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"Vou mudar de vida quando acabar a quarentena": todo mundo está refletindo

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

21/06/2020 04h00

Mudar para uma cidade menor, trocar de emprego ou área de atuação, reduzir o uso do carro, fazer home office pelo menos um dia na semana, incluir na rotina mais horas com a família e os amigos, reduzir o tempo no celular e na frente das telas, não deixar hobbies e momentos de lazer apenas para o fim de semana, buscar uma alimentação mais saudável, praticar esportes com regularidade, aproveitar mais a vida ao ar livre... A cada dia, ouço mais e mais pessoas fazendo este tipo de plano, para quando tudo isso que estamos vivendo passar.

Seja uma grande ou pequena mudança, todas as restrições e adaptações necessárias, trazidas pelo coronavírus, fizeram muitos de nós parar e refletir sobre como levamos nossas vidas e o que podemos começar a fazer diferente.

Entre desacelerar, buscar viver com mais bem-estar e qualidade no dia a dia, dar outro ritmo à rotina, investir em planos e sonhos que estavam engavetados, muitas dessas iniciativas podem, de fato, ser transformadoras, trazendo benefícios reais em diferentes aspectos. Em termos práticos, como sua saúde pode ganhar com isso? E o coração, será que ele também ganha?

Vamos começar pelo estresse

Bem, ainda não dá para saber quando voltaremos a ter uma rotina "normal" (ou aquela que estávamos acostumados), mas aos poucos a flexibilização da quarentena vai permitir que, ao menos, algumas atividades comecem a ser retomadas. Com o tempo, é possível colocar essas ideias fora do papel. Primeiro: ao investir em melhorar a qualidade de vida, automaticamente, haverá uma redução no nível de estresse. Então, qualquer que seja a iniciativa, você já estará atuando nesse sentido.

Em maior ou menor grau, o estresse está presente no cotidiano de todos. Seja no congestionamento, na preocupação com dinheiro, pressão no trabalho, desemprego, correria da agenda lotada, relacionamentos complicados, doenças, problemas na família, entre muitos outros desencadeadores.

Nessas situações, o corpo reage deixando a respiração ofegante, o coração acelerado, os músculos enrijecidos, o sono fragmentado. O fato é que o estresse gera comprovadamente desequilíbrios emocionais e fisiológicos. O cenário se agrava quando esses episódios ocorrem frequentemente.

Em resumo, funciona assim: ao ser estimulada por uma situação estressante, a amígdala —estrutura cerebral que processa emoções como raiva e medo— envia sinais para a medula óssea produzir mais células brancas para o sangue (células de defesa). Essas células causam inflamação nas artérias, o que pode levar a um ataque cardíaco, angina ou derrame.

Além disso, quem vive uma rotina estressante libera altos níveis de hormônios, como adrenalina e cortisol que, quando produzidos em excesso, podem afetar o sistema imunológico, a respiração e a frequência cardíaca, alterando também a pressão arterial.

Portanto, ao fazer mudanças que reduzam o estresse, a liberação dessas substâncias no organismo será consequentemente menor, minimizando a vasoconstrição das artérias e estabilizando a pressão arterial. Ou seja, menos riscos do desenvolvimento de doenças cardíacas e da ocorrência de eventos cardiovasculares.

Qualidade na hora das refeições

O estresse afeta ainda a alimentação. Não é difícil encontrar pessoas que ganharam uns quilinhos extras, desde que a pandemia de covid-19 chegou por aqui. Nesse caso, gerado em grande parte por conta da ansiedade.

Por isso, é sempre importante destacar: todo investimento em alimentação de qualidade, balanceada e com a quantidade adequada de sal, por si só ou associada à atividade física, repercute na diminuição da gordura corporal e principalmente a visceral (aquela que envolve os órgãos vitais, como fígado, pâncreas e intestino).

O resultado é a redução dos fatores de risco para o coração, como hipertensão, dislipidemia (distúrbio nos níveis de gordura, ou seja, lipídios e/ou lipoproteínas no sangue), obesidade, diabetes, o entupimento das artérias do coração, entre outros.

E se você pudesse passar menos tempo no trânsito?

Aqui entram todas as mudanças que nos permitam gastar menos tempo de deslocamento, seja ao investir no home office, na flexibilização do horário, ao pensarmos em mudar para cidades menores ou até mesmo viver mais próximos ao local de trabalho. O impacto na qualidade de vida com certeza é grande.

Além de evitar o estresse gerado durante o trajeto, seria possível ter mais tempo e espaço na rotina para o lazer e o descanso. Nesse sentido, um dos principais benefícios para a saúde pode ser em relação ao sono, por exemplo.

Noites com mais qualidade e por um período de 6 a 8 horas promovem o bem-estar e auxiliam nosso corpo a se recuperar e preparar-se para mais um dia. O sono é reparador e ajuda a proteger a saúde do coração.

Enquanto estamos dormindo, há uma redução do ritmo cardíaco que permite ao organismo ficar em um estado de compensação de energia. Quando isso não ocorre, provoca o cansaço, o estresse e a irritabilidade, causando a liberação de cortisol, hormônio que, como já mencionado, age no controle da pressão arterial. Além disso, acaba amplificando o trabalho do coração e aumenta a possibilidade de problemas graves, como a doença coronária.

Um futuro mais sustentável

Ainda no sentido da mobilidade urbana, vale citar uma iniciativa positiva para reflexão. Com o fim da quarentena em muitos países europeus, a mobilidade das pessoas se tornou um dos maiores desafios. Para evitar a aglomeração nos transportes públicos e priorizar alternativas mais saudáveis, alguns governos decidiram investir nas bicicletas como meio de transporte.

O exercício de pedalar permite o ganho de massa magra, bem como a redução do colesterol e da pressão arterial, contribuindo para a saúde cardiovascular, sem falar na diminuição dos fatores poluentes ao meio ambiente, o que também colabora para a melhoria de nossas condições respiratórias e, consequentemente, para o coração.

Ou seja, as lições não são apenas individuais. Repensar, neste momento, soluções para o transporte coletivo e para o espaço público seria de grande valia. Quem sabe ciclovias temporárias possam se tornar permanentes, mais amplas e seguras para quem optar por este meio de transporte. Calçadas e zonas de pedestres ganhem mais espaço e, assim, os centros de algumas cidades se tornem áreas livres de automóveis e de toda poluição por eles gerada, seja atmosférica e até sonora.

Mais perto de quem importa

Outro aspecto que veio à tona em meio a tudo o que estamos vivendo foi a valorização das relações e o contato físico. Estar perto de quem a gente ama faz bem. Sentimentos e emoções gerados nesse contato e relacionados ao amor, alegria, companheirismo e amizade, trazem benefícios para a saúde, em especial ao coração.

Eles promovem o relaxamento muscular e a vasodilatação, manifestações que ajudam a prevenir as doenças cardiovasculares. Além disso, é comprovado cientificamente que, abraçar e se aconchegar nos braços de uma pessoa querida libera oxitocina, hormônio que contribui para reduzir a pressão arterial e aliviar o estresse.

O contato com os animais também é capaz de gerar a sensação de bem-estar, felicidade e conforto, estimulando a produção de hormônios do bem, como endorfina, prolactina e oxitocina, substâncias atuam na regulação de taxas de cortisol (hormônio relacionado ao estado de alerta).

Essa interação homem-animal contribui para a diminuição dos níveis de adrenalina e ativa a liberação de acetilcolina —substância ligada a redução da pressão, da frequência cardíaca e respiratória. Ter um pet em casa pode ajudar ainda a afastar a solidão, ansiedade e depressão, outros fatores desencadeantes de problemas no sistema cardiovascular.

Serviços de saúde remotos

Como vimos, o cenário trazido pelo coronavírus provocou a necessidade de adaptações em muitos aspectos, inclusive nos serviços de saúde, abrindo portas para mudanças que não se restringem a este período, mas que podem ser mantidas futuramente. O Projeto de Lei 696/2020 é um exemplo. Ele atua no uso da telemedicina —segundo o texto, "telemedicina é o exercício da medicina mediado por tecnologias para assistência, prevenção de doenças e lesões, pesquisa e promoção de saúde".

O projeto prevê a ampliação do serviço de telemedicina após o fim da pandemia, com a regulamentação dessa modalidade de atendimento pelo Conselho Federal de Medicina. Com a evolução rápida de dispositivos que facilitam exames e das tecnologias wearables (termo que pode ser traduzido como "tecnologias para vestir"), vemos a cada dia uma abrangência maior na sua utilização.

Com certeza esse é só o começo. Claro que teremos muito a fazer para esta adaptação, mas é uma realidade que já está aí, em uso, mostrando a sua eficácia e dificilmente será abandonada.

Pós-pandemia

Fica perceptível que tudo está interligado. Ao investir em mudanças positivas de um lado, surgem benefícios em vários outros. Ganhamos em saúde e qualidade de vida. Retornar após esta fase turbulenta pode acalmar o coração e nos fazer refletir ainda mais sobre o que realmente importa: avaliar nossas prioridades, a importância das coisas e das pessoas.

O momento também pode ser usado para fazer planos, repensar rumos e buscar soluções criativas para questões que vinham sendo arrastadas no piloto automático do dia a dia. Sabemos que algumas dessas mudanças fogem da nossa alçada. Outras chegam a ser até utópicas para parte da população, que ainda luta por direitos básicos. São muitas realidades diferentes dentro de um mesmo país. O fato é que precisamos começar de alguma maneira. Fica a reflexão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL