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Ela sofreu bullying por problema nas costas e vai correr 42 km em Boston

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Yara Achôa

Colaboração para o UOL VivaBem

15/02/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Bruna descobriu ter um problema grave na coluna que causava fortes dores
  • Ela sofreu bullying por conta da postura curvada e encarou calada anos de tratamento
  • Apaixonada por esportes desde criança, ela voltou a correr quando foi liberada para praticar esportes
  • Após muito treino, conseguiu índice para a Maratona de Boston, sonho de boa parte dos corredores amadores

A publicitária Bruna Matoso, 38 anos, traz no pé uma tatuagem com a palavra perseverança --o que muitos associam à sua paixão pela corrida. Afinal, para se tornar corredor, em especial maratonista, uma das principais características é perseverar, persistir, insistir. Mas no caso de Bruna o significado dessa "marca" tem origem ainda na sua infância. 

Ela sempre foi ligada a esportes. Nascida em Santos (SP), desde pequena adorava disputar competições de corrida de velocidade na Escola Americana de Santos. Não perdia uma aula de educação física e participava feliz do Sports Day (dia em que a criançada competia em várias modalidades esportivas). E assim foi sua infância, andando de bike, correndo, nadando, pulando, sempre em constante movimento. 

Luta contra a dor

Alexandre Gennari/Arquivo pessoal
Imagem: Alexandre Gennari/Arquivo pessoal
Aos 11 anos, ensaiando para uma apresentação de ginástica, Bruna sentiu algo como uma distensão muscular na coxa. O que parecia um incômodo passageiro, normal a praticantes de atividade física, se revelou uma coisa mais séria que não seria curada com analgésicos, gelo ou repouso.

"A dor não passava, sentia que já não era muscular. Bastava espirrar para meu corpo estremecer. Não conseguia mais tocar a mão no meu pé. E sequer andava com a coluna reta --o incômodo era tão grande que me encurvava toda para minimizar o desconforto", conta Bruna Matoso. 

Então começou uma saga por consultórios médicos. O problema foi diagnosticado como espondilolistese congênita. "Explicando de forma leiga: nasci com uma vértebra desalinhada, fora do lugar. Esse deslizamento ocasiona a dor, formigamento e até o pinçamento do nervo da coluna. Somado a esse quadro, ainda tinha escoliose (curvatura anormal da coluna vertebral, em que a coluna fica curvada para os lados, em forma de 'C' ou 'S'). Isso me levou a um cotidiano à base de analgésicos, anti-inflamatórios, dores constantes. Passei a ter dificuldades até para caminhar, o que me incomodava profundamente." 

Foram muitas consultas com ortopedistas. Só em Santos e região, cerca de 10 médicos. E todos eram unânimes em relação ao tratamento: fisioterapia e cirurgia. Mas uma operação na coluna não é algo simples e pelo fato de Bruna ainda ser pré-adolescente e estar em fase de crescimento, muito provavelmente teria de fazer mais de uma intervenção. Seus pais ficavam desesperados diante das alternativas propostas, mas quiseram tentaram tudo e esgotar todas as possibilidades antes de colocar a filha em uma mesa de operação.

Alexandre Gennari/Arquivo pessoal
Imagem: Alexandre Gennari/Arquivo pessoal
Assim, aos 12 anos, Bruna teve início uma árdua rotina diária de cinesioterapia (forma de tratamento que utiliza a atividade física com movimentos para favorecer o retorno da função musculoesquelética) e RPG (Reeducação Postural Global). 

E ela se empenhou. Afinal, só pensava em ficar boa e levar uma vida normal, andar direito, voltar a praticar esportes. Até porque, por conta de sua postura, passou a sofrer bullying. "Ganhava apelidos e ouvia piadas o tempo todo. Sofria calada. Mas toda essa chateação no fundo só me dava mais vontade de provar para essas pessoas que eu poderia vencer, ficar boa e voltar a ter uma vida normal", desabafa. 

O tempo foi passando e os dias de fisioterapia e RPG diminuindo. Ela voltou às atividades físicas. Em princípio, hidroginástica e fortalecimento focado na região abdominal. Depois entrou em cena a musculação. Até o dia em que médico proferiu as palavras que a jovem mais desejava ouvir. "Ele disse que eu poderia levar uma vida normal, praticar todas as atividades físicas que quisesse, desde que sempre me fortalecesse. Foi um dos dias mais felizes da minha vida."

O caminho para Boston

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Bruna começou a correr de forma recreativa quando ainda morava em Santos --usava a atividade para complementar os treinos de musculação. Há cerca de 12 anos mudou-se para São Paulo e passou a treinar pelos parques e ruas, sozinha, sem pretensão de performance. Até o dia em que, em vez de se inscrever para uma meia maratona (21,1 km) --distância que dominava e achava confortável -- decidiu optar por uma maratona.

Foi então que, em 2016, aos 36 anos, procurou uma assessoria esportiva para se preparar para seus primeiros 42,195 metros -- distância que atletas profissionais de elite completam em pouco mais de duas horas e amadores bem treinados entre 3h30 e 4h. Em sua estreia, em uma prova na capital paulista, cruzou a linha de chegada com o tempo de 3h53. 

Obstinada, não parou por aí. Passou a desejar a Maratona de Boston --a prova que faz os olhos de todos os corredores brilharem. Afinal, não é qualquer um que consegue estar nessa linha de largada. Mais antiga e tradicional maratona anual do mundo, Boston exige índice conforme as faixas etárias --e ele é bem difícil de conquistar. 

Bruna foi buscar esse índice. Mirou na Maratona de Porto Alegre em 2018 e a completou a prova em 3h31m, tempo que a credenciou à Maratona de Boston 2019 --no próximo dia 15 de abril, entre 30 mil participantes, lá estará ela saindo de Hopkinton e chegando à Boston.

E a espondilolistese?

Hoje, Bruna convive pacificamente com o problema. Raramente sente dor. Quando isso acontece, recorre a algum tratamento pontual. E segue sempre fazendo fortalecimento para deixar o corpo preparado para aguentar a pancadaria dos treinos de corrida.

"Essa minha história tem tudo a ver com a maratona. Talvez por isso eu seja tão apaixonada pela distância. O caminho é duro, doloroso, requer disciplina, resiliência, dedicação, perseverança, mas assim que você cruza a linha de chegada, tudo se transforma em alegria. É incrível, é mágico! A tatuagem que carrego no meu pé serve para me lembrar que tudo é realmente possível!"

Entenda a espondilolistese congênita

  • O que é? Ó escorregamento de uma vértebra sobre a outra, de origem congênita. Ou seja, a pessoa nasceu com uma alteração nas estruturas vertebrais que propiciam esse deslizamento entre a última vértebra lombar (L5) sobre a primeira vértebra sacra (S1).
  • Sintomas O principal é dor lombar resistente a tratamento. Em alguns casos, pode haver também dor na perna. 
  • O diagnóstico é feito por meio de exames de imagem, como raio-X e tomografia. 
  • Tratamento Na maioria dos casos, esses escorregamentos são leves, sendo tratados com repouso, medicamentos para dor e fisioterapia. Após a melhora do quadro doloroso, é essencial o fortalecimento da musculatura ao redor da coluna. 
  • Técnicas complementares O RPG, assim como o pilates, ajudam no tratamento, melhorando a postura do paciente e diminuindo a sobrecarga.
  • Quando operar? A cirurgia só é reservada a casos mais sérios, com escorregamentos mais graves e progressivos, sintomas de compressão neurológica e em pacientes em que não há melhora da dor.
  • Sequelas Em casos graves e sem tratamento adequado, se as estruturas neurológicas (nervos) forem comprimidas por muito tempo, pode haver sequelas neurológicas (déficits definitivos, como formigamentos e perda de força nas pernas).
  • O treino é permitido? Diante das crises de dor, a doença pode impedir atividades do dia a dia e a prática esportiva. Porém, com o fortalecimento específico, o incômodo melhora e todo e qualquer exercício é permitido. 
  • Cuidados extras O paciente que tem espondilolistese congênita deve ficar sempre ficar alerta a sinais, como uma dor que não passa. É importante ter sempre o acompanhamento de um médico de coluna para evitar maiores problemas.

Fonte: Carlos Eduardo Barsotti, cirurgião de coluna, presidente da Regional de São Paulo da Sociedade Brasileira de Coluna. 

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