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Coronavírus: pânico global não é justificado, dizem especialistas

Do VivaBem, em São Paulo

10/03/2020 13h34Atualizada em 18/03/2020 12h31

Esta reportagem foi publicada em um momento em que os casos de coronavírus estavam só começando no Brasil e os especialistas alertavam que isso ainda não era motivo para pânico. Agora, a situação mudou. A recomendação de não entrar em pânico segue válida. Mas a preocupação com a covid-19 é mais do que justificada e devemos redobrar os cuidados para evitar que doença se espalhe, cause um colapso no sistema de saúde e gere graves problemas às pessoas, especialmente as do grupo de risco.

Enquanto os casos de coronavírus continuam a aumentar no mundo todo (no Brasil, já são mais de 30), também conseguimos ver uma crescente ansiedade e até um certo pânico surgindo no comportamento das pessoas.

Isso fica evidente, por exemplo, no aumento vertiginoso na busca por máscaras cirúrgicas —no Brasil, a Anahap (Associação Nacional de Hospitais Privados) estima que o valor desses acessórios cresceu até 569%; na China, epicentro da doença e que tem até a última atualização mais de 80 mil casos confirmados (com mais de três mil mortes), o desespero foi tamanho que as pessoas começaram a improvisar máscaras com sacolas plásticas e até galões de água.

E não para por aí. Da Europa e dos EUA chegam imagens de pessoas esvaziando prateleiras de supermercados. A Itália impôs quarentena em todo o seu território em uma tentativa de barrar a proliferação do vírus, e diversos países europeus fecharam universidades e escolas.

Congressos médicos estão sendo cancelados e empresas como Google, Facebook e Twitter desistiram de participar de grandes eventos de tecnologia (que acabaram cancelados também) por conta da ameaça do vírus. No Irã, 27 pessoas morreram por ingerir álcool adulterado com a promessa de ficarem livres do vírus.

Taxa de mortalidade

Mas, diante do que sabemos até aqui, a reação parece desproporcional. Vejamos: globalmente, o coronavírus já causou a morte de mais de quatro mil pessoas desde o seu surgimento, no final de 2019. A taxa de mortalidade da doença, no entanto, não é considerada alta: o último panorama da OMS (Organização Mundial da Saúde) indica que os óbitos correspondem a 3,4% dos infectados (um número que pode e deve mudar nos próximos meses).

Já especialistas que assinaram recentemente um artigo no respeitado periódico The New England Journal of Medicine presumem que, como o número de casos assintomáticos ou que apresentam sintomas mínimos e não vão ao médico é muito maior do que o de casos confirmados, a taxa de mortalidade da doença pode ser menor do que 1%. Apesar de 10 vezes maior que a taxa de uma gripe (que tem letalidade de 0,1%), esse número não é tão assustador quanto a taxa de doenças como a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e a MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio).

Para se ter uma ideia, a epidemia de SARS, que ocorreu em 2002 por conta de um outro tipo de coronavírus, teve uma taxa de mortalidade de 9,63% (com 813 óbitos e 8.437 casos). Já a epidemia de MERS, também causada por um coronavírus em 2012, fechou sua taxa de mortalidade em 34,45% (com 2.494 casos e 861 mortes). Ambas, no entanto, não se espalharam pelo planeta como vem sendo observado com a covid-19.

Vale lembrar também que, embora as pessoas mais idosas e com outros problemas de saúde (especialmente condições cardíacas, diabetes e problemas renais e respiratórios crônicos) estejam mais vulneráveis às complicações graves relacionadas ao coronavírus, a grande maioria dos infectados desenvolve sintomas leves e pode se recuperar em casa sem grandes complicações. Alguns, aliás, nem chegam a procurar ajuda médica, já que não desenvolvem sintomas.

E, no entanto, continuamos a observar cada vez mais uma sensação de pânico generalizado. Por quê?

"Pânico é o medo sem informação"

Uma das explicações para esse sentimento de medo exacerbado é a forma como o coronavírus se apresentou: uma doença respiratória (o que, por si só, já gera preocupação) misteriosa que provocou uma epidemia de pneumonia na China e deixou diversos pacientes (especialmente os idosos) em estado crítico.

"As pessoas se assustaram com a rapidez com quem a situação evoluiu e também com as mortes, outro fator que sempre causa comoção", acredita Hélio Bacha, infectologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Esse quadro de insegurança ganhou ainda mais força pela facilidade com que o vírus se espalha —como sua apresentação pode ser assintomática ou com sintomas de uma leve gripe, alguns pacientes podem adquirir o vírus e não saber. Mesmo assim, o especialista acredita que não há motivo para desespero. "O pânico é o medo sem informação, e isso [informação] é o que mais temos atualmente", acredita. "Nunca vi uma epidemia tão bem estudada e documentada como a do coronavírus", afirma.

Respostas rápidas

Embora a China tenha demorado a lidar com a crise sanitária (o primeiro médico a dar o alarme sobre a doença, que morreu em decorrência dela, chegou a ser preso pelas autoridades chinesas por supostamente ter mentido sobre a existência de um novo vírus), a resposta global à epidemia tem sido considerada bastante eficiente —reforçando a ideia de que não há necessidade para pânico.

No Brasil, por exemplo, uma colaboração com colegas britânicos permitiu que um time de cientistas, coordenados pela médica Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP (Universidade de São Paulo), conseguisse sequenciar o genoma do vírus no país em apenas 48 horas. Isso só foi possível graças à tecnologia de sequenciamento que vem evoluindo por aqui com trabalhos dedicados ao vírus zika.

Doutora em biologia celular e estudiosa do zika, Rafaela da Rosa Ribeiro estava em Milão realizando uma colaboração para seu projeto com um grupo de virologistas do Hospital San Raffaele quando o coronavírus atingiu a Itália em cheio. Acabou, então, se envolvendo com duas iniciativas do time local para ajudar a entender melhor como o covid-19 vem se espalhando por aquele país.

Para ela, a principal razão pela qual o coronavírus provoca tanto medo é a novidade. "Ainda estamos descobrindo como ele se comporta e se o cenário global irá piorar ou se estabilizar", explica. "Esse pânico é quase inevitável diante dessas expectativas", acredita.

Mesmo assim, as respostas estão chegando de forma rápida. Ribeiro afirma que os cientistas já entendem que, por enquanto, a taxa de mutação é baixa. "O vírus da Itália é diferente do que circulou na China. Isso não significa que é mais ou menos perigoso, mas é uma informação relevante para pensar em vacinas e medicamentos que sejam efetivos para todo o mundo", diz.

E, embora o isolamento da Itália seja dramático e crie ainda mais expectativa em relação ao futuro da epidemia, a medida é vista como acertada pela especialista. "O país tem uma grande população de idosos, que é o público mais afetado e que tem puxado a taxa de mortalidade pela doença para cima", diz. "É difícil, principalmente porque ficamos muito solitários em uma cidade como Milão, mas é necessário para tentar não sobrecarregar o sistema de saúde", acredita.

Isso porque, diferente da gripe comum, em que o desfecho (recuperação ou morte) acaba se concretizando em cerca de duas a três semanas, o coronavírus tem um período de recuperação que pode chegar a seis semanas —e muitos pacientes precisam de aparelhos para ajudar na respiração.

"Epidemias são intensas e dramáticas"

Para Christiane Maria Cruz de Souza, especialista em história das epidemias e políticas de saúde na Bahia e membro do Núcleo de Tecnologia e Saúde do IFBA (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia), o ritmo constante de informações que não param de chegar pelo noticiário, embora necessário, também contribui para deixar as pessoas em estado de alerta constante.

"A velocidade com que se espalhou e o número de mortes, tudo isso assustou as pessoas. Elas sentem que estão perdendo o controle, e isso afeta suas vidas", acredita.

Segundo ela, é possível ver algumas semelhanças com o período da gripe espanhola, doença causada pelo vírus de subtipo H1N1 que assolou o planeta no início do século 20 e causou entre 50 e 100 milhões de mortes entre 1918 e 1919 no mundo todo.

"Nem os médicos sabiam o que fazer. Na época, especulou-se que era um vírus novo", lembra. Assim como vemos hoje, as pessoas também entraram em pânico diante do "misterioso" vírus que, descobriu-se depois, era apenas uma forma da gripe comum. "Epidemias são assim, intensas e dramáticas", afirma.

Informação é a melhor aposta

Se por um lado, a novidade da doença é o que provoca tanta comoção, por outro, o conhecimento de outros vírus tão ou mais letais que o coronavírus nos passa uma falsa sensação de segurança. É o caso da gripe, um vírus (e subtipos) já conhecido, que costuma circular mais no inverno e que já tem não apenas tratamento como até uma vacina disponível.

O mesmo acontece com a dengue, que provocou 782 mortes em 2019 e teve mais de 1,5 milhão de casos notificados (um recorde histórico), segundo o Ministério da Saúde; ou até o sarampo, que tem uma taxa de transmissão alta (uma pessoa pode transmitir a doença para uma média de 12 a 18 pessoas) e que voltou a provocar preocupação no Brasil pela falta de cobertura vacinal em 2019.

"Não saber como ele vai se comportar no Brasil e pensar que é um vírus que viaja pelo mundo assusta", acredita o infectologista João Prats, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo. "Mas é importante lembrar que os sintomas que ele provoca não são tão diferentes de outros vírus já conhecidos que provocam síndromes respiratórias", avalia.

Ou seja, mesmo que a epidemia avance no país, há tratamentos e recursos disponíveis e já conhecidos para tratar os sintomas provocados pela doença. Isso, em tese, reduziria as chances de enfrentarmos uma quarentena como a que está sendo vista na Europa. E, diferentemente do que aconteceu com Itália e China, o número de casos no Brasil não está aumentando de forma abrupta dia após dia.

Ele lembra ainda que alguns fatores fazem com que o prognóstico para o Brasil não seja tão catastrófico. "O clima quente e a população mais jovem são pontos que favorecem um cenário mais leve por aqui", acredita.

Assim, nesse momento, o mais importante é manter a calma e acompanhar os desdobramentos e novas descobertas, mas sempre mantendo em mente que a situação não é tão grave —ou possivelmente teremos que pagar um preço muito maior do que aquele que a ameaça do vírus impõe.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, o estudo científico não afirma que a taxa de letalidade do coronavírus (menor que 1%) será igual a da gripe (0,1%) e, sim, que a taxa ficará mais próxima do vírus da gripe do que a taxa de letalidade de outras condições como a SARS (9%) e a MERS (34%).

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