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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Amamentação por mães que vivem com HIV: um debate calado

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

19/11/2021 04h00

Na década de 1980, quando uma mulher vivendo com HIV engravidava, havia cerca de 30% de chances de ocorrer a transmissão do vírus para o bebê. Essa transmissão poderia acontecer durante a gestação, no parto ou por meio da amamentação. Com a chegada da terapia antirretroviral e a possibilidade de zerar a carga viral das gestantes, esse risco se reduziu bastante, para menos de 1%, mas não deixou de existir.

Diferentemente da transmissão sexual do HIV, mesmo tendo a carga viral indetectável no sangue a transmissão pelo leite materno parece envolver dinâmicas de replicação viral que ainda não são completamente compreendidas nas glândulas mamárias e no corpo das puérperas.

Para então potencializar a prevenção da transmissão materno-infantil do HIV, estratégias adicionais são utilizadas. Além do tratamento antirretroviral e da manutenção da carga viral indetectável, foram incorporadas rotinas obstétricas que garantissem a menor possibilidade de exposição do bebê ao sangue materno; e a amamentação foi contraindicada, substituindo a alimentação do recém-nascido por fórmula láctea desde o nascimento.

Associado a tudo isso, quando passamos a utilizar no pós-parto um esquema antirretroviral como Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP) para o bebê, mantido por 4 semanas, foi possível enfim zerar o risco de transmissão vertical do HIV. Com isso, todos os municípios do mundo passaram a ter como meta a erradicação dessa via de transmissão. No Brasil, apenas 3 municípios já atingiram essa meta: São Paulo, Curitiba e Umuarama.

Se olharmos especificamente para a contraindicação da amamentação, identificamos que essa não é uma recomendação homogênea ao redor do mundo. Em geral ela está presente em países ricos ou de renda média, mas não entre países mais pobres onde há um contexto em que o risco de desnutrição e doenças para o bebê em decorrência da falta do leite de fórmula e água potável é maior do que aquele da transmissão do HIV pelo leite materno.

Um questionamento que nos últimos anos tem ganhado espaço nas regiões em que o aleitamento materno não é uma questão de vida ou morte para o recém-nascido, é se amamentar não poderia ser uma opção para as mães vivendo com HIV que, cientes de todas essas informações, assim o quisessem.

Na semana passada, durante a 18ª Conferência da Sociedade Europeia de HIV/Aids, foi apresentada uma pesquisa sobre esse tema. Desde 2019 na Suíça houve uma mudança no protocolo de saúde e passou a ser prevista durante o pré-natal de gestantes que vivem com HIV uma reunião multidisciplinar em que são apresentados todos os dados conhecidos sobre os riscos de transmissão viral pela amamentação para que elas decidam o que consideram melhor para elas e os bebês.

As mulheres que optarem por amamentar seus filhos precisam realizar uma rotina mais intensa e frequente de exames laboratoriais que incluem a carga viral para HIV. Enquanto a carga viral da mãe se mantiver indetectável, nenhum medicamento profilático é dado para o recém-nascido.

Na conferência foram apresentados dados sobre 41 mulheres vivendo com HIV que engravidaram depois da mudança do protocolo Suíço, das quais 20 concordaram com acompanhamento intensivo para poder amamentar seus filhos. Seis meses depois do parto, 45% delas continuavam seguindo o protocolo e amamentando, e não houve nenhuma transmissão vertical do HIV registrada.

As principais razões para a escolha da amamentação foram a maior intimidade e conexão com o bebê, e o fato disso ser melhor para a saúde do recém-nascido.

No Brasil, o protocolo clínico de prevenção da transmissão vertical do HIV foi atualizado em outubro de 2020, mas ainda existe a contraindicação universal e absoluta à amamentação, com a garantia de recebimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) da fórmula láctea substitutiva.

O debate acerca da amamentação por mulheres que vivem com HIV encontra-se nesse momento vivo, ainda não resolvido e em fase de transformação. O Brasil que já foi no passado referência nas ações de enfrentamento do HIV/Aids e fez parte da vanguarda mundial nesse campo precisa entrar nessa conversa.

Um estudo com 41 pessoas é muito pequeno e não tem o poder de mudar nenhum protocolo clínico nacional, mas é potente o suficiente para mostrar como na Suíça a saúde e o bem-estar de mães e filhos são realmente priorizados e levados a sério.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL