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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rastreamento de contatos é tão importante na covid-19 quanto nas ISTs

Getty Images
Imagem: Getty Images
Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

21/05/2021 04h00

Infectologia é a especialidade que se dedica ao estudo, prevenção e tratamento das doenças infecciosas. Uma das características que todas essas doenças têm em comum e que nos permite agrupá-las é o fato de poderem ser transmitidas. Infectologistas cuidam de "doenças que se pega".

A sua irmã epidemiologia, por sua vez, procura compreender os padrões de ocorrência das doenças em uma população. Por esse motivo, infectologia e epidemiologia costumam andar juntas.

Pense comigo. O diabetes, o câncer de próstata ou a hipertensão arterial não são doenças que podem ser transmitidas de uma pessoa para outra. No máximo um gene que predispõe uma pessoa a alguma dessas condições pode ser herdado dos pais.

Já a malária, a gripe e ou uma gastroenterite, podem ser transmitidas. Cada uma delas tem como agente causador um protozoário, vírus ou bactéria, que é transmitido de uma forma diferente entre as pessoas, mas são transmitidas.

Posso dizer que pelo menos em um aspecto a pandemia de covid-19 parece ter sido boa. Ela trouxe à tona uma discussão elementar da infectologia e da epidemiologia: não podemos esquecer que doenças infecciosas são transmissíveis e que uma epidemia só acaba quando se encerra a transmissão da doença em uma população.

Enquanto não existe a possibilidade de se vacinar toda essa população para assim acabar com a circulação de um agente infeccioso, uma forma bastante eficaz de se controlar a sua disseminação é o clássico Rastreamento de Contato.

O seu racional é muito simples: em uma epidemia, para cada novo caso identificado daquela doença infecciosa, procura-se testar todas as pessoas com quem o doente teve contato, tanto aqueles que podem ter transmitido a doença para ele quanto os que podem ter pegado a doença dele. E para cada novo caso encontrado nesse rastreamento, é disparada uma nova rodada de busca dos contatos infectados.

O rastreamento de contato permite que se trace o caminho que o agente infeccioso percorreu durante a sua disseminação na população, e com isso sejam adotadas medidas como o isolamento ou o tratamento para que os infectados interrompam a transmissão do agente infeccioso para novas pessoas susceptíveis.

No caso da covid-19, de acordo com um artigo publicado na revista Nature Immunology, o Vietnã é o melhor exemplo de um país que conseguiu controlar o crescimento da epidemia utilizando o rastreamento de contatos. Só para se ter uma ideia, mesmo tendo mais de 96 milhões de habitantes, foram registradas desde o início de 2020 no Vietnã apenas 37 mortes em decorrência da covid-19.

Quando pensamos em ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), o mesmo impacto poderia ser alcançado no controle dos novos casos se o rastreamento de contatos fosse utilizado de maneira intensa e organizada. No entanto, infelizmente é comum encontrarmos situações em que é a desinformação e o preconceito em relação às ISTs que guiam as condutas.

Sempre que alguma pessoa é diagnosticada com alguma IST, independentemente se tem ou não sintomas, recomendamos que ela entre em contato com suas parcerias sexuais recentes para avisar que seria interessante que elas se testassem também para essa IST.

Essa notificação é importante pois essas parcerias podem estar com a IST sem saber, transmitindo-a para outras pessoas inadvertidamente, mas também para que ela possa buscar o tratamento adequado quebrando assim a cadeia de transmissão do agente.

Um modelo simples de mensagem que poderia ser usada nesse contato seria:

"Oi, fulana(o). Como você está? Escrevo para avisar que descobri agora que estava com clamídia/sífilis/etc. Eu já busquei atendimento médico e estou bem. Como nós nos encontramos e transamos recentemente, acho que seria uma boa você se testar também, beleza? Se precisar de ajuda, me avise. Um beijo e se cuide."

Ainda que a notificação de contatos racionalmente possa parecer uma boa ideia, vemos que existe uma enorme resistência para colocá-la em prática.

Existe um grande receio da pessoa infectada de se expor ao entrar em contato com suas parcerias, além de que é bastante comum a reação negativa dos contatados por interpretarem que estão sendo culpados pela transmissão daquela IST.

Acredito que isso seja fruto da concepção equivocada de que ISTs só acontecem com quem "fez coisa errada", quando na verdade elas podem aparecer ao longo da vida de qualquer pessoa que tem sua vida sexual ativa.

Convido a todos a deixarem o preconceito de lado, aprenderem com o exemplo do Vietnã e agradecerem sempre que alguém entrar em contato para avisar que "seria uma boa fazer o exame para alguma doença infecciosa". Seguir esse conselho é bom não só para você, mas para toda a comunidade onde vive.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL