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Rico Vasconcelos

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Uso da PrEP faz com que as pessoas abandonem a camisinha?

nito100/Getty Images/iStockphoto
Imagem: nito100/Getty Images/iStockphoto
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

07/05/2021 04h00

Somente no ano de 2019, foram registrados 1,7 milhão de novos casos de infecção por HIV em todo o mundo. Esse número vem caindo na última década, mas de forma mais lenta que o esperado, e assim chegamos a 2020 com cerca de 3 vezes mais casos incidentes de infecções por HIV do que a meta de 500 mil estipulada para esse ano pelo Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids).

Para tentar melhorar esses números (e entendendo que fazer toda a população mundial usar a camisinha em 100% das suas relações sexuais era uma utopia), a OMS (Organização Mundial da Saúde), há alguns anos, passou a recomendar o uso de métodos adicionais de prevenção, como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ao HIV (PrEP).

A PrEP consiste no uso de medicamentos antirretrovirais por pessoas negativas para HIV com o objetivo de protegê-las dessa infecção. Quando os comprimidos são tomados com boa adesão, a PrEP é extremamente eficaz na prevenção do HIV.

Apesar disso, há uma preocupação constante dos pesquisadores e da opinião pública em relação à PrEP é a possível desinibição de comportamentos sexuais de maior vulnerabilidade causada pela sensação de proteção contra HIV.

A redução na frequência do uso da camisinha e o aumento no número de parcerias sexuais depois do início da PrEP poderiam ser um desastre tanto no caso de pessoas com má adesão aos seus comprimidos, uma vez que não estarão bem protegidas do HIV, quanto para as outras ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), como sífilis, gonorreia e clamídia, que não são evitadas pelo uso da PrEP.

Dessa forma, para compreender melhor qual o perfil de adesão à PrEP, as mudanças no comportamento sexual entre os seus usuários e a ocorrência de ISTs depois do início dos comprimidos, realizei minha tese de doutorado na Faculdade de Medicina da USP, defendida na última semana, e cujos resultados gostaria de compartilhar aqui nessa coluna.

Para a análise, utilizei o banco de dados do Projeto Demonstrativo PrEP Brasil, que avaliou entre 2014 e 2018 como seria a distribuição gratuita da PrEP no Brasil e subsidiou a decisão do Ministério da Saúde de incorporar a estratégia ao SUS.

No PrEP Brasil, foram incluídos 450 participantes homens gays/bissexuais e mulheres trans/travestis, com critérios de alto risco de infecção por HIV, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Além de receberem a PrEP gratuitamente, foram acompanhados com consultas trimestrais em que era feito o rastreamento de ISTs.

Na entrada do estudo, 74% dos participantes tinham evidência laboratorial de alguma IST prévia ao início da PrEP (gonorreia, clamídia, sífilis ou herpes genital), comprovando sua alta vulnerabilidade a ISTs. Ao longo dos dois primeiros anos de acompanhamento, foram identificados outros 36 casos incidentes de gonorreia, 45 de clamídia, 70 de sífilis e 17 de herpes genital.

Utilizando a dosagem do antirretroviral no sangue para avaliar a adesão aos comprimidos, foi encontrada que 78% dos participantes estavam tomando a PrEP de forma adequada e protetora. E 32% dos incluídos referiram que após o início da PrEP perceberam alteração no seu comportamento sexual, com aumento do número dos participantes e/ou com redução na frequência do uso do preservativo.

A análise estatística dos dados mostrou que, entre os indivíduos que referiram ter desinibição no comportamento sexual após o início da PrEP, não houve um número maior de casos de ISTs incidentes, no entanto, houve sim entre os participantes que já tinham tido alguma IST prévia e que afirmaram ser trabalhadores do sexo ou usuários de drogas recreativas, como cocaína, GHB, ketamina e ecstasy/MDMA.

O uso dessas substâncias psicoativas também foi associado à ocorrência de desinibição dos comportamentos sexuais mais vulneráveis, mas, por outro lado, os usuários de drogas recreativas foram aqueles com a melhor adesão encontrada aos comprimidos da PrEP.

Como conclusão, o estudo aponta que pessoas que buscam a PrEP já eram vulneráveis às ISTs antes do início dos comprimidos e apenas 32% delas acham que essa vulnerabilidade aumentou com a PrEP.

Por estarem muito expostos às ISTs, essas pessoas precisam ter um rastreamento periódico delas, pois assim poderão diagnosticá-las e tratá-las precocemente sempre que pegarem uma IST. Além disso, aqueles que já tiveram uma IST na vida, os que trabalham fazendo programa e os que usam drogas recreativas precisam de atenção especial para essas infecções, por exemplo se testando com maior frequência ou usando algum método adicional de prevenção contra ISTs, quando disponível.

Por fim, todos precisamos entender que algumas pessoas podem se adaptar muito mal ao uso do preservativo e muito bem à PrEP, como por exemplo os usuários de drogas recreativas. Cabe a nós aceitar que a PrEP talvez seja a única e melhor maneira de mantê-los livres do HIV e acolher as decisões tomadas por eles com informação e autonomia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL