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Vegetarianismo na infância e na adolescência exige cuidados, veja quais

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Claudia Rato

Colaboração para o VivaBem

13/08/2019 04h00

Cada vez mais ouvimos sobre pessoas se tornando vegetarianas. Uma pesquisa do IBOPE Inteligência, realizada em abril do ano passado em 102 municípios brasileiros, com homens e mulheres a partir dos 16 anos, mostra que 14% da população se declara vegetariana. E esse interesse muitas vezes surge em adolescentes e crianças. No entanto, esse assunto gera bastante dúvida: será que isso pode ser ruim para a saúde deles?

Como toda questão relacionada à alimentação, a resposta é: depende muito do que a pessoa coloca no prato. De acordo com Departamento Científico de Nutrologia da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) em seu "Guia Prático de Atualização", as dietas vegetarianas devem ser monitoradas cuidadosamente pelo pediatra para verificar se atendem às demandas nutricionais principalmente quanto à energia, já que nesta faixa etária há aumento das necessidades de calorias, de cálcio, ferro, zinco e vitaminas.

Para a endocrinologista Adriana Lucia Mendes, professora da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu (Universidade Estadual Paulista), o vegetarianismo não é diferente de outros conceitos de "dieta saudável" que, por definição, é a ingestão de alimentos com quantidade de nutrientes suficientes para prevenir as deficiências nutricionais e repor as necessidades energéticas em todas as fases da vida.

"Segundo a ADA (Associação Dietética Americana), a AAP (Academia Americana de Pediatria) e a SCP (Sociedade Canadense de Pediatria), uma dieta bem balanceada é capaz de promover crescimento e desenvolvimento adequados a crianças e adolescentes", considera. Ela destaca, no entanto, que nessa faixa etária se está mais propício a desenvolver deficiências nutricionais e, portanto é importante que esses jovens sejam monitorados e até considerar a suplementação.

O engenheiro de alimentos Mário Roberto Maróstica Jr, chefe de departamento de Alimentos e Nutrição da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) lembra, no entanto, que carne é uma das principais fontes de ferro biodisponível para a dieta humana. "Níveis de ferro podem ser alterados ao se excluir carne do cardápio", explica. "Além disso, retira-se uma das melhores fontes de proteínas de alto valor nutricional nesta fase de crescimento, ou seja, na qual esse nutriente é bastante exigido", alerta.

De fato, existem dois tipos de ferro: o heme, encontrado nas carnes e mais biodisponível, e não-heme, mais comum em alimentos de origem vegetal. Mas Mendes lembra que existem formas de melhorar a absorção do segundo tipo. "Adicionalmente, substâncias presentes nos alimentos, como vitamina C, fitatos (encontrados em cereais e grãos) e polifenóis (encontrados em algumas frutas e hortaliças) podem facilitar ou dificultar a absorção intestinal do ferro", ressalta.

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Cuidados são necessários

De acordo com a endocrinologista Adriana Mendes, nas dietas vegetarianas que incluem ovos e laticínios é pouco provável que haja uma mudança hormonal nas crianças a adolescentes, uma vez que esses alimentos fornecem quantidades suficientes de vitamina D, cálcio e zinco. "Já aos veganos, deve-se ter cuidado especial para deficiência de vitamina D e o consumo do cálcio, pois esses nutrientes são fundamentais para o metabolismo ósseo, garantindo a mineralização óssea adequada - e estudos mostram aumento da frequência de raquitismo e fraturas nessa população.

A médica pediatra e nutróloga Elza Daniel de Mello, professora da Faculdade de Medicina da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), orienta que o ideal é que na infância e adolescência sejam permitidos os lácteos na dieta, "já que a massa óssea é feita até os 20 anos de idade". Ela também reforça que, caso a alimentação não suplemente tudo, é necessário fazer suplementações específicas.

Mendes também alerta para a deficiência do zinco, mineral importante para o funcionamento adequado do sistema imunológico. "Quando deficiente, é responsável por prejuízo no crescimento durante a infância e adolescência com retardo da velocidade de crescimento e da maturação sexual e eventualmente com diminuição da produção dos hormônios sexuais masculinos".

Vegetarianismo não é sinônimo de saúde

Independentemente de comer ou não carne, outros alimentos ricos em nutrientes devem ser postos à mesa. No entanto, sabe-se que nem sempre isso ocorre, principalmente quando o centro das atenções é um jovem ou uma criança. Aí entra o "xis" da questão, "que adolescente hoje tem uma boa alimentação?", indaga a nutricionista Aline Camargo Vieira, coordenadora em Nutrição Materno Infantil da SVB (Sociedade Brasileira de Vegetarianismo).

A dieta vegetariana sozinha não é garantia de uma alimentação saudável. "É possível ser vegetariano consumindo muito açúcar, alimentos refinados e processados, acarretando numa alimentação de qualidade inferior. Portanto, a escolha pelos alimentos naturais e integrais deve ser a primeira opção", destaca o médico nutrólogo Eric Slywitch, diretor do departamento de medicina e nutrição da SVB.

A nutricionista Silvia Justina Paponi, doutora e professora da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, concorda e complementa: "é comum o indivíduo se dizer vegetariano, porém continua com uma dieta inadequada, sem qualidade e monótona que sendo ou não vegetariano pode levar a prejuízo para a saúde".

Acompanhamento profissional é fundamental

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Antes de iniciar uma dieta vegetariana, a recomendação é buscar ajuda profissional. A SBP reforça a necessidade da orientação de um pediatra nutrólogo e de um nutricionista para auxiliar na composição dietética diária, a fim de prover todos os nutrientes necessários para cada faixa etária pediátrica.

O professor Maróstica Junior destaca a importância do papel do nutricionista que, segundo ele, saberá indicar a realização de exames dependendo da possível deficiência de algum nutriente ao se adotar mudanças alimentares.

Alimentação adequada para o vegetariano

A recomendação, segundo Vieira, é trocar a carne por alimentos do grupo das leguminosas (feijão, grão de bico, lentilha, ervilha etc). No entanto, é importante saber conciliá-las na dieta, já que nem sempre o mesmo alimento vai suprir todos os nutrientes da carne. Por exemplo, em uma concha média cheia de feijão carioca cozido, vamos encontrar proteínas (6,72 g), ferro (1,82 mg) e zinco (0,96 mg). 100 gramas de frango grelhado sem pele contêm quantidades menores de zinco e ferro. Já 100 gramas de farinha de soja (outra leguminosa) tem uma quantidade semelhante de proteínas do que o frango.

Necessárias para o corpo humano, as fontes de ômega 3 também devem estar presentes na dieta vegetariana, de acordo com Mendes. "As principais fontes são os peixes, os frutos do mar, as sementes de chia e linhaça, as nozes, os produtos de soja e, em menor quantidade, as folhas verdes. A fonte de ômega 3 de origem vegetal precisa de conversão e, para isso é necessário maior consumo de alimentos ricos em ômega 3".