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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Câncer de estômago: comer muito sal e industrializados eleva risco do tumor

O câncer de estômago é silencioso e geralmente só apresenta sinais quando está em estágio avançado - iStock
O câncer de estômago é silencioso e geralmente só apresenta sinais quando está em estágio avançado Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para o VivaBem

10/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • O adenocarcinoma é o tipo mais comum de câncer de estômago
  • A doença é multifatorial. Dieta, obesidade, sedentarismo e genética são fatores de risco
  • Como não há esquema de detecção precoce, em geral, quando é diagnosticado, o tumor já está avançada
  • O tratamento geralmente é cirúrgico e combina outras terapias
  • Quando o tumor é pequeno e localizado, as chances de "cura" são de 90%

O câncer de estômago, também conhecido como câncer gástrico, é o quinto tumor mais comum em todo o mundo. No Brasil, ele é o terceiro tipo da doença mais frequente entre os homens e é o quinto no grupo feminino, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer).

Embora a problema tenha diversas causas, está fortemente associado a uma dieta ruim, especialmente rica em alimentos industrializados e/ou em sal (sódio) e pobre em vegetais.

Conheça essa parte do seu corpo

O estômago pode ser definido como um órgão muscular em forma de feijão, situado entre o esôfago e o intestino delgado. A sua função é atuar no processo de digestão. Tudo o que você come entra no estômago por meio do esôfago. O órgão é composto por quatro partes: a cárdia, o corpo, o antro e o fundo (quanto falamos em câncer no entanto, apenas as 3 primeiras regiões são apontadas).

O que é câncer de estômago?

O câncer é uma proliferação anormal de células que podem se desenvolver a partir de qualquer tecido, inclusive no estômago. Quando essas células migram para a corrente sanguínea, pelos vasos linfáticos ou pelas cavidades, elas podem levar ao estabelecimento de uma metástase.

O que provoca a doença

As causas dos tumores gástricos são multifatoriais, isso é, podem decorrer de várias situações, desde ambientais até genéticas. Veja abaixo os fatores de risco associados ao problema:

  • Idade (é mais comum entre pessoas de 60-70 anos, embora esteja avançando entre os jovens também);
  • Tabagismo;
  • Sedentarismo;
  • Obesidade;
  • Infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori) - geralmente relacionada à falta de saneamento básico e hábitos de higiene;
  • Lesões pré-cancerosas (como gastrite atrófica e metaplasia intestinal);
  • Histórico familiar --ter parentes de primeiro grau (pai ou mãe, irmãos, tios) -- com câncer de estômago pode indicar a propensão para uma síndrome, o câncer gástrico difuso hereditário;
  • Dieta rica em sal, em conservantes como os nitratos (presentes em embutidos e outros alimentos industrializados);
  • Dieta pobre em frutas e vegetais;
  • Consumo de carnes processadas (salsicha, linguiça, hambúrguer industrializado etc.);

Os tipos de tumor no estômago

- Adenocarcinoma "É o tipo de câncer de estômago mais frequente, cuja origem são as células glandulares do revestimento gástrico", explica Ivan Cecconello, professor titular de cirurgia do aparelho digestivo da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Isso representa 95% dos casos diagnosticados, geralmente em homens com idades entre 50 e 70 anos. Já os outros tipos de tumor gástrico são considerados raros.

- Linfoma Acredita-se que a bactéria H. pylori esteja relacionada.

- Sarcoma Inicia-se nos tecidos que formam os músculos, ossos e cartilagens.

- Tumor estomal gastrointestinal (GIST): a maioria é benigna, mas pode ser agressivo.

Como reconhecer os sintomas

Em geral, quando o tumor é pequeno ele é silencioso. E caso haja algum sinal, pode se confundir com outras manifestações benignas.

Já em caso mais avançado, a depender da localização do tumor, como na parte do esôfago que liga o estômago, ou na região em que o estômago se liga ao intestino (o duodeno), podem ser notados sintomas de obstrução: náusea, vômitos, sensação de plenitude. Anemia, perda de apetite e de peso também podem ser observadas.

Qual médico procurar?

O câncer de estômago, diferentemente do câncer de mama ou do câncer de próstata, por exemplo, não tem um exame de detecção precoce.

Caso os sintomas já mostrados persistam por mais de duas semanas, é preciso procurar o médico para fazer uma investigação. O especialista pode ser um clínico geral, que será capaz de verificar os sinais de alerta, ou um gastroenterologista.

Importante lembrar que o diagnóstico precoce aumenta as possibilidades de cura.

Como é feito o diagnóstico?

Na hora da consulta, o médico ouvirá sua história e fará um exame físico (palpação), especialmente para verificar as condições da região do abdome.

Na sequência, o especialista deve solicitar uma endoscopia digestiva. Esse exame se utiliza de um tubo flexível para visualizar as condições de aparelho digestivo. Quando os sintomas já existem há muito tempo, essa requisição é considerada obrigatória.

Caso o resultado da endoscopia revele uma lesão, o exame seguinte é a biópsia (retirada de parte do tecido local para análise). Na maioria das vezes, é ela que define o diagnóstico.

A etapa seguinte prevê a requisição de tomografia computadorizada. O objetivo é conhecer a extensão da enfermidade.

Como é feito o tratamento?

A partir do resultado da tomografia, o médico terá informações que definirão as melhores estratégias terapêuticas. A cirurgia para retirada total do estômago (gastrectomia) é considerada a principal delas, o que pode abranger também gânglios ao redor do órgão e suas margens. A quimioterapia, a radioterapia e até a endoscopia (10% dos casos) podem compor o plano de tratamento.

"Importante saber que a tendência atual é que eles sejam sempre associados, isso porque cada tratamento tem um objetivo. A cirurgia age localmente e ao redor do tumor, mas não combate células circulantes, que é a função da quimioterapia", esclarece Felipe Coimbra, chefe do Departamento de Cirurgia Abdominal do A. C. Camargo Cancer Center.

Os esquemas de tratamento do câncer de estômago

O médico pode adotar as seguintes práticas, a depender do tipo de tumor:

Localizado e pequeno Geralmente, a cirurgia retira a lesão e soluciona o problema. Isso representa 10% a 20% dos casos;

Localizado, maior e tem gânglios ao redor Na maioria das vezes, há chances de existir células circulantes e desenvolvimento de metástase. Aqui, junto à cirurgia que retira total (gastrectomia) ou parcialmente o tumor, faz-se um tratamento quimioterápico (que podem ser dezenas de tipos de medicamentos e combinações). Esse tipo representa 70% dos casos.

Presença de metástase à distância Esta é a situação na qual o câncer se expandiu para outras áreas. As mais comuns são: o peritônio (a membrana que reveste os órgãos abdominais por dentro); o fígado, o pulmão e ovário (nas mulheres). Representam 30% dos diagnósticos de tumores em estágio avançado (a metástase geralmente está associada a um tumor maior, por isso a soma dos percentuais vai passar dos 100%).

Tumores inoperáveis Quando já não é possível realizar uma intervenção para retirada do câncer, a solução é o tratamento paliativo, cuja função é aliviar sintomas ou evitá-los, melhorando a qualidade de vida do paciente. Apoio psicossocial para o enfermo e sua família são essenciais.

Novos tratamentos

Nos últimos anos, novas terapias têm sido desenvolvidas para prolongar a sobrevivência de pacientes com câncer gástrico. São elas: a terapia alvo e a imunoterapia, fármacos compostos por substâncias que identificam e atacam as células cancerígenas e ajudam o sistema de defesa do corpo a reconhecer e combater o câncer, respectivamente.

"Contudo, ainda são poucos os pacientes que podem ser beneficiados por esses novos tratamentos, porque seu uso depende do tipo, da presença de biomarcadores que indiquem chance de resposta, além do estágio do tumor", relata Gabriel Prolla, oncologista clínico e professor da Escola de Medicina da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

Apesar disso, os estudos que acompanham pacientes que utilizaram essas novas terapias classificam seus resultados como promissores e ainda confirmam sua segurança e eficácia.

Depois da cirurgia, posso ter um novo câncer?

Um dos desafios dos oncologistas é tentar entender o grau do avanço da doença e, com base nessa informação, avaliar a probabilidade de uma metástase se desenvolver.

Para garantir que células tumorais que continuam circulando pelo corpo sejam detidas, indica-se a quimioterapia antes ou depois de uma cirurgia. Apesar dessas providências, pode ocorrer uma recidiva.

Em geral, não se trata de um novo tumor no estômago, mas de um tumor à distância, ou seja, uma metástase. Isso porque é comum que o órgão tenha sido retirado. Esse quadro costuma acontecer nas síndromes hereditárias.

Quais são as chances de sobrevivência?

Muitos fatores estão envolvidos nessa estimativa. Quando a cirurgia e a combinação de tratamentos foram adequadas e o tumor estava em seu estágio mais inicial, a chance de sobreviver é de 90%. Nos demais casos, o prognóstico dependerá do quanto o câncer penetrou no estômago ou em outras partes do corpo.

Como vou comer após a cirurgia?

O principal impacto na vida diária são as mudanças na dieta. A reabilitação alimentar é uma das primeiras fases do período pós-operatório, e a ajuda de uma nutricionista é essencial.

Esse apoio serve para desmistificar crenças sobre alimentação. Ao contrário do que se pensa, quem passou por uma cirurgia como essa poderá comer de tudo, respeitadas as particularidades de cada indivíduo.

Na maioria das vezes, ocorre a retirada total do estômago e se faz uma ligação entre o esôfago e o intestino delgado. Sem o órgão que servia de reservatório, a quantidade do que se come é reduzida. Consequentemente, o peso também, o que é normal e esperado. O papel do nutricionista é auxiliar no controle dessas perdas.

O que entra no cardápio pós-cirúrgico

A reintrodução alimentar é gradual e parte de itens líquidos, passa pelos pastosos, até chegar à dieta normal, devendo ser evitados itens que fermentam (feijão, por exemplo) para prevenir desconforto no abdome, gases e sensação de empachamento.

Um detalhe é a mastigação, que passa a ter uma função mais importante para a digestão: o bolo alimentar agora deve se formar já na boca.

Thaís Manfrinato Miola, nutricionista especializada em nutrição oncológica do A.C. Camargo Center, afirma que no começo é difícil, mas, no decorrer de seis meses a um ano, a alimentação volta a ser prazerosa. "Há pacientes que voltam a comer até feijoada. Claro que em quantidades menores e fracionadas, e com boa mastigação para garantir a digestão adequada", diz.

Vou precisar de suplementos?

Uma das peculiaridades dessa cirurgia é que o duodeno acaba sendo retirado, justamente ele que tem a tarefa de absorver os nutrientes como ferro e cálcio, por exemplo. Aliás, quem faz a retirada total do estômago precisa de reposição de vitamina B12 a cada dois ou três meses.

A suplementação é a alternativa para ajudar a repor vitaminas e minerais, e ainda garante mais energia para se adaptar à nova dieta. Quando isso acontece e se observa o equilíbrio de vitaminas e minerais, os suplementos são retirados. Esse processo pode levar de seis a 12 meses.

Como prevenir o câncer de estômago

A ciência ainda não encontrou a receita para prevenir o câncer de estômago, mas sabe-se que algumas atitudes reduzem o risco para o desenvolvimento de tumores. Confira:

  • Evite alimentos ricos em sal (inclusive carnes e peixes), conservas, itens defumados;
  • Aposte em frutas cítricas ou ricas em vitamina C, como limão, acerola, laranja, kiwi, abacaxi e morango;
  • Aumente o consumo de vegetais de cor verde-escura;
  • Procure consumir ao menos 2 e ½ copos de frutas e vegetais (de todos tipos) todos os dias;
  • Mantenha o peso sob controle;
  • Pratique atividade física regularmente;
  • Evite fumar;
  • Submeta-se a um teste para saber se há infecção por H. pylori;
  • Conheça mais sobre a história da saúde de seus familiares. A Síndrome do Câncer de Estômago pode ser herdada de seus parentes de primeiro grau.

Fontes: Ivan Cecconello, professor titular de cirurgia do aparelho digestivo da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e membro da FBG (Federação Brasileira de Gastroenterologia); Felipe Coimbra, chefe do Departamento de Cirurgia Abdominal do A. C. Camargo Cancer Center; Gabriel Prolla, oncologista clínico da Oncoclínica de Porto Alegre e professor da Escola de Medicina da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul); Thaís Manfrinato Miola, nutricionista especializada em nutrição oncológica do A. C. Camargo Cancer Center e mestre em ciências pela mesma instituição. Revisão técnica: Gabriel Prolla.
Referências: INCA (Instituto Nacional de Câncer); American Cancer Society (acessos em julho/2018); Rawla P, Barsouk A. Epidemiology of gastric cancer: global trends, risk factors and prevention. Prz Gastroenterol. 2019; Aaron C. Tan, David L. Chan, Wasek Faisal, and Nick Pavlakis. New drug developments in metastatic gastric cancer. Therap Adv Gastroenterol. 2018; Yusefi AR, Bagheri Lankarani K, Bastani P, Radinmanesh, Kavosi Z. Risk Factors for Gastric Cancer: A Systematic Review. Asian Pac J Cancer Prev. 2018.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do escrito anterior, o estômago em dividido em quatro regiões: a cárdia, o corpo, o antro e o fundo, e não apenas em três. A informação já foi corrigida.

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