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Brasileiros regridem câncer em homem que só tinha mais um ano de vida

O tratamento altera os linfócitos T, que passam a atacar especificamente as células do câncer - iStock
O tratamento altera os linfócitos T, que passam a atacar especificamente as células do câncer Imagem: iStock

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

10/10/2019 19h00

Um grupo de pesquisadores e médicos brasileiros desenvolveu, pela primeira vez na América Latina, um tipo de tratamento que pode ser capaz de regredir boa parte dos linfomas e leucemias. No primeiro teste clínico, que está sendo realizado há um mês no FMRPUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto), o paciente selecionado apresentou remissão do câncer de linfoma não-Hodgkin, assim como o desaparecimento das dores e dos sintomas.

O objetivo dos cientistas é que a terapia estudada chegue ao SUS (Sistema Único de Saúde), mas ainda não se sabe em quanto tempo. "A plataforma de produção desse tratamento está madura, mas agora temos que dar andamento, testando no maior número de pacientes possível (pelo menos dez), para atingir um número de evidências e resultados adequados e, finalmente, colocar no SUS", diz Renato Cunha, médico hematologista e pesquisador associado do CTC-USP (Centro de Terapia Celular), que liderou a equipe.

Terapia celular inédita

O câncer que atingia o sistema imunológico do paciente Vamberto Luiz de Castro, 62, era muito agressivo e não respondia a tratamentos convencionais (quimioterapia e radioterapia). Como o prognóstico do funcionário público aposentado de Belo Horizonte (MG) era pessimista (menos de um ano de vida), médicos o indicaram para participar da nova pesquisa. Após sua autorização, os testes começaram.

Os cientistas coletaram uma amostra de sangue do paciente e a inseriram em uma máquina, num processo semelhante ao da hemodiálise. O equipamento filtra o sangue e separa apenas os linfócitos T (células do sistema imunológico que combatem invasores). Os pesquisadores então modificam geneticamente essas células, ou seja, inserem no DNA delas um gene que vai codificar um receptor específico daquele tipo de tumor.

"É como um sistema de chave e fechadura. Projetamos a chave (receptor) para ficar na superfície dessas células modificadas e a fechadura, no caso, são as células do câncer (antígeno)", explica Cunha. No caso de Vamberto, a fechadura se chama CD19. "Você pode usá-la para todas as doenças que tem essa mesma fechadura: linfomas e leucemias. No futuro, se trocarmos o CD19 pelo 22, por exemplo, funcionará para outros cânceres, e assim por diante. Teoricamente, qualquer tumor pode ser tratado desse jeito, mas temos que testar", diz o hematologista.

Vamberto, 62, recebeu o novo tratamento no início de setembro e seus exames indicam remissão do câncer - Hugo Caldato
Vamberto, 62, recebeu o novo tratamento no início de setembro e seus exames indicam remissão do câncer
Imagem: Hugo Caldato

O processo de modificação das células demora de 20 a 40 dias. Depois que os cientistas conseguem um bom número de células alteradas (ele deve ser superior a seis milhões de células por ml de sangue), elas são devolvidas ao paciente, por meio de uma transfusão simples de sangue na veia. "Quando elas voltam para o paciente, esperamos que se proliferem e produzam outras milhares de células iguais, que vão sendo liberadas na circulação e irão erradicar o câncer", diz Dimas Tadeu Covas, coordenador do CTC e também atual diretor do Instituto Butantan.

De acordo com Covas, todos temos uma defesa contra tumores no corpo, a diferença é que ela não é especifica a eles e vai atacar qualquer tipo de invasor de forma aleatória. "Como não tem receptor, essas células naturalmente atuam contra o câncer, mas não com receptividade. Essas que produzimos vão ter como alvo específico o tumor. Elas vão caçá-lo", explica ele.

A remissão do câncer

No dia 9 de setembro foi feita a infusão das células modificadas no Vamberto. Antes do tratamento, ele não andava, era dependente de morfin, por causa das dores (o câncer havia chegado aos ossos), apresentava febre e sudorese noturna. Três dias após a transfusão foi possível perceber os primeiros sinais de eficácia.

As células modificadas se espalham em alta velocidade e em dois ou três dias começam a matar grandes quantidades do tumor, que estava espalhado pelo corpo. Esse ataque libera citocinas, moléculas inflamatórias que, quando em excesso, fazem o paciente entrar em choque circulatório. A pressão cai e ele vai para a UTI. "Quando Vamberto teve essa reação, notamos que uma batalha estava sendo travada dentro dele", conta Covas.

Como há um remédio para combater essa inflamação, em dois dias o paciente melhorou. Ao realizarem testes, os pesquisadores descobriram que 30% das células que circulavam no sangue de Vamberto eram as modificadas. "Era um exército dentro dele combatendo a doença", diz Covas.

Os sinais do câncer começaram a desaparecer. Ele não tinha mais dor, febre e sudorese, as ínguas que antes estavam espalhadas por seu corpo começaram a diminuir. "Ontem fez um mês da infusão ele não tem mais nenhum gânglio palpável. Examinamos a medula dele (que antes era só tumor) e não há mais resquício do câncer. Todos os sinais laboratoriais mostram que o tumor regrediu", diz o coordenador do CTC.

Vamberto ainda não é considerado curado, os médicos só declaram remissão total quando o paciente está há pelo menos cinco anos sem sinal da doença. Mas os pesquisadores estão esperançosos. "Por enquanto, ele está em remissão clínica. Já está andando, começou a ganhar peso, está animado, fazendo caminhadas dentro do hospital", diz Covas. "Esse é o primeiro caso e é bem-sucedido. Esperamos que isso possa beneficiar a população", conta Cunha.

100% brasileira

O tratamento desenvolvido pelos brasileiros é muito novo. Em 2018, a FDA (Food and Drug Administration), agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos, aprovou a primeira terapia do tipo no mercado para leucemia linfoide aguda. Nos EUA e Europa, apenas a produção das células chega a custar mais de US$ 400 mil (R$ 1,6 milhão).

Como o valor é muito alto para importar a tecnologia, os cientistas receberam o apoio do Cepid (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão), pertencente à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e de outros fundos do Governo Federal, como o Pronon (Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica), do Ministério da Saúde.

"Ao todo, não usamos nem 10% dos custos que teríamos com a importação da tecnologia para fazer algo 100% nacional", diz Cunha. "E por ser tecnologia nossa, não vamos parar no CD19. Somos um serviço público e queremos que o paciente tenha acesso pelo SUS. Só não sei dizer quando isso vai acontecer".

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