em todos os estados.

"Logo, efetivamente o vírus já está circulando e já se espalhou pelo país, mesmo em temperaturas ainda elevadas, incluindo nossa faixa tropical do território", diz. Abrahão ainda diz que o brasileiro tem o hábito de tocar amigos e familiares com frequência, facilitando a transmissão direta do vírus. "Neste contexto, a temperatura é irrelevante para a transmissão."

Costa afirma que o problema maior é a aglomeração. Em um clima temperado, a probabilidade de contaminação aumenta por causa da maior aglomeração em locais fechados. "Mas se você tiver uma aglomeração num local aberto, mesmo com as temperaturas do nosso outono, final de verão, e mesmo durante o verão, você vai ter espalhamento da doença", diz.

Em sua fala no pronunciamento de ontem, Bolsonaro questionou o distanciamento social e o fechamento de escolas, contrariando as medidas recomendadas desde janeiro pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para frear o vírus. Nesta quarta-feira (25), o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, fez um apelo para que governos em todo o mundo entendam que a ameaça é para "toda a humanidade".

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