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Rejuvenescimento vaginal reduz dor e infecções (e não é cirurgia estética)

Com o tempo a mucosa da vagina atrofia e o rejuvenescimento ajuda a minimizar problemas causados por isso - iStock
Com o tempo a mucosa da vagina atrofia e o rejuvenescimento ajuda a minimizar problemas causados por isso Imagem: iStock

Lúcia Helena de Oliveira

Colaboração para o VivaBem

29/11/2019 04h00Atualizada em 29/11/2019 19h25

Resumo da notícia

  • Com a falta do hormônio estrógeno após a menopausa, a mucosa dos genitais femininos fica de fato atrofiada, se machuca e pega doenças à toa
  • Os principais sintomas são irritação, coceira, secura vaginal, mudança de odor, palidez na região, dor na hora de transar e infecções urinárias
  • O tratamento padrão seria repor o estrógeno perdido. Hidratantes vaginais e lubrificantes não resolvem, mas costumam ser bons paliativos
  • Aplicações de laser podem ser mais eficazes do que a própria reposição para deixar a mucosa novamente espessa, hidratada e cheia de vasos
  • As plásticas de rejuvenescimento vaginal, ou ninfoplastias, não agem em nenhum desses sintomas e, atenção, podem até agravar de vez a situação

Não tem jeito: na mesma velocidade com que os ovários vão deixando de produzir o hormônio estrógeno com o passar do tempo, a mucosa das partes íntimas femininas atrofia. Não acontece só com a vagina, que seria estritamente o canal por onde pode ocorrer a penetração. Aliás, bom a gente aproveitar para consertar um engano corriqueiro, isto é, essa mania que as pessoas têm de chamar por esse nome o conjunto da obra, que inclui a vulva, a parte externa e visível, com seus grandes e pequenos lábios, mais o clitóris. Ora, vagina é vagina. E vulva é vulva. Portanto, também não deixa de ser inexato falar em rejuvenescimento vaginal, já que as maiores interessadas querem mais é remoçar o todo. E, sim, é até possível. Mas, nesse território, todo cuidado é pouco.

E já que estamos falando na maneira correta de chamar as coisas, o problema aqui é a síndrome genito-urinária da pós-menopausa. Fica a dica de que, quando a medicina fala em síndrome, é logo um pacote de encrencas. No caso, a começar pelo que acontece com a tal da mucosa, que perde uns 5% de suas células. Isso já faz uma falta danada. "A redução acontece principalmente na camada superficial, que fica fina e capaz de se rasgar feito um papel", descreve a ginecologista Neila de Góis Speck, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Ela deu a aula sobre mitos e verdades do rejuvenescimento vaginal —e das redondezas — no Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, realizado em Porto Alegre, onde também apresentou o resultados do tratamento feito com laser.

O que acontece com a idade, na intimidade

Uma pele assim tão fininha se machuca à toa. Imagine então na hora do sexo! São tantos pequeníssimos ferimentos que, mesmo quando são praticamente invisíveis, tudo acaba ardendo, coçando, pinicando. E a sensação piora, claro, se aparece uma infecção no pedaço. Essa probabilidade não é das menores. Não só pelos rasgos minúsculos — rechas que deixam a mucosa bem vulnerável —, mas por outra mudança, a do pH do ambiente.

Speck explica: "As células superficiais da mucosa vaginal produzem glicogênio, que é um açúcar. Este é transformado pelos bacilos de Doderlein, que vivem por ali, em ácido lático. Daí, a acidez da região". Só que eis o ponto: com menos glicogênio disponível, a população desses bacilos protetores cai e, consequentemente, a produção do tal ácido também. "Então, o que se vê é um completo desequilíbrio da floral local. A mulher começa a ter infecções e até o seu cheiro muda", diz a médica. Isso porque, nesse habitat mais alcalino, crescem bactérias nocivas, que já estavam presentes, mas que até então viviam sempre sob controle — a E. coli é uma delas.

Outra mudança provocada pela falta do estrógeno: diminui a vascularização. Eis a razão daquela vulva — e a vagina junto, claro —, que um dia já foi rosada, ficar totalmente pálida. Ou, em outro extremo, com áreas bem rubras, um tom que entrega inflamações nada agradáveis. Pode ainda ficar cheia de pontinhos, que os médicos chamam de petéquias: "São, na verdade, hematomas minúsculos. Afinal, vale repetir, tudo ali está fragilizado e qualquer coisinha já causa traumas", conta a professora Speck.

Acabou? Que nada! Síndrome que é síndrome nunca é pouca bobagem: a mulher pode ainda sentir dor ao fazer xixi. Fácil entender o motivo: no embrião, o mesmo tecido que forma a vagina dá origem à uretra. Portanto, estamos falando de estruturas que, sob esse ponto de vista, são gêmeas. Se uma sofre com a carência do hormônio feminino, a outra pena junto.

"No caso, as fibras de colágeno ao redor desse canal por onde passa a urina ficam frouxas, como um elástico velho que perde a tensão", descreve Speck que, bom completar, também é a presidente da comissão especial do trato genital inferior da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia). O resultado dessa frouxidão, somada à mucosa vulnerável, é a tendência a incontinência e infecções urinárias recorrentes.

Finalmente, devido àquela diminuição dos vasos, a vagina transuda menos, ou seja, perde menos água pelos seus poros, ficando cada vez mais seca. A pele, que já estava finíssima, torna-se quebradiça de vez. Pode até sangrar durante o sexo que, evidentemente, deixa de ser a atividade mais prazerosa do mundo. Qual a saída?

Quais os tratamentos disponíveis na farmácia

É claro que, se a situação é provocada pela falta de estrógeno, o tratamento padrão seria a reposição desse hormônio na circulação sanguínea ou até por meio de aplicações de gel bem no local. Mas não é toda paciente que se beneficia —algumas mulheres com a síndrome genito-urinária da pós-menopausa simplesmente não respondem ao hormônio.

Já outras não querem ou de fato não podem fazer a reposição por ela estar associada a um ligeiro aumento no risco de câncer de mama — mas existem tratamentos hormonais específicos que são muito seguros. E, no caso dos cremes vaginais com hormônios, existem ainda mulheres que simplesmente não gostam da ideia de usá-los todo santo dia. Mais: usá-los para sempre, pois o tratamento precisa ser contínuo, sem trégua.

Entre as alternativas à reposição —que não resolvem a causa, mas que são bons paliativos — está o uso de hidratantes vaginais. Eles aumentam o teor de água no tecido e, logo, favorecem a bendita transudação, deixando tudo úmido como em outros carnavais. De novo: é para quem não se incomoda em usar cremes na vagina, já que a dose deve ser repetida a cada três dias, mais ou menos.

Os lubrificantes, por sua vez, não servem para recuperar a umidade local, mas facilitam o deslizar na hora do sexo. E, aí, o risco de o atrito provocar machucados e acabar com a graça, diminui um tanto.

O laser e outros tratamentos com energia

Tecnologias como a radiofrequência, o ultrassom e o laser —este, aparentemente com melhores resultados — têm o mesmo princípio. Ou seja, todas descarregam energia na mucosa atrofiada, que reage ao aquecimento reorganizando suas células.

"No caso do laser, é como se ele fizesse inúmeros furos microscópicos que funcionam como pontes, levando essa energia para o tecido conjuntivo mais embaixo", descreve Speck. Então, há o estímulo das chamadas proteínas de choque de calor, as quais são responsáveis pelo aparecimento de novas fibras de colágeno e de substâncias que favorecem a hidratação da mucosa. Também surgem novos vasos sanguíneos.

No congresso, Neila Speck apresentou um trabalho realizado com sua aluna, Paula Pallone, na Unifesp. A pesquisa chamou a atenção porque, em geral, todos os estudos sobre as tecnologias usadas no rejuvenescimento vaginal usam questionários subjetivos —e, ok, de fato, por meio deles dá para saber que as pacientes se sentem melhor após as aplicações. Mas o que poderia ser visto para valer no microscópio? Até que ponto a melhora com essas terapias não seria apenas uma mera impressão? Era preciso tirar essa dúvida.

Além dos questionários, a professora e sua aluna realizaram biópsia antes, 30 dias e 60 dias depois do tratamento com o laser para ver se havia uma real diferença. Mais do que isso, 12 mulheres foram tratadas com laser e outras 12, com a reposição do estrógeno perdido, para que fosse possível fazer uma comparação entre os dois tratamentos. Ambos melhoraram bastante o estado da mucosa das participantes. Mas o laser, quem diria, levou a um espessamento ainda maior da camada superficial.

De quebra, graças às novas fibras de colágeno, tudo ficou, digamos, mais firme. Para completar, com a regeneração das células —e, portanto, com mais glicogênio virando ácido lático —, a flora vaginal também se normalizou. Notou-se a diminuição das bactérias causadores de doenças e a proliferação dos bem-vindos bacilos de Doderlein. A secura da mucosa igualmente se resolveu.

Como é o rejuvenescimento a laser

Speck já era considerada uma das grandes especialistas no uso do laser na ginecologia, estudando esse tipo de terapia em lesões como as do HPV. Ao cogitar o estudo do rejuvescimento, ela foi buscar na Itália e em San Marino —onde existe a maior expertise em laserterapia para atrofia vaginal — as bases do conhecimento nessa área. Segundo ela, o protocolo médico determina três sessões com intervalo de 30 dias entre elas. "Mas, já a partir da primeira aplicação do laser, as pacientes relatam de 70% a 90% de melhora nas queixas", afirma.

O efeito do tratamento pode durar, conforme o organismo de cada uma, de um ano a 18 meses. Depois desse período, é preciso uma única sessão anual para a manutenção.

As sessões são rápidas: duram cerca de 10 minutos. Para o procedimento na vagina, o ginecologista introduz um transdutor com a ajuda de um gel para evitar desconforto. O equipamento lembra aquele que é usado no ultrassom transvaginal. "A vagina não tem sensibilidade para o aquecimento promovido pelo laser, de maneira que, ali, a paciente não sente nada", diz a professora.

Na vulva, porém, a história é outra. Muitas mulheres reclamam da sensação dolorosa, feito pequenos choques, a cada disparo do laser. Na Itália, observa a médica, o tratamento é feito de boa, mas as brasileiras parecem ter um limiar de dor mais baixo. Por isso, aqui a aplicação costuma ser realizada com anestésico local.

Aliás, no primeiro dia, a região fica bem sensível. "Recomendo compressas geladas de água ou até mesmo de chá de camomila para aliviar a ardência", diz a ginecologista. Pode surgir, ainda, um corrimento rosado —ele é normal. Seria ótimo se a paciente conseguisse passar um hidratante específico com ácido hialurônico, capaz de potencializar o estímulo para a formação do colágeno. Algumas mulheres, porém, reclamam que o creme piora o ardor. Então, fica como medida opcional.

Em 24 horas, no entanto, os furinhos feitos pelo laser se fecham. Aí, embora alguns especialistas recomendem até uma semana sem sexo só para evitar um ou outro desconforto, sim, a rigor já possível transar. E é até bom evitar a abstinência. "Falando muito sério, um dos fatores que agravam a atrofia é a falta de vida sexual ativa. Como qualquer outro tecido, o dos genitais femininos precisa de uso para não atrofiar."

O engano das cirurgias plásticas

A Febrasgo tem feito um importante trabalho no sentido de alertar as mulheres sobre o engodo que costumam ser as famosas ninfoplastias — cirurgias que prometem devolver, com a ajuda do bisturi, a aparência da genitália no passado. No mínimo, essas plásticas não interferem onde o problema realmente está pegando. Se duvidar, até pioram tudo perigosamente, o que é mais comum.

Ora, quando pensamos nas mudanças que surgem com a idade, devemos nos preocupar em recuperar o aspecto funcional. Isso é, trazer de volta a umidade e o pH ácido protegendo contra infecções, tirar a dor e o cheiro diferente, acabar com sangramentos durante a relação sexual. Não há plástica que faça isso. "A operação foca apenas a estética, o que já é por si só bastante questionável. Quem disse que as mulheres precisam ter uma vulva de Barbie, toda fechadinha?", provoca Speck.

Se o bisturi fecha demais o anel na entrada do canal vaginal, aí mesmo é que a mulher sentirá dor na relação após a menopausa. Há relatos de casos em que o sexo se tornou impraticável. Pior é quando o cirurgião corta em exagero os pequenos lábios, que podem, sim, parecer ligeiramente maiores com a idade. No caso, o risco é de surgir uma bela cicatriz ou, desastre total, acontecer uma retração nos tecidos.

Outro erro é achar que esse tipo de cirurgia plástica teria um efeito preventivo, apertando tudo em mulheres jovens antes de a vagina se tornar sênior. "Isso é uma aberração, picaretagem mesmo", adverte Speck. Não existe nada que possa prevenir uma vagina de mudar com a idade. O que dá é para contornar depois. De preferência com a orientação de um ginecologista —que, vamos combinar, é o médico que sabe bem a diferença de vulva e vagina e como ambas funcionam na saúde e na doença. Melhor não entregar a sua intimidade, sem pensar duas vezes, em outras mãos.

Nota: A jornalista viajou para fazer a cobertura do congresso a convite da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

* Lúcia Helena de Oliveira é blogueira do VivaBem e jornalista de saúde há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

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