PUBLICIDADE

Topo

Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Equilíbrio

Não aguenta mais a quarentena? Dicas para não cansar de si mesmo ou da casa

iStock
Imagem: iStock

Priscilla Auilo Haikal

Colaboração para o VivaBem

30/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • O ser humano tem necessidade de autonomia, de explorar suas competências e afinidades com os outros, práticas que estão abaladas nesse isolamento
  • Além das dificuldades e da carga emocional ao lidar com as incertezas durante a pandemia, falta de autoconhecimento pode ser a origem de angústias
  • Uma das formas de ajudar a si mesmo a não cair em desânimo é tirar algumas horas para renovar ou harmonizar o que está ao nosso redor

"Solidão, né, minha filha?" A frase de apoio dita por Drauzio Varella a uma presidiária em entrevista veiculada no início de março ganhou diversas adaptações para brincar com os desejos que temos sentido ao longo do isolamento social. As vontades são muitas: de sextar, de pegar uma praia, de passear com os amigos, de rever e abraçar pessoas queridas, de sair de casa. De voltar aos nossos antigos hábitos antes da pandemia.

Porém, estamos num período excepcional de confinamento para cuidar de nós e dos outros. E para os que podem e estão em casa, o jeito é buscar formas de manter a calma, trabalhar a aceitação e exercitar a tolerância. Ser criativo, realista e respeitoso com os próprios limites e de quem nos acompanha. Sem cobranças para ser produtivo ou estar bem disposto todas as horas, buscar cultivar a paciência e a persistência. Tentar usar o tempo e o ambiente a seu favor, experimentar novos afazeres que podem se revelar boas distrações, sempre consciente que é uma conjuntura momentânea e que vai passar.

Eu preciso ver gente!
Mesmo que você já tenha enjoado de falar sozinho, esteja cansado de contar o número de rachaduras nas paredes da sala, saiba de trás pra frente os passos do vizinho de cima e até tenha nomeado as manchas no piso do quarto, é preciso continuar em casa. E é normal que haja períodos de esgotamento e desânimo, e outros de ânsia por sair ou ter contato com pessoas.

De onde vem esse impulso? É nostalgia do que já tivemos ou desejo de escapar da situação atual? Seria um pouco dos dois. A privação contribui para o sentimento de tédio pela ausência de estímulos e novas atividades, e pela repetição contínua das mesmas tarefas, numa impressão de que todos os dias parecem iguais. O ser humano tem necessidade de autonomia, de explorar suas competências e afinidades com os outros, práticas que estão abaladas nesse isolamento.

Somos definidos como seres biologicamente sociais, que vivem em contínua interação com as influências do meio, e precisamos dos outros para compartilhar experiências, significados e representações. Faz parte do exercício de nos reconhecermos como integrantes e participantes da sociedade e de nos identificarmos como pertencentes dessa coletividade. Daí a motivação por estabelecer afetos, buscar novos conhecimentos e viver novas situações, inclusive como forma de nos satisfazer individualmente.

Porém, a ausência de reciprocidade socioemocional pode não ser a única razão para as pessoas se sentirem desanimadas. Além das dificuldades e da carga emocional ao lidar com as ameaças, incertezas e limitações durante a pandemia, a falta de autoconhecimento pode ser a origem para muitas angústias, presentes antes mesmo do coronavírus (Sars-CoV-2). Ao não saberem o que as faz feliz ou o que querem para si, a sensação de tédio, desamparo e desânimo tende a ser potencializada, o que abre caminhos para se deixar levar pela inércia comportamental.

Conhece-te a ti mesmo

O cérebro humano gosta de rotinas e de previsibilidade, que estão diretamente ligadas com a noção de controle. Muitas vezes reduzem o estresse, geram alegria e emoções positivas, e até facilitam a proximidade afetiva. Isso porque diminuem a vulnerabilidade diante do desconhecido, que por vezes não está só no outro, mas sim em nós mesmos. Quem não desenvolveu a habilidade de se ouvir, para descobrir seus medos e suas potencialidades, evita situações incomuns nas quais é preciso lidar com a diversidade e com elementos que provocam insegurança e dúvidas sobre como agir.

É um processo íntimo que normalmente ocorre por meio da psicoterapia e favorece a descoberta de novas possibilidades. Ao entender as razões para nossos conflitos e resistências, fica mais fácil desenvolver recursos emocionais que permitem a autossatisfação, ou seja, perceber e investir em ações que nos trazem prazer e alegria, mesmo em conjunturas adversas. Pode ser meditar, ler um livro, praticar esportes ou arte, mas são atitudes que fazem com que tenhamos maior segurança em relação ao que valorizamos e ao que nos traz contentamento.

Isso também é uma forma de autocuidado e de prevenção para a saúde mental, pois reduz a ansiedade e o estresse, e facilita o convívio consigo e com os outros. Em meio às atuais condições, está tudo mais complexo e penoso, mas vários profissionais estão oferecendo terapia online, ou atividades que estimulam o bem-estar físico e psíquico, como na febre das lives de aulas de dança, ioga, exercícios, apresentações musicais, artísticas ou religiosas.

Nada disso é tão simples de internalizar. São alternativas diante de uma conjuntura emergencial que pode trazer à tona problemas por muito tempo desprezados. Agora é hora de focar na nossa saúde, sem pressão para estar em movimento, mas atentos aos sinais que podem revelar quadros mais sérios de depressão ou ansiedade. O importante é dar os primeiros passos e aproveitar o que temos disponível neste instante e neste lugar.

Cuidar de dentro e de fora

Uma das formas de ajudar a si mesmo a não cair em desânimo é tirar algumas horas para renovar ou harmonizar o que está ao nosso redor. Reorganizar os espaços é uma ótima maneira de melhorar as energias do ambiente, e também um jeito de lidar com sentimentos de aflição, estresse e impaciência. É tido como uma boa fonte de inspiração para exercer a criatividade e pode ser visto como uma boa iniciativa para trazer uma sensação de novidade para dentro de casa. Veja algumas dicas de como promover mudanças significativas e ter mais tranquilidade:

- A arte está intimamente ligada aos sentidos. Por isso, um ambiente que explora bem as formas e cores nos traz satisfação. Trocar os móveis ou objetos de lugar é um bom começo. O mesmo vale para os quadros ou fotografias expostas: ao trocar a ordem em que estão dispostas, já é possível ter um resultado agradável.

- A estante é um lugar que vale a pena explorar. Além de mudar a organização dos livros, e aproveitar para doar aqueles exemplares que não interessam mais, é possível pintar o móvel ou aplicar papel de parede como pano de fundo. Vale também arriscar em mesclar outras peças, como aqueles bibelôs esquecidos de viagem.

- Usar fita adesiva para imitar um papel de parede com formas geométricas, ou então para servir de estampas em prateleiras e móveis, é um bom jeito de criar efeitos nos cômodos. O material mais utilizado para isso é a washi tape, um tipo de fita adesiva japonesa que pode ser grudada e desgrudada em várias superfícies sem danos.

- Pintar os vasos de plantas, pendurar luzes de Natal e fazer capas para as almofadas são maneiras simples e econômicas de trazer mais vida ao ambiente, passar o tempo com atividades manuais e reaproveitar o que está guardado. Aos interessados, vale pesquisar mais sobre os projetos conhecidos como "Faça Você Mesmo".

- A arrumação pode ser uma boa oportunidade para brincar e pensar novas funções para os utensílios. Integrantes de um grupo de Facebook na Rússia passaram a fazer releituras de grandes obras de arte com o que tinham em casa: maquiagem, roupas velhas, restos de comida e até bichos de estimação. Na série, houve a reprodução do quadro "Antropofagia", da Tarsila do Amaral, recriada com gengibre, folhas e uma rodela de limão siciliano.

Fontes: Ana Paula de Biasi, psicóloga da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo; Leila Salomão de La Plata Cury Tardivo, professora associada do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo); e Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, professora associada dos departamentos de Psicologia e de pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná.

Equilíbrio